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Nacionalismo britânico

Grupos extremistas uniram-se aos defensores do Brexit por racismo e nacionalismo

Gilles Lapouge , O Estado de S. Paulo

08 Dezembro 2016 | 05h00

O Reino Unido deixou a União Europeia em 23 de junho, no referendo do Brexit. Isso há cinco meses. E depois? Nada aconteceu. A nova primeira-ministra, Theresa May, que é uma figura ilustre, importante e conservadora, reflete a respeito. Ganha tempo.

Ela é quem deve ativar o Artigo 50 do Tratado de Lisboa, dando início aos procedimentos para a separação entre Reino Unido e Bruxelas, o que deve durar oito meses. Ora, o que tem feito Theresa May? Aguardado. Pior: recusa-se a expressar suas intenções, seu plano, suas ideias. Em resumo, procura acalmar a situação, mas vem inflamando os ânimos.

Todos estão nervosos. Os europeus, que gostariam de resolver de uma vez por todas essa saída dos britânicos, os partidários britânicos do Brexit, impacientes para entrar no seu novo e velho estatuto de Estado-nação, e os contrários ao Brexit, extremamente furiosos.

O divórcio de um casal já é uma questão complicada. Entre uma nação e uma União Europeia é muito mais. Centenas de advogados britânicos trabalham noite e dia no assunto. Não nos juntamos a eles porque o inconveniente e o charme do Reino Unido é que ele não tem uma Constituição escrita. Para acompanhar o debate jurídico em curso, é necessário ser britânico de pai a filho desde a época de Cromwell ou mesmo de Ricardo III.

O drama do Brexit não envolve só os mistérios obscuros do direito britânico. Ele provoca a ressurreição violenta do nacionalismo. Esse velho país, tão sensato, civilizado, de repente adota ares de bandido. As tensões entre os radicais do Brexit, os mais moderados, e sobretudo entre seus defensores e opositores, parecem brigas de rua.

Em junho passado, uma deputada contrária ao Brexit, Jo Cox, foi assassinada por Thomas Mair, defensor da saída, aos gritos de “Grã-Bretanha em primeiro lugar”, o primeiro crime político britânico desde 1990. Claro que esse Mair era um neonazista, mas há outros no país e a paixão nacionalista inflamada pelo Brexit tornou-se tão irracional que tudo pode acontecer. Trata-se de um nacionalismo da espécie mais sórdida, insuflado por uma imprensa poderosa: o Daily Mail é lido por 1,6 milhão de pessoas diariamente.

E não é o único a atiçar o fogo. Um deputado conservador exige uma lei criminalizando quem tiver o mau gosto de falar mal do Brexit. O ministro do Interior declarou que sempre colocará os interesses dos britânicos antes dos outros. Deputados exigem que se refaçam os livros de História, nas escolas, para se consagrarem sobretudo à “História da nossa ilha”.

Jornais pedem que seja restabelecido o passaporte de outrora, com sua capa azul. Outros, que se lance ao mar de novo o iate real Britannia. E está se desenvolvendo uma obsessão: reatar com o tempo abençoado em que o Sol jamais se punha no Império Britânico.

A partir da década de 80, surgiram no Reino Unido inúmeros movimentos extremistas, nacionalistas e racistas, como o Partido Nacional Britânico ou a Liga de Defesa Inglesa, repletas de sonhos delirantes.

A atração por pequenos grupos, depois, diminuiu. Seus partidários se juntaram aos pró-Brexit por racismo e nacionalismo, mas graças ao atual período de transição, e aguardando que volte a ser levantada a passarela do navio Britannia, esses fanáticos marcam a pauta da imprensa popular.

Retomam velhas obsessões britânicas que se acreditava exiladas em algum canto infecto do século 13, uma delas explicada luminosamente pelo Daily Mail: “a inveja e o ódio dos britânicos estão no cerne da identidade francesa”.

Repentinamente, nos sentimos rejuvenescidos em um ou dois séculos. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

*É CORRESPONDENTE EM PARIS

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