Na Turquia, ato ecológico virou político

Protestos que paralisaram o país expuseram autoritarismo de Recep Tayyip Erdogan, o primeiro-ministro popular entre os islâmicos

ANDREI NETTO, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

09 Junho 2013 | 02h01

Na semana passada, o curdo ateu Ahmet Saymadi recebeu um telefonema de três amigos que passavam pela Praça Taksim, no centro de Istambul. Ao desligar, postou no Twitter, às 23h47, e no Facebook, um minuto mais tarde: "Pás e tratores para demolir o Parque Gezi. Esperamos que todos se levantem contra a destruição". Em meia hora, cerca de 20 pessoas haviam se reunido para começar a mudar a história da Turquia.

Saymadi é considerado o homem que lançou a mobilização popular nas redes sociais contra a decisão do premiê Recep Tayyip Erdogan de realizar uma reforma urbana na praça. Pelo projeto, a região que é uma das únicas áreas verdes do centro da cidade seria arrasada e daria lugar a um shopping center.

O projeto foi lançado em 2001 pela prefeitura regional de Beyoglu, bairro rico de Istambul. Em 2013, Erdogan forçou a mudança da lei e superou obstáculos que evitavam a destruição do parque. Às 6 horas do dia 28, as máquinas começaram a derrubar as árvores, mas foram impedidas por Saymadi e dezenas de manifestantes. Horas depois, Erdogan os definiria como "bêbados, vândalos e terroristas" - um discurso igual ao de seu ex-amigo, o sírio Bashar Assad.

Vídeos amadores mostram o momento em que os primeiros ativistas foram expulsos à força, dando origem a protestos que se espalharam pelo país, deixando pelo menos três mortos e milhares de feridos. A crise que se seguiu ameaça a estabilidade do governo. "Isso terá repercussões no futuro", disse Saymadi ao Estado. "Daqui para a frente, a Turquia não será mais a mesma."

Para analistas e intelectuais, Saymadi tem razão. Desde então, milhares de pessoas de todos espectros sociais se reúnem em uma mobilização sem precedentes na história da Turquia. A causa, porém, mudou. De uma manifestação ambientalista, o protesto ganhou dimensão política. "Temos uma república, uma Constituição, eleições limpas, Parlamento, tudo. Mas temos um sistema paralelo no comando do Estado que não dá muita atenção para nada disso", diz Nazim Dikbas, filósofo e professor universitário.

Erdogan é amado na Turquia. Líder de centro-direita do Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP), foi eleito, pela primeira vez, em 2002. Desde então, acelerou o crescimento, elevando o PIB de US$ 196 bilhões, em 2001, para US$ 774,98 bilhões, em 2011. A performance veio acompanhada da redução da pobreza e de uma classe emergente. Esse grupo, seu maior eleitorado, é também o mais conservador e fiel às tradições islâmicas.

Assim, Erdogan ampliou as reformas sociais, revendo restrições que a república secular impunha, como o uso de véus por mulheres e as restrições à venda de bebidas alcoólicas, ações vistas como sinais da islamização progressiva promovida pelo AKP. A insatisfação de setores laicos aumentou com os delírios do milagre econômico. Na Turquia, estão em fase de planejamento o maior aeroporto do mundo, a ponte Yanuz Sultan Selim, a terceira sobre o Estreito de Bósforo, além dezenas de grandes torres, mesquitas e shoppings.

"A população turca esperava de Erdogan mais desenvolvimento econômico e o aprofundamento da democracia. Entre 2002 e 2005, ele cumpriu esse papel", diz o cientista político Ali Kazancigil, ex-diretor do Programa de Ciências Sociais da Unesco. "Mas, sem oposição, Erdogan começou a decidir sobre tudo, colocou a imprensa sob pressão, passou a fazer prisões arbitrárias e adotou um estilo autoritário."

A truculência e as suspeitas de corrupção causaram a revolta popular. Para especialistas, não se trata de um novo front da Primavera Árabe - a Turquia não é um país árabe -, mas de uma luta por liberdades civis e individuais. "Não é uma revolta contra uma família que se enrolou ao Estado por décadas. Não é um choque contra um autocrata", afirma o cientista político Ahmed Inset, da Universidade de Istambul. "É uma rebelião pela dignidade."

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