Na véspera de eleição, Alba se reúne em Caracas

Evo e Zelaya participam de ato público antes da disputa regional em que Chávez, pela 1ª vez em 14 anos, não pôde fazer campanha

Entrevista com

RODRIGO CAVALHEIRO, ENVIADO ESPECIAL / CARACAS, O Estado de S.Paulo

15 de dezembro de 2012 | 02h06

A Aliança Bolivariana das Américas (Alba), liderada pelo boliviano Evo Morales, se reunirá hoje em Caracas, às vésperas da eleição regional que definirá a nova correlação de forças e os nomes da disputa presidencial, caso Hugo Chávez não assuma o poder dia 10 de janeiro. É a primeira vez que o líder, em recuperação da quarta cirurgia, feita na terça-feira, fica fora de uma campanha em 14 anos.

Embora atos públicos de campanha estejam proibidos desde quinta-feira, a reunião da Alba, oficialmente marcada para comemorar seus oito anos de fundação, deve ter tom de comício no centro da capital venezuelana, com a participação de Nicolás Maduro, chanceler, vice-presidente e sucessor nomeado por Chávez. O ex-presidente de Honduras, Manuel Zelaya, também confirmou presença, além de líderes de ilhas caribenhas integrantes da Alba.

Na terça-feira, Chávez foi submetido em Cuba a uma cirurgia em que houve um sangramento inesperado e "complicações", segundo o governo revelou na quinta-feira. A admissão pelo chavismo de que se seguiria um período complexo de recuperação e de que há possibilidade de Chávez não assumir o poder dia 10 aumentou as especulações sobre o quadro do comandante - indefinição que tanto chavistas quanto a oposição passaram a usar como arma de campanha.

Na quarta-feira, um boato sobre a morte do presidente, proveniente da Colômbia, precisou ser desmentido na TV pública Venevisión pelo ex-vice-presidente Elías Jaua, candidato ao governo do Estado de Miranda, onde ocorre a principal disputa da eleição de amanhã.

Jaua enfrenta Henrique Capriles, derrotado por Chávez nas eleições presidenciais de outubro. Mais do que um novo mandato, Capriles busca consolidar o papel de candidato da Mesa da Unidade Democrática (MUD), coalizão heterogênea de partidos cuja único objetivo comum é derrotar o chavismo.

Eleições. Caso Chávez não possa assumir o mandato, que vai até 2019, caberá ao presidente da Assembleia, Diosdado Cabello, convocar em 30 dias novas eleições. Se Chávez iniciar o novo período de governo e não puder concluí-lo, será Maduro quem deverá organizar a nova votação, na qual representaria o governo.

Os rumores sobre a morte de Chávez voltaram ontem à tarde, depois de Maduro convocar uma reunião de emergência do Conselho de Ministros. Conforme o ministro de Comunicação, Ernesto Villegas, o encontro serviu para tratar de temas relacionados à eleição de amanhã e dar uma resposta ao presidente dos EUA, que horas antes dissera, em entrevista em Miami, que "os venezuelanos deveriam definir seu futuro" - uma referência à nomeação por Chávez de Maduro como seu sucessor, há uma semana, antes de ir para Cuba.

"Consideramos indignas as declarações do presidente dos EUA", disse Villegas, que ainda exigiu respeito a uma "democracia autêntica, onde se exercem direitos que ainda não existem nos EUA". O ministro não detalhou quais seriam esses direitos, mas alfinetou o sistema eleitoral americano, o qual considerou "arcaico".

Após a reunião com ministros, Maduro agradeceu as demonstrações de apoio do exterior e pediu que os venezuelanos se unam em torno do presidente, que estaria "evoluindo progressivamente".

"Até o presidente (uruguaio) José Mujica, que nunca acreditou em nada, todos sabemos, pediu a Deus pela saúde dele. Isto nos alegra muito", afirmou Maduro durante reunião com a comunidade islâmica, em uma cerimônia em favor da recuperação de Chávez.

Mujica, que participou de uma missa pela saúde do líder bolivariano em Montevidéu, se disse ontem disposto a visitar o venezuelano em Cuba "desde que os médicos considerem possível".

Ontem, o presidente cubano, Raúl Castro, disse que seu país está com o venezuelano "nesta hora crucial". Raúl recebeu Chávez no aeroporto, no domingo, algo que não havia feito nas últimas viagens do colega à ilha, para sessões de químio e radioterapia.

"Nesta hora crucial para Venezuela e para nossa América, estaremos, como sempre, junto do presidente Chávez e da revolução bolivariana, que ele encabeça, de um povo unido e revolucionário que encarna coletivamente seus ideais", disse Castro na Assembleia cubana.

A Venezuela envia petróleo subsidiado a Cuba, razão pela qual analistas acreditam que o governo cubano esteja especialmente preocupado com a recuperação de Chávez e com a manutenção do chavismo no poder. Cuba retribuiu enviando médicos que trabalham em unidades de saúde básica na Venezuela.

O câncer de Chávez é provavelmente terminal, tendo em vista as recidivas da doença, embora ele possa apresentar recuperação em alguns períodos, afirmaram vários especialistas em câncer não envolvidos no tratamento do líder venezuelano.

Na quinta-feira, o governo venezuelano disse que os médicos elevaram o estado de saúde de Chávez de "estável" para "favorável". Mais cedo, afirmou que houve "complicações" durante a cirurgia e "foram necessários procedimentos em razão de uma hemorragia".

O fato de que o câncer voltou duas vezes após ele ter passado por quatro cirurgias e pelo tratamento de radioterapia e quimioterapia indica que é agressivo e com baixa probabilidade de cura.

"Qualquer procedimento adicional é paliativo e tem como objetivo impedir que os sintomas piorem e não tem a cura como alvo neste estágio", disse Michael Pishvaian, oncologista do Centro Oncológico Lombardi, da Universidade Georgetown.

Chávez foi diagnosticado com câncer em junho de 2011, depois de passar por uma cirurgia para a retirada de um abscesso pélvico, ocasião em que foi descoberto um tumor "do tamanho de uma bola de beisebol", como ele próprio descreveu. A última cirurgia para a remoção do tumor foi realizada em fevereiro. / COM AP e EFE

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