Daniel Teixeira
Daniel Teixeira

Na Venezuela, confrontos na fronteira provocam medo e desesperança

Antes de confronto de fato, apoiadores de Juan Guaidó tentaram convencer, em vão, militares chavistas a permitirem entrada de ajuda

Felipe Frazão e Luiz Raatz, O Estado de S.Paulo

24 de fevereiro de 2019 | 05h00

PACARAIMA, RORAIMA - Durou cerca de 8 horas a primeira tentativa do Brasil de enviar parte das 200 toneladas de medicamentos e alimentos em ajuda humanitária à Venezuela, encerrada pouco antes de simpatizantes do presidente autodeclarado Juan Guaidó apedrejarem uma base militar chavista, no início da noite de ontem na fronteira.

Prontos para um confronto bélico, os militares fiéis ao regime de Nicolás Maduro, que bloqueavam a fronteira, e os venezuelanos radicados no Brasil travaram uma guerra psicológica por horas sem que dois caminhões de pequeno porte com cerca de 5 toneladas de insumos conseguissem sair da linha de fronteira. Ao contrário do que anunciaram Guaidó e seus aliados – numa estratégia para dar ânimo aos envolvidos na operação – e depois o Palácio do Planalto, os dois caminhões enviados de Boa Vista avançaram poucos metros na linha fronteiriça e ficaram estacionados, a cerca de 800 metros das Forças Armadas da Venezuela.

Os militantes oposicionistas aplaudiram os militares chavistas, tentaram se aproximar deles levando água e pediam que liberassem a entrada. Segundo eles, o regime bolivariano trocou os soldados e enviou tropas de outros Estados e não de Gran Sabana, cuja principal cidade na fronteira é Santa Elena de Uairén. O objetivo era de que não se reconhecessem e não houvesse empatia.

A tentativa de entrega dos mantimentos transcorreu de forma tranquila pela manhã e à tarde, embora os venezuelanos, cansados, com fome e sede, demonstrassem insatisfação e desesperança. Muitos pediam dinheiro aos profissionais da imprensa brasileira e internacional. Outros consumiam bebidas alcoólicas.

++ Mapa: quem apoia quem na Venezuela

Líderes da coalização oposicionista liderada por Guaidó, como o engenheiro Alberto Palombo, tentavam a todo tempo pedir paciência a centenas de pessoas que protestavam com coletes azuis e bandeiras da Venezuela. A maioria deles é formada por moradores da fronteira, que se dividem entre Santa Elena de Uairén e Pacaraima, em Roraima. Outra parte era de baixa renda, passou pela Operação Acolhida e ficou nos abrigos brasileiros.

Palombo tentava acalmar o taxista venezuelano Luis Cardozo, de 34 anos, que estava com a família por horas sob o sol. “Está difícil. Já estamos há 20 anos esperando”, reclamava Cardozo, em referência à chegada do chavismo ao poder. “O que Guaidó fez foi uma maravilha.”

“Vamos esperar. Maduro está enviando feridos para cá, nós queremos mandar vida”, dizia Palombo, numa tentativa de convencer da nobreza de intenções.

“Já era hora de estarmos lá dentro. Não me importo em morrer. Há muita gente morrendo de fome e por falta de medicamentos”, disse o comerciante Luiz Lanzotti, de 57 anos, que chorava de nervoso.

Por volta 17 horas, houve um princípio de tumulto entre os antichavistas. A deputada venezuela Yuretz Idrogo, do Partido Novo Tempo, disse que os militantes oposicionistas identificaram um suposto infiltrado a mando do governo Maduro, que estaria fotografando os demais.

O rapaz vestia preto e não portava câmera ou telefone, mas foi agredido a pontapés e pedradas e afastado da linha de fronteira.

Horas depois, houve o confronto que se desenhava, iniciado por parte dos oposicionistas, que atacaram a pedradas e coquetéis molotov uma base das forças bolivarianas. “Estamos com muita raiva”, justificou um deles.

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