Rodrigo Cavalheiro/Estadão
Rodrigo Cavalheiro/Estadão

Na Venezuela, valor de um sorvete paga 1.200 tanques de combustível

Copinho de sorveteiro traído por abstenção pagaria gasolina suficiente para fugir 400 vezes para o Brasil

Rodrigo Cavalheiro, Enviado Especial / Caracas, O Estado de S.Paulo

21 Maio 2018 | 06h00

CARACAS - O sorvete de tamarindo de Antonio Mejia é das coisas mais baratas que se pode comprar na Venezuela. Por 15 mil bolívares (US$ 0,02 no câmbio paralelo, que regula o mercado), também é possível comprar dois cigarros avulsos. Isso se for ao mercado a céu aberto do bairro de Catia, onde caraquenhos de toda cidade a cidade fazem fila para ganhar alguns centavos à hiperinflação, em compras para meses.

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Quem não gosta de tamarindo ou de cigarros, pode abastecer o carro 1.200 vezes com gasolina comum. Considerando-se um tanque de 50 litros, se Mejia quisesse fugir para Boa Vista por terra, por exemplo, poderia percorrer os 1,5 mil quilômetros umas 400 vezes.

Ele se diz muito velho para sair do país uma vez sequer. Aos 70 anos, seu trabalho é um passatempo. O que ganha com o carrinho não paga o transporte de ônibus do tradicionalmente chavista bairro do Petare, onde vive, até o opositor Chacao.

A abstenção opositora tornou sua saída ainda mais inútil. Diante de um centro eleitoral de Chacao, havia na rua 11 cones laranjas lado a lado às 14 horas do domingo. Este é o sistema para organizar filas no lado de fora da escola. Cada cone serve para uma mesa eleitoral, mas o número de eleitores raramente superava o de cones.

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Quando alguns poucos eleitores se acumularam, deram o azar de cruzar com a administradora Libertad Pizzani, de 60 anos, que os repreendia furiosa: “Isso não é normal, não se pode participar desta palhaçada. Não voto por respeito à liberdade!”

Defensora do boicote proposto por opositores impedidos de concorrer, Libertad trabalha em uma universidade particular que cobra mensalidades de US$ 12 por mês e deve fechar por falta de alunos. “Chavistas acabam de arrancar à força um cartaz em que eu pedia abstenção”, disse, mostrando alguns hematomas no pulso. Também opositor, Rodrigo Meli, comerciante que a viu gritar, desabafou: “Por opiniões como esta, teremos Maduro por 20 anos”.

Indiferente ao bate-boca, o sorveteiro Antonio revelou sua preferência: votaria em Henri Falcón, mesmo achando que seria impossível uma vitória dele.

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