Taimy Alvarez/AP
Taimy Alvarez/AP

Antes da cúpula do clima, Salles bate boca com Anitta e personalidades pedem sua saída do governo

Nas vésperas da conferência sobre o clima organizada pelos Estados Unidos e que vai reunir, virtualmente, lideranças de 40 países, o Brasil chega ao evento pressionado, por conta da condução política na área ambiental

André Borges, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2021 | 16h34

BRASÍLIA - Um dia antes de ter início a conferência internacional sobre as mudanças climáticas convocada pelo presidente americano, Joe Biden, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, passou parte do dia envolvido em bate-boca pelas redes sociais, com pessoas que pedem a sua saída do cargo.

Depois de cantora Anitta publicar, em seu perfil no Twitter, uma foto do ministro e escrever “#FORASALLES desserviço para o meio ambiente”, o ministro reagiu à publicação e respondeu: “Fica na sua aí, ô Teletubbie ! #FicaSalles”.

Anitta replicou o comentário do ministro. “Que resposta madura. Quantos anos você tem? 12? Então é melhor sair do ministério anyway”, escreveu a cantora, ao que Salles voltou a responder com a seguinte afirmação: “Se vc conseguir demonstrar, sem ajuda de outra pessoa, que sabe quais são as capitais do Brasil ou pelo menos os nomes dos seis biomas brasileiros a gente começa conversar....”


Em nova resposta a Salles, Anitta fez menções à relação estremecida do Brasil com o presidente da França, Emmanuel Macron, que é crítico da gestão de Bolsonaro na área ambiental. “Desculpa, querido. Não consigo te responder em 5 minutos como você me responde porque eu trabalho. Tava dando umas entrevistas em inglês, espanhol, em francês... você fala francês? Liga pra presidente da França? Ouvi dizer que ele AMA vocês. Aliás é uma loucura a quantidade de perguntas que tenho que responder sobre esse desgoverno de b* que vocês estão fazendo”, escreveu.

A cantora provocou Salles ainda sobre outros temas, como as ações que levaram à paralisação do trabalho de fiscalização no Ibama e o embate com o delegado da Polícia Federal no Amazonas, Alexandre Saraiva, que acabou demitido após apresentar uma notícia-crime contra Salles, acusado de proteger madeireiros que exploram ilegalmente a Amazônia.

“Se você conseguir explicar, pode ter ajuda de alguém, porque sozinho você não conseguiu raciocinar, qual o perigo de acabar com a fiscalização do ibama ou de ir contra a polícia federal para defender madeireiros na maior apreensão de madeira na Amazônia..a gente começa a conversar”, postou a cantora.

As críticas de Anitta geraram uma série de defesas públicas. O humorista Marcelo Adnet saiu em defesa da cantora, assim como o escritor Nelson Motta.

Salles, sem mencionar o nome do delegado da Polícia Federal no Amazonas, Alexandre Saraiva, voltou às redes para fazer uma “homenagem à Polícia Federal e seus relevantes serviços ao Brasil e ao meio ambiente”, acrescentando que “nenhum xiita em busca de holofotes vai conseguir ofuscar o nosso orgulho pelo trabalho desenvolvido pela PF, com bom senso, equilíbrio e respeito ao devido processo legal”.

#ForaSalles

A liderança indígena Sonia Guajajara, que coordena a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e foi candidata a vice na chapa com Guilherme Boulos em 2018, também foi alvo de reação de Salles, depois de pedir a saída do ministro.

“Eu toda ajeitada aqui e animada pra derrubar esse governo genocida. #ForaSalles #ForaBolsonaro Diga ao povo que avance!”, escreveu Sonia, ao que Ricardo Salles retrucou, com a imagem de um fantasma: “Bu #FicaSalles”.

Até mesmo o ator e roteirista americano, Mark Ruffalo, entrou na campanha contra o ministro e postou a mensagem "#AmazonOrBolsonaro #ForaSalles".

O ministro também passou a compartilhar mensagens de apoio para que fique no governo. Em uma delas, a pessoa afirma que “ONGS que sempre lucraram querem voltar a ter dinheiro fácil”. Mensagens de apoio de ministros como Fábio Faria (Comunicações) e Gilson Machado (Turismo) também foram compartilhadas pelo ministro, entre outros. As manifestações de #ForaSalles e #FicaSalles passaram a figurar entre algumas das mais compartilhadas no Twitter.

Nas vésperas da conferência sobre o clima organizada pelos Estados Unidos e que vai reunir, virtualmente, lideranças de 40 países, o Brasil chega ao evento pressionado, por conta da condução política na área ambiental.

Nos últimos dias, Biden foi bombardeado por cartas de governadores, ex-ministros, organizações ambientais, artistas brasileiros, americanos e britânicos, que pedem o endurecimento da posição da Casa Branca com Jair Bolsonaro na área ambiental.

De governadores contrários àqueles que são alinhados ao governo Bolsonaro, passando por empresas do agronegócio e multinacionais da indústria e setor financeiro, além de organizações ambientais, ex-ministros e artistas, criou-se uma mobilização nacional com pensamento independente e de oposição direta a Jair Bolsonaro.

A tentativa é a de sensibilizar o governo americano sobre um comprometimento nacional com o meio ambiente, nem que este compromisso tenha de se concretizar, inclusive, por meio de uma colaboração direta com os Estados brasileiros, em detrimento da atuação federal.

Histórico

Não é primeira vez que Ricardo Salles entra em bate-boca pelas redes sociais. Em outubro do ano passado, Salles chamou  o ministro da Secretaria de Governo, general Luiz Eduardo Ramos, de “Maria Fofoca”. O ataque ocorreu após uma nota publicada pelo jornal O Globo, afirmando que Salles estava “esticando a corda” com militares do governo. O ministro do Meio Ambiente entendeu que seria uma declaração de Ramos, que negou ter feito o comentário.

Dias depois, em mensagem também publicada nas redes sociais, Salles pediu “desculpas pelo excesso” ao chamar Ramos de “Maria Fofoca”. O ministro da Secretaria de Governo, por sua vez, disse que “uma boa conversa apazigua as diferenças”.

Na sequência, uma publicação feita pelo perfil de Salles se referiu ao então presidente da Câmara, Rodrigo Maia, como “Nhonho”. Trata-se de um apelido utilizado de forma pejorativa pelos bolsonaristas contra o presidente da Câmara, em referência ao personagem da série mexicana "Chaves", interpretado pelo ator Édgar Vivar. A palavra “nhonho” é também popularmente usada para se referir a uma pessoa “tonta”, que só fala besteira.

No dia seguinte à publicação, após muita polêmica, Salles disse que foi “avisado há pouco que alguém se utilizou indevidamente da minha conta no Twitter para publicar comentário junto a conta do Pres. da Câmara dos Deputados, com quem, apesar de diferenças de opinião sempre mantive relação cordial”.

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