Na Venezuela, poucos se atrevem a protestar

Na Venezuela, poucos se atrevem a protestar

Com população preocupada em sobreviver, manifestações contra governo perdem força e poder do regime chavista se consolida

Redação, O Estado de S.Paulo

06 de dezembro de 2020 | 05h01

CARACAS -- Ocupados em sobreviver e superar múltiplos problemas cotidianos, poucos venezuelanos ainda se atrevem a protestar contra o regime chavista. Esta semana, Fortunato Alvarán, um idoso de 103 anos foi às ruas de Pedraza, no Estado de Barinas, pedir à população que não vote na eleição de hoje. Acabou preso. 

“Fortunato Alvarán foi preso por protestar – um direito que está na Constituição. Ele ficou preso por mais de quatro horas, recebendo tratamento desumano. Essa coação é reflexo de um padrão que querem impor”, afirmou Javier Tarazona, presidente da ONG FundaRedes, de defesa dos direitos humanos.

 Para o cientista político Carlos Raúl Hernández, “o medo se apresenta mais entre pessoas que não têm como obter recursos”. “A política socialista do governo destruiu a economia privada, fazendo com que as pessoas não possam ser contratadas para trabalhar”, disse. “Elas têm de viver daquilo que o governo entrega. Isso agravou a dependência da população para se sustentar.” 

Por toda a Venezuela, o cenário é desolador. Na semana que antecedeu à eleição, filas de carros aguardavam para abastecer com gasolina importada do Irã, em um país que é sócio fundador da Organização de Países Produtores de Petróleo (Opep) e já foi um dos maiores produtores do mundo. 

Centenas de profissionais aguardam o restabelecimento da eletricidade para poder voltar a trabalhar de casa em razão da pandemia. Outros tentam se esquivar da crônica falta de água encanada, sem contar os que cozinham à lenha em razão da escassez de botijões de gás.

Enquanto o chavismo avança a passos largos para reconquistar a maioria na Assembleia Nacional, na eleição de hoje, a oposição sofre um processo interno de pulverização. Parte dela já havia sofrido um golpe institucional dado pelo Tribunal Supremo de Justiça (TSJ), que destituiu o comando dos partidos Primeiro Justiça e Ação Democrática, substituídos por lideranças menos beligerantes ao governo de Maduro. 

Agora, resta à oposição tradicional, que em 2019 havia ressurgido com a figura de Juan Guaidó, se reestruturar para continuar na luta contra o regime chavista. “O desafio da oposição é encontrar uma nova forma de organização para expandir a coalizão e transformá-la em uma força político-social que possa reivindicar a legitimidade de sua luta pela democracia”, afirma a cientista política Colette Capriles. “Os partidos precisam se reconstruir e formar uma aliança superior com a sociedade civil organizada e os demais atores institucionais que permanecem.”

A oposição tenta se manter relevante e convocou de modo paralelo uma espécie de plebiscito, de 7 a 12 de dezembro, para manter a “continuidade” do mandato do atual Legislativo, iniciativa que será ignorada pelo chavismo. “O objetivo de Maduro nem sequer é ganhar legitimidade, e sim aniquilar a alternativa democrática na Venezuela”, declarou esta semana Juan Guaidó, presidente que está se despedindo da Assembleia Nacional. 

Para Luis Vicente León, diretor do instituto de pesquisa Datanálisis, o objetivo de Maduro é “validar uma instituição que pode ser útil diante de seus aliados”. “Ele não está buscando que EUA e Europa o reconheçam. Ele está buscando que a China sinta que existem instituições que podem apoiar acordos, como por exemplo ligados ao setor do petróleo ou de infraestrutura.” O mesmo, segundo León, se aplica para as relações com países como Rússia, Índia, México ou Turquia. / COM AP e REUTERS

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