Claudio Reyes/AFP
Claudio Reyes/AFP

Na 'última fila' da pandemia, coveiros estão sobrecarregados por tanta morte no Chile

País está entre os 10 primeiros com mais casos e óbitos por milhão de habitantes no mundo

Redação, O Estado de S.Paulo

13 de agosto de 2020 | 08h00

SANTIAGO - Acostumados a lidar com a morte em seu trabalho, a pandemia colocou os coveiros à prova: "Tem sido forte na parte emocional e física", afirma um deles no Cemitério Geral de Santiago, o maior e mais antigo do Chile.

Sobrecarregados e em silêncio, eles constituem a "última linha" no combate ao coronavírus, que colocou este país de 18 milhões de habitantes entre os 10 primeiros com mais casos e mortes por milhão de habitantes no mundo.

Neste cemitério gigantesco -de 86 hectares- hoje enterram-se entre três ou quatro vezes mais mortos do que o normal, mas há poucas semanas o trânsito de cadáveres era 10 vezes maior, sendo sua grande maioria mortes por covid-19, que deixou mais de 375 mil casos e quase 14 mil mortos no país.

"Terminamos todos mortos de cansaço e é um estresse, não físico mas psicológico, porque trabalhar aqui com a dor de toda essa gente, que nem sequer teve tempo de vir com toda a sua família para se despedir de seu parente, é forte", disse Fernando Quezada, assistente funerário do Cemitério Geral.

Como todos os cemitérios do Chile, o Cemitério Geral de Santiago está fechado desde março. As visitas estão proibidas e toda a vida ao seu redor também está paralisada, em uma área movimentada da capital antes da quarentena imposta pela pandemia. 

Ruptura

Na equipe de sete coveiros em que Fernando trabalha, eles próprios sofreram as consequências do coronavírus. Cinco deles adoeceram de covid e tiveram que enterrar um dos vigias de túmulos com quem conviviam diariamente.

"Esta época tem sido difícil na parte emocional e física", disse Cristián Muñoz, de 41 anos. Ele se infectou com covid-19: "Fomos caindo aos poucos; graças a Deus foram sintomas leves", conta.

Mas a dor mais forte de que este coveiro se lembra foi a de ter enterrado um de seus amigos: Mario, que faleceu pelo coronavírus.

"Estamos acostumados a trabalhar com a morte e a ver a dor alheia, e isso nos torna um pouco mais duros, mas não mais. Porque quando aconteceu com Mario, doeu", afirma.

Por protocolo, para todos os enterros de mortos pelo coronavírus, os coveiros do Cemitério Geral usam uma roupa especial, luvas, máscaras e proteção para a cabeça. Os cadáveres chegam do necrotério selados e os caixões fechados. É permitido até 20 pessoas por enterro, mas recomenda-se um número ainda menor de participantes.

Apesar do cansaço, numa pausa entre os enterros, Quezada se sente satisfeito de poder entregar os últimos pêsames. "É a última ajuda dada às pessoas para que possam passar pelo luto tranquilamente", afirma. /AFP

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