Na véspera de cessar-fogo, Damasco estende ataque para além da fronteira

Na véspera da data estabelecida para que o regime sírio começasse a retirar suas forças das maiores cidades do país - de acordo com o plano mediado pelo enviado especial da ONU e da Liga Árabe, Kofi Annan -, o Exército de Bashar Assad intensificou a violência e, pela primeira vez desde o início da crise, há mais de um ano, cruzou as fronteiras da Síria. Duas pessoas foram mortas em território turco e uma no Líbano.

JAMIL CHADE , CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2012 | 03h03

Começa a vigorar hoje o prazo de 48 horas para que todas as forças envolvidas no conflito abandonem as armas. Em vez de sinais de que o acordo será cumprido, tropas sírias promovem uma ofensiva para controlar a maior parte possível do país antes do cessar-fogo, causando uma explosão da violência que deixou entre 100 e 150 mortos só na segunda-feira.

Pelo plano de Annan, tanto os rebeldes quanto o governo deveriam se retirar de áreas estratégicas, abandonar as armas e iniciar um cessar-fogo entre hoje e quinta-feira. Sem a violência, um diálogo político seria iniciado.

Mas às vésperas da entrada em vigor do plano, diplomatas em diversas partes do mundo estimam que o acordo fracassou, entre eles o governo de Ancara, que ameaçou ontem responder militarmente se a violência em sua fronteira continuar. A Casa Branca também pôs em dúvida a sobrevivência do plano de Annan.

A ofensiva de ontem visava a desmontar os principais redutos dos rebeldes e o dia foi um dos mais sangrentos desde o início do conflito há mais de um ano. Para o Observatório Sírio de Direitos Humanos, com sede em Londres, 105 pessoas morreram.

"O regime pensou que até 10 de abril (hoje) recuperaria o controle das cidades rebeldes. Como não ocorreu, tenta ganhar tempo", afirmou Rami Abdel Rahman, presidente da entidade. "Se o plano de Annan não funcionar, nenhum outro funcionará e a Síria vai afundar em uma longa guerra civil." Para os Comitês de Coordenação Local, o número de mortos chegou a 153, ontem.

Um dos incidentes mais graves ocorreu na região de Hama, no norte da Síria, onde o bombardeio aéreo a Al-Latmana, matou em um só ataque 35 pessoas, entre elas 17 crianças e 8 mulheres.

Para os ativistas, Assad está tentando desesperadamente reconquistar o controle sobre cidades usando tanques e aviação em ataques indiscriminados.

Com o conflito se estendendo para fora das fronteiras sírias, disparos feitos por forças do governo atingiram refugiados num acampamento administrado pelos turcos. Segundo fontes, pelo menos três refugiados e dois funcionários turcos foram baleados. Segundo a BBC, dois refugiados morreram. Já os rebeldes teriam matado seis soldados sírios e membros da polícia aduaneira. Os confrontos ocorreram entre as cidades de Azaz, na Síria, e Kilis, na Turquia. Segundo o governo turco, forças sírias dispararam contra um grupo de civis que tentava fugir para a Turquia e, depois, passaram a visar o acampamento de refugiados.

No total, já são quase 25 mil os refugiados sírios no país vizinho. Os ataques ocorrem às vésperas da visita de Annan aos acampamentos, acompanhado pelos senadores americanos John McCain e Joe Lieberman.

O governo de Ancara, que já vinha demonstrando sua insatisfação com os sírios, reagiu ontem de forma dura e foi contundente sobre o que já considera o fracasso do plano de paz. "O plano de 10 de abril tornou-se vazio", disse o vice-chanceler turco, Naci Koru. Segundo o jornal Milliyet, um dos principais da Turquia, Ancara já começa a se preparar para pôr em prática seu plano de estabelecer zonas de apoio aos rebeldes e para onde refugiados poderiam se dirigir e seriam protegidos pelo Exército turco.

Os turcos ainda disseram e que não tolerarão um novo incidente como o de ontem.

Para isso, lembram que um acordo entre Turquia e Síria de 1998 prevê reciprocidade na segurança. Os dois governos se comprometiam a evitar que seus territórios fossem usados de maneira a ameaçar o vizinho.

Portanto, se Damasco não tem como garantir a segurança de seu lado, Ancara se daria o direito de realizar uma intervenção em solo sírio para estabelecer zonas tampões de segurança. Ismet Yilmaz, ministro da Defesa turco, insistiu que Ancara estaria se preparando "para todos os cenários".

Temendo que a crise saia do controle, Ban Ki-moon, secretário-geral da ONU, deplorou ontem os incidentes nas fronteiras e insistiu que chegou o momento de Assad cumprir sua palavra e honrar o acordo que estabeleceu com Annan de deixar as armas. "O cessar-fogo precisa ser respeitado", disse.

No fim de semana, Damasco impôs novas condições para aceitar o cessar-fogo, que foram imediatamente rejeitadas pelos rebeldes.

No Líbano, o cinegrafista Ali Shaaban, da rede de TV Al-Jadeed, foi morto por disparos vindos da Síria. A agência oficial de notícias síria, Sana, informou que o governo havia frustrado a entrada de dois grupos armados pela fronteira libanesa.

A TV, porém, relatou que o grupo de jornalistas estava em território libanês e foi alvo de mais de 40 disparos, vindos do vilarejo sírio de Armouta.

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