REUTERS/Marco Bello
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Na Venezuela, lojas adotam o dólar para driblar crise e escassez

Os 'bodegones', comércios particulares que lembram as 'lojas de dólar' de Cuba nos anos 1990, oferecem de vinhos finos a produtos importados para bebê, mas preços são estabelecidos na moeda americana e não respeitam valores fixados pelo governo chavista

O Estado de S.Paulo

31 de outubro de 2018 | 17h04

CARACAS - Em um hotel de luxo da capital da Venezuela, uma loja pequena com prateleiras lotadas oferece uma variedade de produtos que vai de vinhos finos a leite em pó para bebê importado, em um contraste acentuado com os desabastecidos supermercados normais da nação em grave crise econômica.

Outra loja localizada em Maracaibo - antigo polo petroleiro do país -, vende cereais matutinos, sopas e sal trufado dos Estados Unidos. Em um país cuja inflação anual está em 400.000% - e com estimativa do FMI de que passe de 1.000.000% em 2018 -, os preços dessas lojas são os únicos que permanecerão estáveis.

“Aqui vendemos em dólar”, disse Lourdes Torres, gerente da loja de Maracaibo, atendendo clientes que esperavam para pagar com a moeda americana. “Aceitamos dinheiro, além de transferências de bancos americanos”, explicou, acrescentando que também recebe pagamentos com a moeda local, o bolívar, com preços convertidos pela taxa de câmbio do mercado negro - que é quase o quádruplo da taxa oficial.

Os “bodegones”, lojas particulares que lembram as “lojas de dólar” que o governo de Cuba administrava nos anos 1990, vêm se expandindo constantemente nos últimos meses, já que realizar negócios com o combalido bolívar se torna cada vez mais difícil.

Sua ascensão vem na esteira de uma decisão do governo do presidente Nicolás Maduro de afrouxar um sistema de controle de moeda em vigor há 15 anos que tornou o comércio em dólar explicitamente ilegal.

Ela também coincide com a dolarização crescente de uma economia em colapso na qual muitos profissionais - de médicos e dentistas a personal trainers - estão cobrando em moeda estrangeira para evitar que seus lucros sejam consumidos pela hiperinflação.

A clientela dos bodegones é formada essencialmente por venezuelanos abastados com rendimento em moeda estrangeira, mas inclui um número cada vez maior de moradores que recebem remessas dos cerca de dois milhões de compatriotas que emigraram para fugir da fome e da doença.

A agência Reuters visitou seis lojas recém-abertas que vendem em dólar em Caracas e cinco outras cidades grandes, incluindo o município fronteiriço de San Cristóbal e o antes florescente polo industrial de Valencia, hoje repleto de fábricas vazias.

Ainda não se sabe exatamente quantas lojas deste tipo foram abertas nos últimos tempos e nem os motivos que levaram o governo a deixar de exigir que elas cumpram os preços tabelados para uma série de produtos, como faz com as principais redes de supermercados. O ministério de Informação venezuelano ainda não se manifestou sobre o caso.

Chamariz

Muitas vezes os bodegones atraem a atenção dos consumidores com produtos de luxo, como chocolates requintados ou aparelhos de alta tecnologia - mas os itens mais populares são os de higiene pessoal, como desodorante e pasta de dente, oferecidos em variedade maior do que nos supermercados, segundo gerentes de lojas.

"As pessoas sempre perguntam se  temos fraldas", diz a administradora de uma loja aberta há poucas semanas no leste de Caracas que, como a maioria dos donos ou funcionários das outras lojas, pediu para não ser identificada.

A preocupação é que essas operações comerciais sejam enquadradas dentro de alguma área legal e possam ser interpeladas pelas autoridades.

Sobre a questão das fraldas, ela afirmou que seu estoque, exibido ao lado de garrafas de champagne, sempre acabam em menos de uma semana.

Os preços dolarizado eram algo impensável sob a estrita regulamentação criada pelo falecido líder venezuelano Hugo Chávez. A norma colocava o governo como responsável por praticamente todas as transações em moeda estrangeira, além de ser o responsável por definir o preço do produtos vendidos no país.

O governo Maduro, que frequentemente acusa os empresários de serem os responsáveis pela escassez de produtos básicos e pela inflação - ao manipularem artificialmente seus estoques -, suspendeu em agosto a proibição da comercialização de divisas. Mas, até o momento, não criou uma lei dizendo que tais operações são permitidas, o que deixou muitos donos de lojas receosos de falar com a imprensa.

Em setembro, quando os bodegones estavam surgindo, o governo prendeu 34 gerentes de supermercados famosos sob acusação de manipulação de preços. Eles foram soltos pouco depois e demitidos automaticamente, segundo fontes da indústria.

María Carolina Uzcátegui, presidente do Conselho Nacional do Comércio e Serviços da Venezuela (Consecomércio), afirmou que as lojas que vendem seus produtos em dólar o fazem "por sua própria conta e risco", se aproveitando da aparente vista grossa feita pelas autoridades e da decisão - por motivos políticos - de focar as ações contra as grandes redes.

"As prisões são um show para culpar os varejistas pela a situação econômica do país", diz María Carolina. "É por isso que eles escolheram as grandes redes (para as fiscalizações) e não as lojas menores e estes novos 'bodegones'", afirma.

Os preços nas lojas que vendem em dólar são exorbitantes para que vive com salários pagos na moeda nacional, o bolívar soberano. O salário mínimo equivale a cerca de US$ 10 por mês (no câmbio paralelo) e cerca de 80% da população não consegue fazer uma das refeições básicas diariamente, segundo um estudo sobre a qualidade de vida no país feito por universidades particulares.

Enquanto isso, cerca de US$ 1,1 bilhão em remessas anuais - recebidos por venezuelanos de amigos e parentes no exterior - se transformaram em uma tábua de salvação para funcionários públicos, aposentados e profissionais assalariados que querem evitar esperar em longas filas ou vasculhar supermercados em busca do que precisam.

Sonia Ramirez, uma juíza aposentada de 52 anos moradora de San Cristóbal, passou a faze compras nos "bodegones" com os US$ 120 que recebe dos dois filhos que migraram para a República Dominicana e para a Espanha.

"Eles estão sempre abastecidos de produtos, mas com um preço muito mais elevado do que o permitido pelo governo", diz. / REUTERS

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