Na última entrevista, d. Romero previu que podia ser assassinado

Dias antes de ser baleado, religioso que irritava adireita com suas pregações, disse que em El Salvador todos temiam morrer

O Estado de S.Paulo

23 de maio de 2015 | 02h02

"O senhor não tem medo de morrer?", perguntei a d. Oscar Arnulfo Romero, na manhã de 21 de março de 1980, quando ele deu sua última entrevista à imprensa estrangeira - à reportagem do Estado e a mais dois jornalistas: um do Dallas Times e outro da agência alemã DPA - no Seminário São José, em San Salvador. Meus colegas se surpreenderam com a pergunta e, mais ainda, com a resposta.

"Em El Salvador, todos temos medo de morrer", disse d. Romero com tranquilidade, três dias antes de levar um tiro no peito, na hora do ofertório da missa que celebrava no começo da noite do dia 24 de março, na capela do Hospital da Providência, onde atendia semanalmente doentes de câncer. Parecia uma premonição, era quase uma certeza, pois o arcebispo irritava com suas pregações e escritos a extrema direita que combatia, à margem do Exército, as guerrilhas de esquerda.

El Salvador se encontrava em estado de sítio, governado pela Junta Revolucionária, sob a presidência do democrata-cristão Napoleón Duarte. Como a imprensa estava sob censura, com a Rádio Difusora Arquidiocesana fora do ar havia mais de um mês, o arcebispo era a única fonte de informação sobre a violência em El Salvador.

Toda manhã de domingo, ele divulgava uma lista de mortos e desaparecidos, ao concluir suas homilias na catedral. Defendia os direitos humanos e pregava a paz, em incansáveis apelos ao governo, apoiado pelos Estados Unidos, e aos grupos de esquerda que enfrentavam os militares.

"Critiquei as organizações populares, mas a reação do governo é desproporcional e as vítimas são mais numerosas nas esquerdas", afirmou d. Romero, informando, a seguir, que havia denúncias de que algumas pessoas não tinham morrido em confrontos e tiroteios, mas em suas casas ou após sequestros e torturas.

"A esquerda é um amigo ressentido", observou, ao comentar as críticas que, assim como o governo, os líderes das organizações populares faziam à Igreja. Apesar de divergências, conversava com os dois lados.

O arcebispo e agora beato Oscar Arnulfo Romero y Galdamez, na ocasião com 62 anos, fazia suas denúncias sempre em cima de dados concretos e era por isso que parecia ser um homem seguro na defesa dos direitos humanos, não só em El Salvador, mas em toda a América Latina.

Na despedida, d. Romero rabiscou um cartão para que eu entregasse ao cardeal d. Paulo Evaristo Arns, de quem ficara amigo um ano antes, em fevereiro de 1979, na Conferência do Episcopado Latino-Americano, em Puebla, no México. No cartão, o arcebispo dizia, conforme d. Paulo revelou em sua autobiografia, que nunca esquecia o Brasil e as vítimas do governo ditatorial, em suas preces. / J.M.M.

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