Mikhail Palinchak/EFE - 24/2/2022
Mikhail Palinchak/EFE - 24/2/2022

Na Ucrânia, brasileiros relatam desespero por não conseguirem deixar o país

Gabriel Figueiredo espera ajuda da embaixada brasileira para sair, enquanto Thamany Oliveira arrisca cruzar a fronteira com a Polônia após a invasão russa

Breno Pires e Natália Santos, O Estado de S.Paulo

24 de fevereiro de 2022 | 19h08

KIEV Em meio à invasão em larga escala da Rússia sobre a Ucrânia, brasileiros que vivem no país do Leste Europeu relatam sentir desespero, principalmente porque não há como deixar o país. O recifense Gabriel Figueiredo aguarda um ônibus prometido pela embaixada brasileira, enquanto Thamany Oliveira tenta cruzar a fronteira para a Polônia.

Gabriel Figueiredo mora há dois anos e meio em Kiev e acordou nesta quarta-feira, 24, pensando em ligar para a mãe, que faz aniversário. Mas logo recebeu no celular as notícias de que o presidente Vladimir Putin anunciou uma invasão militar no leste da Ucrânia. Um evento que ele e muitos ucranianos imaginavam que não aconteceria, depois de anos de tensão desde a anexação da Crimeia pelos russos em 2014.

“As ruas estão tranquilas, sem movimento”, conta. “Mas o principal fator agora, realmente, é o medo e a incerteza que a gente vive. Do que pode acontecer, de como a gente vai sair, porque os voos foram cancelados. As estações de trem estão completamente lotadas e as ruas para sair de Kiev também. Então não dá pra pegar a estrada, não dá para alugar um carro. Está um pouco complicado para a gente saber exatamente o que a gente vai fazer.”

Em contato com a embaixada brasileira, diz que há promessa de um ônibus que poderá levar os brasileiros para fora do país. “A informação disponibilizada no canal do Telegram da embaixada foi, agora, para quem mora fora de Kiev, lá para o lado leste, tentar se locomover de alguma forma para cá, para Kiev. Se eles não conseguirem, devem entrar em contato com a embaixada para ver o que a embaixada pode fazer.”

Hoje cedo, Gabriel percorreu ruas desertas em busca de sacar dinheiro em espécie, mas os caixas eletrônicos já não emitem. Conseguiu comprar mantimentos, com cartão de crédito, pelo menos, e mandar mensagens para a família e amigos no Brasil. 

“Fui a alguns outros caixas também, já sem dinheiro, todos sem dinheiro. Porém, tem uma lojinha aqui do lado da minha casa, que funciona 24 horas por dia e eu consegui fazer o pagamento no cartão. Só que um rapaz tentou fazer um pagamento no cartão lá e já não funcionou.”

Daqui a onze dias, ele teria um voo para Viena, onde passaria uma temporada, mas a passagem aérea já foi cancelada com a iminente guerra. Ele está se desligando de uma empresa no país onde trabalhava como gerente de desenvolvimento de negócios. Formado em ciência política, Gabriel entende que a reação ocidental, com anúncio de sanções, é pouco neste momento e espera uma ação mais concreta para proteger a Ucrânia da invasão russa.

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“Hoje, inclusive, é o aniversário da minha mãe. Difícil acordar com uma notícias dessas”, desabafa. “Imaginei que ia acordar, ligar para ela, desejar um feliz aniversário, e o que acontece é o contrário, ela está preocupada com a situação que está acontecendo aqui.”

Tentando sair por conta

Sem ajuda do governo brasileiro e nem do ucraniano, a saída encontrada pela brasileira Thamany Oliveira foi cruzar a fronteira para a Polônia. “Ligamos para o consulado e para a embaixada. O pessoal do consulado disse que não podem nos ajudar em nada. A embaixada em Kiev está em pânico, estão presos lá e não podem nem ao menos ajudar a si mesmos. Então, não podem nos ajudar, mas nos recomendaram a sair do país assim que possível”, disse. 

No início da tarde no Brasil, Thamany chegou a uma pequena vila chamada Shloko, no oeste do país, que fica entre Lviv e a fronteira, com ajuda de amigos ucranianos. A brasileira contou que essa também foi uma solução buscada por moradores locais.

“Eles decidiram de repente correr para a fronteira sem nos dizer o motivo. Estão acompanhando os noticiários, mas não entendemos, e eles não nos contam”, disse. Segundo Thamany, as únicas medidas do governo ucraniano foram estabelecer um toque de recolher e orientar para que as pessoas ficassem em suas casas. “Mas o povo não pretende fazer isso.” 

A saída de Thamany da Ucrânia ainda não é certeza. Em conversa com o Estadão no começo da tarde, ela disse que havia aproximadamente 8km de trânsito em direção à fronteira. Se não atravessasse até 22h (17h no horário de Brasília) existia a possibilidade de ser obrigada a retornar à Lviv por causa do toque de recolher ucraniano. 

Antes de deixar Lviv, Thamany presenciou movimentações de tropas ucranianas em direção ao lado leste da cidade. “Eram tanques de guerra e ônibus com muitos militares na avenida principal. Acreditamos que estavam indo em direção à Ivano-Frankivs'k, perto de Lviv, onde houveram vários ataques. Essa é a informação que os jornais anunciaram”, disse. 

Na madrugada desta quinta-feira, um aeroporto de Ivano-Frankivsk, cidade histórica localizada no oeste da Ucrânia, foi alvo de mísseis russos. 

Thamany chegou ao solo ucraniano na segunda-feira, 21, à trabalho para uma empresa de desenvolvimento de software em Lviv, na qual ela e o marido já trabalhavam remotamente em Curitiba. 

“Quando partimos, a informação era de que Putin havia retirado as tropas da fronteira. No caminho, a tensão aumentou novamente. Até quarta-feira o clima em Lviv era de tranquilidade. Ninguém acreditava que a guerra fosse realmente acontecer. Nos garantiram que estava tudo bem e era apenas barulho da mídia externa”, conta.

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