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Na Venezuela, chavismo é um regime cada vez mais asfixiado

Os chavistas tentam escapar da asfixia vendendo o ouro que resta no Banco Central

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

03 Fevereiro 2019 | 06h00

Os EUA testam uma nova técnica de pressão por mudança de regime: desviar os pagamentos do petróleo venezuelano do governo de facto de Nicolás Maduro para o de direito de Juan Guaidó. Nos próximos seis meses, as refinarias americanas vão gradualmente deixar de pagar pelo petróleo venezuelano à estatal PDVSA. Depositarão os pagamentos numa conta do Tesouro americano, que tentará fazer o dinheiro chegar até Guaidó.

Os EUA são o destino de 42% do petróleo venezuelano. Ao preço atual, US$ 60 o barril, e com a Venezuela produzindo 1,1 milhão de barris por dia, as importações americanas renderiam cerca de US$ 11 bilhões este ano. Mais do que as reservas declaradas do Banco Central da Venezuela (BCV): US$ 8,4 bilhões.

Além dos EUA, para o tipo de petróleo pesado venezuelano existem refinarias em outros três países: China, Rússia e Índia. China e Rússia não pagam: depois de lhe emprestar US$ 50 bilhões e US$ 17 bilhões, respectivamente, as duas só abatem a dívida.

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Mesmo que a Índia quisesse comprar essa briga com os EUA, a maior parte do petróleo que importa da Venezuela é por meio da russa Rosneft, que por sua vez também abate a dívida. Entre quarta e sexta-feira, acumularam-se 25 petroleiros nos portos venezuelanos, contendo 18 milhões de barris. A PDVSA não autorizou a saída, para evitar o não pagamento.

A Venezuela não tem refinarias. Sua gasolina e outros derivados provêm dos EUA. As luzes ainda acesas em Caracas devem isso ao querosene americano. Produtos que precisam ser misturados ao petróleo para seu transporte, por meio de oleoduto, da Bacia do Orinoco, onde é extraído, até os portos venezuelanos, não serão mais fornecidos pelos EUA. Isso compromete parte da exportação.

Diversos portos venezuelanos não têm calado para os superpetroleiros destinados à Ásia. O óleo é levado em cargueiros menores para países das Antilhas Ocidentais, de onde embarca para a Ásia. Essas ilhas são suscetíveis às pressões americanas e europeias.

O Parlamento Europeu exortou os membros da União Europeia a reconhecer o governo de Guaidó. Espanha, França e Alemanha deram ultimato para o regime convocar eleições presidenciais livres. Caso contrário, reconhecerão Guaidó. O Reino Unido já o fez.

Os 2 mil generais venezuelanos, que trocam seu apoio ao regime pelo controle da venda do petróleo e do ouro e das importações e distribuição dos bens de primeira necessidade, sabem de tudo isso. Eles avaliam, de um lado, a sustentabilidade financeira do regime; de outro, o alcance da lei de anistia aprovada pela Assembleia Nacional, controlada pela oposição. A lei exclui “crimes contra a humanidade” – um conceito amplo, que abarca a morte de centenas de manifestantes e a tortura de dezenas de presos.

Os chavistas tentam escapar da asfixia vendendo o ouro que resta no BCV. Uma fonte anônima disse à agência Bloomberg que 20 toneladas, no valor de US$ 840 milhões, foram retiradas. Um funcionário disse à Reuters que 18 toneladas foram enviadas aos Emirados Árabes. O pagamento seria em euros, em dinheiro vivo.

O jornal russo Novaya Gazeta noticiou que um cargueiro Boeing 757 foi usado duas vezes nesse transporte. Registros de voos confirmam a ida desse avião na quarta-feira, fazendo a rota Moscou-Dubai-Cabo Verde-Caracas. Os Emirados também são suscetíveis a pressões americanas. Já um Boeing-777, da companhia russa Nordwind Airlines, parecia destinado a levar Maduro e seus cúmplices para o exílio, mas eles não embarcaram. Isso se tornou uma briga de gato e rato.

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