Nacionalistas causam 'terremoto político' em Paris

Vitória da extrema direita de Marine Le Pen, na eleição de domingo para o Parlamento Europeu, abala base de partidos tradicionais da França

COLLETTE , DAVIDSON, CHRISTIAN SCIENCE MONITOR, O Estado de S.Paulo

28 Maio 2014 | 02h03

Depois que a extrema direita da França, representada pelo partido Frente Nacional (FN), contrário à imigração, obteve uma vitória histórica nas eleições europeias de domingo, sua tarefa agora se voltou para a dissolução da Assembleia francesa e a criação de uma aliança com os eurocéticos. O Partido Socialista, do presidente François Hollande, define o resultado como um "terremoto político".

Pouco depois de as pesquisas de boca de urna anteciparem sua vitória, a líder da Frente Nacional, Marine Le Pen, já se mostrava desafiadora. Com as estimativas preliminares que davam à FN uma liderança confortável, com 25%, em comparação aos 20,6% da União por um Movimento Popular (UMP), de centro-direita, e aos 14,2% do Partido Socialista, Marine afirmou que o povo francês falara em alto e bom som.

"Nosso povo quer uma política feita pelos franceses, para os franceses e com os franceses. Ele não quer mais ser liderado de fora nem se submeter a leis de fora", declarou ela na sede do seu partido, no bairro de Nanterre, nos arredores de Paris.

"Nós devemos construir outra Europa, uma Europa livre, formada por nações soberanas e na qual a cooperação seja decidida livremente. Essa é uma rejeição maciça à União Europeia", afirmou Marine, pedindo ao presidente Hollande a dissolução da Assembleia Nacional. "O que poderá fazer o presidente após tamanha rejeição?", questionou.

A vitória da Frente Nacional provocou uma tempestade de comentários, além de um choque nos partidos de oposição. Embora as pesquisas de opinião do início do mês mostrassem a FN assumindo a liderança nas eleições europeias, alguns observadores ficaram surpresos quando viram isso ocorrer de fato.

O primeiro-ministro francês, Manuel Valls, definiu os resultados como "um grave momento para a França". "Rejeitar os outros não é do feitio dos franceses e não é essa a imagem que queremos para a França", disse Valls, referindo-se à posição da FN em relação à imigração.

Os resultado do partido de Marine, no domingo, foi o melhor já obtido pela FN em eleições, francesas ou europeias, e supera os da votação presidencial de 2002 - quando o pai de Marine e ex-líder do partido, Jean-Marie Le Pen, conseguiu ir ao segundo turno com cerca de 18% dos votos.

Os números das eleições devem oferecer à FN uma representação considerável no Parlamento Europeu, com algo entre 21 e 24 cadeiras, das 74 que a França tem direito - um aumento significativo em comparação às 3 que eles obtiveram em 2009. Ao mesmo tempo, a UMP deve conseguir entre 18 e 21 cadeiras, enquanto os socialistas obterão de 13 a 15.

Troca de acusações. Apesar das numerosas viagens de Valls a países vizinhos - incluindo Alemanha e Espanha - para mostrar o real compromisso da França com a Europa, o Partido Socialista registrou seus piores resultados na história das eleições.

Em 2009, quando obteve 16%, o resultado já foi considerado uma "catástrofe". Alguns observadores indagam se o índice de 57% de abstenção não teria contribuído para os magros resultados dos socialistas.

Ao mesmo tempo, o líder da UMP, Jean-François Copé, foi culpado pelo fracasso do seu partido. O prefeito de Bordeaux, Alain Juppé, da UMP, pediu uma liderança mais "coletiva" e o adversário de Copé, o ex-primeiro-ministro François Fillon, disse que o partido precisa agora procurar as respostas no seu interior. Segundo Copé, os resultados foram a prova da "enorme exasperação" do povo francês, que os atribui ao governo do presidente Hollande.

Enquanto os dois principais partidos da França tentam analisar o que deu errado, a FN agora procurará criar uma aliança pan-europeia com os partidos de extrema direita.

Marine já dispõe da aprovação inicial do Partido Austríaco da Liberdade e do Partido da Liberdade, da Holanda, mas precisará convencer os parlamentares de pelo menos outros seis países para a formação de um novo grupo. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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