Nacionalismo indígena ganha fôlego na América do Sul

Decisões de Evo e Correa inflamam reivindicações por recursos naturais

João Paulo Charleaux, O Estadao de S.Paulo

28 de setembro de 2008 | 00h00

A decisão do governo equatoriano de expulsar a construtora Norberto Odebrecht do país, na última terça-feira, deu novo fôlego a grupos indígenas da América do Sul, que vêem a exploração dos recursos naturais como a última fronteira de uma guerra que começou com a colonização.Em pelo menos seis países sul-americanos, movimentos indígenas organizados voltaram a falar sobre "propriedade ancestral dos recursos" e a manifestar contrariedade com a presença de empresas estrangeiras, como aconteceu com o gás boliviano explorado, principalmente, pela Petrobrás na Bolívia de Evo Morales.Das 18 grandes obras que a Odebrecht toca hoje na América do Sul, 14 estão em países onde grupos indígenas provocam instabilidade ou governos populistas tornam as regras incertas para os negócios. "Não nos metemos nos assuntos locais, levamos sempre em conta que somos estrangeiros" disse ao Estado o diretor de Relações Institucionais da Construtora Norberto Odebrecht, Roberto Dias. "Da mesma forma, dizemos aos nossos funcionários que não se trata de morder e sair, mas de lançar bases parar ficar 50 anos."Para o presidente da Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador (Conaie), Marlon Santi, "as empresas transnacionais negociam nossa mãe-terra e nos roubam o petróleo e os minerais. Nossa proposta é de que tudo isso seja nosso".Em maio, Santi havia retirado o apoio ao governo depois que o presidente anunciou que a nova Constituição não daria aos indígenas o direito de decidir sobre a exploração dos recursos naturais. Agora, há um novo aceno de Correa aos movimentos indígenas, com a decisão de impedir que executivos da Odebrecht deixem o país e as Forças Armadas ocupem as instalações da empresa. Há apenas quatro anos, a influência desses grupos na política equatoriana foi determinante para a queda do então presidente, Lucio Gutiérrez. Eleito em 2002, Gutiérrez não resistiu depois que o partido indígena Pachakutik passou para a oposição, elevando o índice de rejeição ao seu governo para 70%.O Brasil deu asilo ao presidente deposto e acabou alvo de protestos. "Nosso objetivo era contribuir para o processo de paz social num país que vivia uma crise político-institucional de extrema gravidade", disse na época o então embaixador do Brasil em Quito, Sérgio Florencio. AUTONOMIA TOTALNo Peru, onde a construtora brasileira participa da construção de um porto e duas rodovias no sul do país, orçadas em quase US$ 2 bilhões, o ambiente político também pode se deteriorar, já que a reprovação ao governo na região chega a 96%.O presidente regional de Puno, Hernán Fuentes, prega a autonomia indígena e a aliança com os vizinhos de mesma etnia que vivem do lado boliviano.Em sua página na internet, Fuentes elogia Hugo Chávez, Fidel Castro e Evo Morales e diz "entender" o ponto de vista das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Ao sul, no Chile, os mapuches pregam a autonomia total de 3 das 12 regiões que formam o país - numa área que corresponde a 20% do território continental chileno -, justamente onde está concentrado o maior potencial hidrelétrico do país."Minha posição é de absoluto rechaço (às hidrelétricas)", disse o líder indígena Aucán Huilcamán Pillama. Ele anunciou também sua intenção de candidatar-se à presidência do Chile nas próximas eleições, com a bandeira da "autodeterminação e do autogoverno mapuche".Por autonomia, os indígenas chilenos entendem "governo próprio e leis próprias, sem a presença da força pública", explica Jorge Huenchullán, líder mapuche na cidade de Temucuicui. "Se me perguntam se sou chileno, digo que sou mapuche", diz Huenchullán.Atento ao risco que a proposta representa para a integridade territorial, o governo local já deteve 25 mapuches, alguns deles enquadrados na lei antiterrorismo, criada durante a ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990). Sem vencer a resistência dos mapuches às hidrelétricas, o Chile continua preso á dependência do gás boliviano. Nos meses de inverno, o produto chega a faltar por causa do aumento da demanda dos vizinhos argentinos.

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