Na TV, filho de Kadafi adverte para risco de guerra civil na Líbia

Sayf al-Kadafi critica os manifestantes pró-democracia e diz que país 'não é Egito ou Tunísia'

BBC Brasil, BBC

21 de fevereiro de 2011 | 05h24

Um dos filhos de Muamar Khadafi, líder da Líbia, advertiu em um pronunciamento transmitido pela TV que o país poderá enfrentar uma guerra civil. Os comentários de Sayf al-Islam al-Kadafi foram feitos após os protestos contra o governo, antes concentrados no leste do país, terem chegado à capital, Trípoli, neste domingo.

 

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O principal foco das manifestações contra o coronel Kadafi, no poder há mais de quatro décadas, é a cidade de Benghazi, a segunda maior do país, onde acredita-se que mais de 200 pessoas possam ter morrido em consequência da repressão desde o início dos protestos, na quarta-feira.

Apesar de criticar os manifestantes, o filho do líder líbio prometeu "reformas políticas significativas" e afirmou que a Líbia "não é o Egito ou a Tunísia", em referência aos dois países vizinhos que tiveram seus governos derrubados por protestos populares desde janeiro.

Sayf al-Kadafi admitiu que a polícia e o Exército cometeram "erros" na repressão aos protestos, mas disse que o número total de mortes é muito menor do que o que tem sido divulgado.  Ele disse ainda que grupos de oposição e estrangeiros estavam tentando transformar a Líbia em um grupo de pequenos Estados.

Segundo ele, se esses grupos conseguirem seu objetivo, os investimentos estrangeiros seriam interrompidos e o nível de vida da população cairia substancialmente.  O filho de Kadafi também criticou a mídia estrangeira por supostamente exagerar sobre a violência na Líbia nos últimos dias.  Ele negou ainda os boatos de que seu pai teria deixado o país, afirmando que ele permanece na Líbia "liderando a batalha".

Tiros esporádicos

Ao amanhecer desta segunda-feira em Trípoli, as áreas centrais da cidade pareciam relativamente calmas, apesar de tiros esporádicos ainda poderem ser ouvidos.  Segundo testemunhas, manifestantes foram recebidos no domingo na capital com bombas de gás lacrimogêneo e tiros com balas de verdade pelas forças de segurança.

Há relatos não confirmados de que mercenários africanos estariam sendo acionados contra os manifestantes em Trípoli, como já teria acontecido durante o fim-de-semana em Benghazi.  Poucas horas antes da transmissão do discurso de Sayf al-Kadafi, uma multidão podia ser ouvida em Trípoli cantando slogans pedindo a queda do governo.

A verificação das informações sobre os protestos na Líbia têm sido difícil em meio às restrições à presença de jornalistas estrangeiros e a um bloqueio dos serviços de internet e do fluxo de informações em geral.  Mas relatos confiáveis afirmam que uma delegacia de polícia na capital foi queimada e que um prédio pertencente ao partido governista também foi atacado e incendiado.

Apoio

Não há relatos de mortes em consequência da repressão aos protestos em Trípoli.  A cidade de Benghazi, a segunda maior do país, parecia neste domingo estar amplamente sob controle de grupos opositores, após quatro dias de protestos.  Manifestações foram registradas também em outras cidades, incluindo Tobruk, Al-Bayda e Misrata.

Em outro golpe para o coronel Kadafi, representantes da tribo Warfla, a maior do país, manifestaram apoio aos protestos contra o governo.  O enviado da Líbia à Liga Árabe, Abdel Moneim al-Honi, também anunciou que estava "se unindo à revolução" em protesto contra "atos de repressão e violência contra os manifestantes".

'Revolução pelo Facebook'

O pronunciamento de Sayf al-Kadafi foi o primeiro de uma autoridade líbia desde o início dos protestos.  Ele acusou "elementos de oposição" no exterior de tentar iniciar uma revolução pelo Facebook no estilo do Egito e disse que as forças de segurança evitaram o plano.

Ele argumentou que as tropas abriram fogo contra os manifestantes por não estarem treinadas para lidar com a agitação civil.  Mas  advertiu que se houver uma guerra civil os líbios "lamentarão centenas ou milhares de mortes" e o país "cairá de volta ao regime colonial".

Um funcionário do governo dos Estados Unidos ouvido pela agência de notícias Reuters afirmou que a Casa Branca está avaliando "todas as ações apropriadas" em resposta à repressão violenta na Líbia e está avaliando o discurso de Sayf al-Khadafi.

O Ministro das Relações Exteriores da Grã-Bretanha, William Hague, telefonou ao filho do líder líbio para manifestar a "grande preocupação" do país com a escalada da violência.  Após décadas de ostracismo, a Líbia voltou a receber investimentos estrangeiros nos últimos anos, principalmente no setor de petróleo, após o coronel Khadafi renegar o passado de apoio a atos terroristas.

Kadafi chegou ao poder em um golpe de Estado em 1969.  A Líbia é um dos vários países árabes ou muçulmanos a enfrentar protestos pró-democracia desde os levantes populares que levaram à queda do presidente da Tunísia, Zine El Abidine Ben Ali, em janeiro.  Desde então, os protestos populares também forçaram a renúncia do presidente do Egito, Hosni Mubarak, no dia 11 de fevereiro.

 

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