Jonathan Ernst/REUTERS
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Na Washington de Biden, democratas e republicanos ainda não encontraram 'unidade'

Presidente americano é apóstolo do bipartidarismo e cultiva estreita amizade com membros do outro lado do Congresso, mas estruturas de estímulo mudaram

Peter Baker, The New York Times

23 de janeiro de 2021 | 06h00

WASHINGTON – Ao definir a sua missão para a história, como conciliar um país dividido, o presidente Joe Biden adotou o termo “unidade” como lema de seu jovem governo. Entretanto, o que divide os Estados Unidos é o próprio significado de unidade.

Em seu discurso de posse na quarta-feira e em outras aparições em público, Biden se dirigiu aos republicanos com mensagens de conciliação, prometendo atacar os enormes desafios da nação – um tom drasticamente diferente daquele adotado pelo presidente Donald Trump. Mas, pelo menos nas primeiras horas de Biden, o apelo se exprimiu mais em palavras e símbolos do que em atos concretos.

Ele não nomeou nenhum membro do partido de oposição para o seu gabinete, como os presidentes Bill Clinton, George W. Bush e Barack Obama fizeram. E muitos dos decretos que ele assinou em seus dois primeiros dias no cargo visaram reverter as medidas de Trump e aplicar ideias liberais, sem encontrar um denominador comum. O presidente não apresentou nenhum exemplo de prioridades republicanas que estivesse disposto a adotar no interesse da cooperação bipartidária nem tampouco explicou quais seriam os compromissos aceitáveis para obter a aprovação do Congresso a suas iniciativas.

Entretanto, Biden e seus aliados afirmam que unidade significa algo diferente de concessão – mais uma mudança da cultura, e não de divisão da diferença nos planos políticos. Depois de uma presidência que salgou as feridas de cor, religião, gênero, orientação sexual e cultura, e então da tentativa de reverter uma eleição democrática que levou ao ataque enfurecido no Capitólio, a unidade pode significar um renovado comprometimento com os mais amplos valores dos Estados Unidos. Os dois lados ainda travarão acirradas batalhas a respeito de ideias, mas deveriam ser debates de boa vontade e não operações de busca e destruição.

“Em última análise, uma maior unidade exigirá um acordo mais amplo a respeito do valor do próprio governo, precisamente o motivo pelo qual Biden está enfatizando as  ações de um governo competente como o elemento fundamental para a recuperação da pandemia e da crise econômica”, disse Paul Bledsoe, ex-integrante do staff do Senado e da Casa Branca de Clinton que atualmente está no Progressive Policy Institute.

Biden é há muito tempo um apóstolo do bipartidarismo e cultiva uma estreita amizade com os membros do outro lado do Congresso em seus 36 anos como senador e oito como vice-presidente. Ocorre que as estruturas de estímulo mudaram. Onde os políticos percebiam uma recompensa política por, pelo menos, darem a aparência de bipartidários, hoje percebem o risco de serem acusados de uma liquidação pelos elementos mais inflamados do seu próprio partido. Compromisso é visto por muitos como vício e não como virtude.

Os lampejos de cortesia entre os dois partidos vistos no dia da posse desapareceram rapidamente no dia seguinte. Na quinta-feira, democratas e republicanos do Senado se enfrentaram na questão das normas para governar sua Câmara, dividida exatamente ao meio nos próximos dois anos, bem como sobre como proceder com o julgamento de Trump, que sofreu um impeachment por incitação à insurreição. Os republicanos se queixaram de que a agenda do novo presidente a respeito de imigração, economia e meio ambiente apresentada por meio de decretos e a legislação proposta não ofereceram um gesto na sua direção.

“Biden deu uma boa mensagem de unidade”, escreveu no Twitter Alyssa Farah, que foi a última diretora de comunicações de Trump na Casa Branca, antes de romper com ele após o ataque ao Capitólio, “mas até agora as medidas visam apenas a metade do país que o apoiou, sem um sinal de aproximação com os que não o apoiaram”.

O incipiente processo de impeachment de Trump tornou-se rapidamente um para-raios nos primeiros dias da presidência de Biden, retratado pelo segmento do Partido Republicano que ainda apoia o ex-presidente como um ato de retaliação  que desmente a bonita linguagem de unidade.

“Eu preciso dizer a vocês, que é difícil unir quando eles estão querendo o impeachment de um presidente que já não está no cargo”, afirmou em uma entrevista o deputado republicano Jim Jordan de Ohio, um dos mais fortes defensores de Trump. “É difícil unificar quando não podemos expor os nossos argumentos por causa da cultura deste tipo de ostracismo.” 

Segundo os defensores de Trump, Biden deveria convocar os democratas do Congresso e dizer-lhes que recuem.

Os democratas zombaram desta sugestão, afirmando que unidade não significa sacrificar a responsabilidade. Na quinta-feira, um grupo de senadores democratas apresentou uma queixa à Comissão de Ética contra dois aliados republicanos de Trump, o senador Ted Cruz do Texas, e Josh Hawley de Missouri, acusando-os de legitimarem a multidão, contestando o voto do colégio eleitoral por Biden. 

“Não acredito que seja uma posição muito unificadora dizer: ‘Vamos esquecer disso e seguir em frente’.  Não é assim que se unifica uma nação”, afirmou aos repórteres a presidente da Câmara, Nancy Pelosi. “Você não diz a um presidente: ‘Faça o que quiser nos últimos meses do seu governo. Você vai receber um passe livre de perdão por que as pessoas acham que nós teremos de fazer bonito  e esquecer que pessoas morreram aqui no dia 6 de janeiro”,

Os republicanos se queixaram de que não havia diálogo antes de Biden apresentar a sua proposta de lei sobre a imigração que permitiria que 11 milhões de pessoas que vivem no país ilegalmente obtivessem a cidadania, e simultaneamente parar com muitas deportações e suspender a construção do muro de Trump na fronteira. Civilidade, eles dizem, não é a mesma coisa de unidade.

“Bipartidarismo não é o tom. É política”, afirmou Josh Holmes, estrategista republicano e ex- chefe do staff do senador Mitch McConnell de Kentucky, o líder republicano. “E eu acho que ele imaginou o tom. Mas não é unidade. Se você está fazendo direito coisas radicalmente partidárias, a unidade não virá seguramente em seguida”. / Tradução de Anna Capovilla

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