Na TV, Bachelet fala sobre tortura em prisão de Pinochet

Em rara entrevista, líder relata práticas sofridas na detenção da ditadura militar e relacionamento com dirigente socialista

SANTIAGO, O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2014 | 02h02

Em uma rara entrevista na qual falou sobre o período em que esteve presa pela ditadura de Augusto Pinochet, a presidente do Chile, Michelle Bachelet, afirmou ter sofrido tortura psicológica e violência física, em 1975. No relato, que foi ao ar na TV chilena na noite de quinta-feira, a líder afirmou que a maturidade a ajudou a se reconciliar com o passado.

"Sofri tortura psicológica, essencialmente, e alguns golpes, mas não me 'parrillaran' (tortura mediante aplicação de descargas elétricas no prisioneiro deitado em uma grade de molas metálicas)", disse Bachelet ao canal Chilevisión, no especial Eu, Michele, a Bachelet que não conhecias, no qual conversou com o jornalista Iván Nuñez.

A líder lembrou seus dias no centro de tortura Villa Grimaldi, após ser detida pela polícia política, em 1975, com sua mãe, Ángela Jeria. Milhares de pessoas passaram pelo centro de detenção, em Santiago, durante a ditadura. Dos presos, 236 foram executados ou desapareceram. "Tive sorte, comparando com tantos outros. Muitos morreram."

O pai da presidente, o general Alberto Bachelet, foi preso por se manter fiel ao governo de Salvador Allende. Ele morreu na prisão em 1974, após ter um ataque cardíaco em consequências das torturas que sofreu - aplicada por seus próprios subalternos.

Bachelet e sua mãe foram obrigadas a se exilar depois de serem libertadas. Viveram na Austrália e depois se mudaram para a Alemanha, onde Bachelet continuou sua faculdade de medicina.

"No começo, eu tinha muita raiva, uma dor infinita", lembrou a líder. "Sentia indignação. Não imaginei que seria capaz, nesse momento, de dialogar com pessoas com as quais fui capaz de conversar", afirmou Bachelet, primeira mulher a tornar-se ministra da Defesa e presidente do Chile - eleita pela primeira vez em 2006.

Namorado. Na entrevista, a presidente se referiu pela primeira vez ao seu relacionamento com o dirigente socialista Jaime López Arellano, seu namorado na época do golpe militar. Bachelet falou sobre as várias hipóteses do que teria ocorrido com ele na cadeia.

"Uma (possibilidade) é que ele, vítima da tortura, teria entregado nomes. No entanto, ele morou nas casas de pessoas cujos nomes não entregou. Outros dizem que ele entregou certos nomes porque lhe disseram que, se não o fizesse, matariam a mim e à minha mãe no exterior", afirmou Bachelet.

Os dois se encontraram na Alemanha Oriental antes que ele regressasse ao Chile e fosse preso como líder do Partido Socialista na clandestinidade. "Gostaria de saber o que aconteceu realmente: se está desaparecido, se está morto, se está em algum outro lugar."

A relação com Arellano e as suspeitas que recaíram sobre ele marcaram profundamente Bachelet, como mostra o livro Bachelet, a história não oficial, de Andrea Insunza e Javier Ortega, publicado em 2005.

"Foi muito duro para mim, porque eu tinha essa sensação do dever, era jovem e, provavelmente, quando alguém é jovem vê as coisas muito mais em branco e preto. Vivi isso como uma traição pessoal e à causa. Hoje, vejo tudo com um olhar mais maduro." / AFP

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