Fernanda Simas/Estadão
Fernanda Simas/Estadão

Na Turquia, sírios sonham com a volta para casa

Cotidiano de campo de refugiados é marcado pela tentativa de retomada da vida normal em meio a acomodações provisórias

Fernanda Simas, Enviada especial/ Gaziantep, Turquia, O Estado de S. Paulo

14 Maio 2016 | 22h00

A vontade do sírio Ahmed Bukar, 50 anos, é a mesma da maioria dos 4.829 refugiados que vivem no campo Nizip 2, na cidade turca de Gaziantep, a 45 quilômetros da fronteira com a Síria. Bukar deixou Alepo em 2012 com a mulher e quatro dos cinco filhos. Mesmo depois de 3 anos e meio, não tem vontade de permanecer na Turquia. “Não importa se estou feliz ou não, sinto falta de tudo no meu país”, diz.

Nizip 2 é o único dos cinco campos existentes na cidade que não possui as casas feitas de tenda. Cada um dos 908 contêineres é dividido em três ambientes - quarto, sala e cozinha e banheiro - e habitado por apenas uma família com até 10 pessoas. As moradias possuem água quente, ar condicionado e refrigerador. São enfileiradas e se diferem pela decoração da entrada, mas uma cena é comum: os sapatos colocados na frente da porta mostram onde vivem os muçulmanos. 

Cada família tem liberdade para decorar e mobiliar o local onde viverá por tempo indeterminado, mas se todos os integrantes saírem do campo e não voltarem, perdem o direito de morar ali, explica o diretor geral do local, Ibrahim Demir. “Agradecemos a Deus por não termos problema aqui. Queremos voltar para a Síria. Estou esperando apenas que acabe a guerra, não importa se (o presidente sírio Bashar) Assad deixará o poder, a guerra precisa acabar”, conta Bukar, com expressão cansada ao lembrar os anos de guerra e a destruição de Alepo.

Fronteira. Cruzar da Síria para a Turquia é um longo caminho para muitos sírios, mas foi fácil para Bukar, por ter parentes vivendo na Turquia que o ajudaram. “Já havia um carro pronto para usarmos na fronteira porque um parente nosso conseguiu nos ajudar e para ir de Alepo até a fronteira também não tivemos dificuldade”, lembra o sírio, acrescentando que na época em que deixou o local os confrontos entre Exército e rebeldes não eram recorrentes e violentos como hoje e ainda não havia a presença do grupo extremista Estado Islâmico(EI).

Segundo Demir, ao cruzar a fronteira, uma pessoa precisa entregar as armas que eventualmente carregue, passar por um exame de saúde e realizar um registro de identidade. Então, é aberto o processo de solicitação de refúgio. De acordo com a religião e o lugar de onde vêm os migrantes, os 908 contêineres são divididos em 10 “cidades”. Todo o complexo é cercado por grades, arame farpado e seguranças, além de haver câmeras de vigilância gravando 24 horas por dia.

Na semana passda, a Human Rights Watch denunciou que soldados turcos mataram cinco sírios e feriram 14 ao longo da fronteira entre março e abril. “Os policiais que atuam na região fronteiriça de Gaziantep e precisam lidar com os migrantes que chegam recebem treinamento especial”, afirmou o vice-governador do local, Halil Uyumaz, mas sem dar detalhes de como funciona esse treinamento especial.

Rotina. As 2.589 crianças que moram atualmente em Nizip 2 têm direito a frequentar a escola, onde há 115 professores turcos ou sírios que já estejam no local há alguns anos. Três filhos de Bukar, de 14, 17 e 18 anos, vão ao colégio montado no campo, que oferece cursos de pré-escola e ensinos fundamental e médio.

As crianças são alfabetizadas em árabe e quando jovens terminam o ensino médio, recebem aulas de turco. Então, podem tentar entrar na universidade. Demir afirma que 37 pessoas se formaram e foram para universidades desde março de 2013, quando o campo de refugiados foi construído. “Prevenimos uma geração perdida de sírios’, afirma o vice-presidente da Afad, agência de desastres naturais e emergências do país, Hamza Tasdelen. Segundo ele, há 5.560 crianças sírias nas escolas turcas atualmente.

Nas salas de aula protegidas por grades, as crianças realizam atividades interativas, jogam a dança da cadeira ao som de músicas locais e, quando são um pouco mais velhas, participam de oficinas de artesanato, montando lembranças que são vendidas depois.Alguns sírios que vivem no campo e chegaram ao local adultos receberam aulas de inglês e agora são professores. Um deles vive em Nizip 2 há três anos e agora dá aula para as crianças. Ele se emociona ao ver que são realizadas visitas ao campo, agradece muito e começa a contar sua história, antes de ser interrompido por um segurança que pede para a reportagem continuar o trajeto da visita.

Bukar é eletricista e conta que sua rotina não mudou muito. Ele levanta todas as manhãs, conversa com os amigos sírios do campo, vai trabalhar e volta. Agora, ele atua como eletricista de equipamentos utilizados na cozinha, como eletrodomésticos. “É como um dia comum na Síria”, diz olhando para a mulher, Hatica Hasad, 46 anos, que se preocupa em servir café aos que estão ouvindo a história de sua família e sempre se senta ao lado do marido.

Fora da parte cercada com arames farpados há um hospital. Uma fila na parte de fora é formada por mulheres sírias cobertas dos pés à cabeça, segurando filhos pequenos enquanto tentam acalmar os mais velhos, impacientes com a demora. Nas salas, prateleiras com remédios são resultado da assistência de agências de ajuda humanitária e, segundo autoridades turcas, principalmente do auxílio do governo. 

Desde o início da crise migratória na Turquia, o país gastou US$10 bilhões. O vice-secretário da área de Relações Políticas do Ministério das Relações Exteriores, Levent Murat Burhan, a questão financeira é muito importante e o país precisa de mais auxílio. “Tentamos prover alívio rápido por meio das agências que temos aqui.” Ele cita como exemplo a existência de um cartão alimentar carregado mensalmente com 85 liras turcas e entregue para os moradores dos 25 campos de refugiados no país. Com o cartão, os migrantes podem fazer compras em supermercados.

Cenário. A saída de Ahmet Davutoglu do governo de Recep Tayyip Erdogan voltou a trazer à tona na Turquia uma discussão sobre a concentração de poder na figura do presidente e a mudança de regime parlamentarista para presidencialista. Com a renúncia do primeiro-ministro, diversas questões, como programas encabeçados por ele, ficaram pendentes. Davutoglu era o principal responsável pela coordenação da acolhida de migrantes e líder das negociações com a União Europeia (UE). No fim do mês, um congresso do partido governista Justiça e Desenvolvimento (AKP) deve ser realizado para determinar quem será o novo premiê. Enquanto isso, altos funcionários do país, inclusive o vice-primeiro-ministro, se reúnem com Erdogan para determinar diretrizes. 

O discurso sobre a política adotada para conter a crise migratória, com a chegada de 2,7 milhões de sírios pela fronteira, é alinhado: o governo continua fornecendo ajuda humana e abrigando os migrantes que chegam, mas o problema não é apenas turco e o país necessita da ajuda de outros, principalmente dos líderes europeus - e é isso que devem pedir na Cúpula Mundial de Ajuda Humanitária, também no fim do mês.

Mas a preocupação entre os cidadãos é outra: com a decisão de Davutoglu, Erdogan concentra ainda mais poder e pode tentar mudar o regime político. No começo do ano, o presidente defendeu que haja um referendo sobre uma reforma na Constituição para diminuir as decisões finais que cabem ao Parlamento. “Essa não é uma reforma da Constituição, é uma desculpa para Erdogan ter mais poder. Ele sabe que no momento não consegue aprovar um sistema presidencialista, então pede que o povo vote uma nova Constituição que lhe permita ser o presidente que deseja”, afirmou o artista turco Koken Ergun. Parte da população diz que a atual agenda política no país é tornar Erdogan um presidente forte, enquanto o restante fica em segundo plano.

Jornalistas que apoiam o governo acreditam ser necessário o presidencialismo, para se ter uma figura forte no comando. Enquanto isso, a discussão sobre realizar conversas com os partidos curdos e interromper a violência não ocorrem; o debate sobre o combate ao Estado Islâmico se limita aos ataques realizados na Síria e no Iraque e o acordo migratório com a UE em março continua sob risco de perder validade. Sem seu principal negociador na questão, o governo turco adotou a postura de não mudar sua política antiterror, requisito do bloco europeu para dar sequência ao pacto, e disse fará as coisas “da maneira turca e não europeia”.

A jornalista viajou a convite do governo da Turquia

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