Na Venezuela, nosso Tamarod fracassou

Existem muitas semelhanças entre o governo de Morsi e o chavismo, mas a revolução venezuelana não foi adiante

O Estado de S.Paulo

01 de agosto de 2013 | 05h47

Eu estava no Egito com uma bolsa para estudar a agora suspensa Constituição de 2012 durante as semanas que precederam a revolução recente no país. No Cairo e em Alexandria, as ruas ferviam de conversas sobre um iminente confronto entre o governo do presidente Mohamed Morsi e o Tamarod, um movimento de protesto organizado por um pequeno grupo de líderes jovens que pretendia derrubá-lo.

Testemunhando as frustrações crescentes de muitos egípcios comuns, não pude deixar de notar as notáveis semelhanças entre o governo de Morsi e os chavistas da minha Venezuela. Troquem islamismo por socialismo, barbas por bigodes e os dois regimes começam a ficar extremamente parecidos.

Não em ideologia, talvez, mas em conduta. O mesmo complexo de perseguição. A mesma divisão do povo em "nós" e "eles". O mesmo apelo fácil a uma narrativa histórica triunfalista em vez de soluções pragmáticas para problemas específicos. E, se a Venezuela vem sofrendo há 14 anos com o comando de uma maioria populista, com Hugo Chávez e Nicolás Maduro, ela, um dia, teve um movimento jovem vigoroso, nada diferente do que instigou o Tamarod.

No fim de maio de 2007, quando a Radio Caracas Televisión (RCTV) - a mais antiga e mais popular estação de TV da Venezuela - foi fechada por motivos políticos, a juventude do país começou espontaneamente a protestar.

No início, faltava uma estratégia geral ou objetivos claros, mas os protestos logo se tornaram um farol para a insatisfação popular. Poucas horas depois da primeira manifestação coordenada começar, em 28 de maio, suas fileiras engrossaram de centenas para muitos milhares.

O governo Chávez respondeu com menosprezo e repressão. Enquanto porta-vozes oficiais atribuíam o confronto a uma conspiração secreta da CIA ou ao anarquismo alimentado pelo tédio de fedelhos mimados, a Guarda Nacional respondia com violência.

Eu me lembro de um momento daquele primeiro protesto na Plaza Brión, em Caracas. Um grupo se escondia atrás de uma cerca, num pequeno beco, enquanto canhões de água e balas de borracha do governo derrubavam nossos camaradas na praça.

Vendo-nos acuados, um policial atirou uma bomba de gás lacrimogêneo na nossa direção, como se para nos empurrar de volta ao caos. Ainda me pergunto se ele não estaria rindo por trás de sua máscara.

Influências. Conseguimos saltar a cerca antes de o gás nos envolver, mas a brutalidade da repressão derrubou a alegação do governo de que nós estávamos ali por razões egoístas: eles estavam claramente nos levando a sério. Quando as informações sobre a repressão se espalharam, mais pessoas começaram a se juntar a nós nas ruas. Esse foi um grande desenvolvimento. O chavismo, tal como a Irmandade Muçulmana, teve entre suas armas mais fortes um persistente ressentimento com governos anteriores. Como Morsi, Chávez fora enviado à prisão por seu ativismo.

Para alguns, o fato de seu próprio governo usar táticas repressivas pareceu aceitável no início. Afinal, aquilo viera antes dele, os excessos eram talvez inevitáveis para melhorar a sociedade.

No entanto, os apelos do movimento da juventude por responsabilização ecoaram mesmo nas gerações mais velhas. Em uma questão de semanas, seus números e sua influência cresceram. Num referendo, em dezembro de 2007, os venezuelanos deram a Chávez sua única derrota eleitoral, quando foi rejeitada a proposta de reforma constitucional que aboliria a limitação de mandatos presidenciais e fortaleceria o Executivo.

No fim, como se sabe, o movimento desmoronou. Após o golpe frustrado de 2002, a greve geral fracassada que se seguiu e os incontáveis protestos, ele se tornou vítima de seu próprio sucesso inicial. Quando saíram da universidade, muitos dos líderes mais destacados do movimento ingressaram em partidos políticos. Outros conquistaram postos desejáveis em universidades de elite ou em empresas no exterior. As realizações pessoais, embora merecidas, minaram a causa comum.

Após retornar a Caracas vindo do Cairo, no mês passado, eu me vi, uma vez mais, rodeado por sinais do fracasso do nosso movimento. Outdoors patrocinados pelo governo, grafites oficiais e a programação da mídia estatal assaltavam os sentidos, tentando convencer todos os venezuelanos não só de que a revolução sobrevive, mas que seu triunfo é inevitável.

Visto dessa posição, os sucessos do Tamarod, até agora, são inspiradores. O movimento já realizou bem mais pelo Egito do que nós fizemos ou, francamente, até sonhamos na Venezuela: por duas vezes, a juventude egípcia teve um papel crucial para tirar do poder os governos que ela achou que estavam lhe negando o futuro. A revolução de nossos jovens não chegou lá. Tomara que a de vocês consiga. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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