Meridith Kohut for The New York Times
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Na Venezuela, falta sangue nos hospitais públicos

Escassez de reagentes que testam material doado para infecções faz pacientes de urgência e transfusões apelarem para clínicas privadas

Rachelle Krygier, THE WASHINGTON POST / CARACAS, O Estado de S.Paulo

09 Março 2018 | 06h00

Nunca foi tão mortífero ficar doente na Venezuela. Medicamentos – de antibióticos a drogas de quimioterapia – têm ficado cada vez mais escassos. Hospitais públicos pedem às famílias dos pacientes que lhes forneçam lençóis e seringas. Portadores de HIV têm passado meses sem remédios e transplantados têm morrido por falta de imunossupressores.

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Agora, o país vive a escassez de uma das necessidades médicas mais básicas: o sangue. No fim do ano passado, a crise na saúde fez com que o sangue disponível para transfusões e cirurgias chegasse a níveis críticos nos hospitais públicos. 

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Entre janeiro e fevereiro, afirmam os trabalhadores da área, a escassez paralisou as atividades da maioria dos bancos de sangue públicos, obrigando pacientes a aguardar na fila por procedimentos urgentes. Os médicos passaram a aconselhar as famílias a tentarem adquirir sangue processado em clínicas particulares.

O problema, segundo os médicos, não é tanto a falta de doadores, mas, principalmente, a falta dos sete reagentes que servem para testar o sangue doado para detectar infecções. 

Esses reagentes, que são importados pelo governo para distribuição nos centros públicos de saúde, são negociados em dólar, o que os torna caríssimos na moeda local, o bolívar. Sem os reagentes, o sangue doado não pode ser usado. 

Esta semana, os pacientes venezuelanos tiveram uma rara boa notícia: um estoque de reagentes, quantidade suficiente para dois meses, chegou à maioria dos hospitais públicos venezuelanos, após o Ministério de Saúde e o Instituto de Seguridade Social importarem as substâncias. 

A Organização Pan-Americana da Saúde afirmou que um outro carregamento doado de reagentes será enviado para a Venezuela nas próximas semanas e deverá abastecer o país por mais um mês. Os médicos, porém, qualificam essas entregas como soluções de curto prazo para um problema de longo prazo. 

Para piorar, nem todas as clínicas particulares têm vendido sangue para as famílias dos pacientes internados no sistema público de saúde. Algumas reservam o material para os próprios pacientes – a não ser que os bancos de sangue públicos as acionem diretamente e ofereçam outras substâncias em troca dos reagentes. Seja como for, para muitos pacientes, o sangue tem chegado tarde demais.

 

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