Nações Unidas denunciam 'aumento drástico' de violência contra jornalistas

Número 1 da ONU para direitos humanos criticou a situação no Brasil, que classificou de 'preocupante'

Jamil Chade, correspondente em Genebra,

18 de junho de 2012 | 13h04

GENEBRA – A ONU denuncia o “aumento drástico” da violência contra jornalistas na América Latina e apela para que governos tomem medidas urgentes para lidar com a situação. O alerta foi feito pela alta comissária da ONU para Direitos Humanos, Navi Pillay, que nesta segunda-feira, 18, apresentou sua avaliação completa das violações no mundo no primeiro semestre do ano. Entre crimes na Síria, Paquistão e Sudão, a número 1 da ONU para Direitos Humanos optou por destacar a situação crítica que vivem os jornalistas nos países latino-americanos.

 

"O aumento dramático na violência contra jornalistas em vários países na América Latina nos últimos meses é preocupante", afirmou Navi Pillay, na abertura da 20ª reunião do Conselho de Direitos Humanos da ONU. "Alguns governos enfrentam dificuldades para oferece aos jornalistas proteção", indicou. Pillay alertou para a situação no México, onde seis jornalistas foram mortos em apenas 30 dias entre abril e maio. “Preocupações similares podem ser expressadas com respeito às ações que estão sendo comitidas em Honduras.

 

Brasil

 

A ONU também tem acompanhado a situação brasileira, que também classifica como “preocupante”. No final de abril, a entidade se declarou “alarmada” pelo número de jornalistas executados no Brasil em 2012 e cobrou “medidas imediatas” do governo para garantir proteção. A declaração veio depois que o jornalista Décio Sá, de 42 anos, foi assassinado no Maranhão. Ele foi a quarta vítima entre jornalistas em apenas quatro meses, o que coloca o Brasil como um dos líderes por enquanto no número de mortes na América Latina.

Investigações no Maranhão apontavam para suspeitas de que a morte de Sá tenha sido encomendada. O jornalista usava seu blog para denunciar atividades de pistoleiros e as principais entidades que representam jornalistas no país e no exterior já reagiram. Ele foi executado com seis tiros ao sair de um restaurante em São Luis (MA) onde era cliente.

 

A onda de mortes de jornalistas no Brasil, porém, chamou a atenção da ONU. “Nós estamos alarmados com o fato de que mais um jornalista foi morto no Brasil neste ano”, declarou Rupert Colville, porta-voz do Escritório da ONU para Direitos Humanos, com sede em Genebra.

 

A entidade insiste que o que mais a preocupa não é apenas o caso de Sá, mas a sequência de mortes. “Nós condenamos o assassinato de Décio Sá e estamos preocupados que essa tendêcia mine o exercício da liberdade de expressão no País”, declarou Colville.

A ONU apelou para que o caso no Maranhão e as demais mortes e ameaças em 2012 sejam alvo de uma investigação aprofundada.

 

Medidas

 

A entidade, porém, foi além e numa cobrança clara ao governo brasileiro, exigiu medidas de proteção. “Pedimos ao governo para implementar imediatamente medidas de proteção para prevenir novos incidentes”, declarou o porta-voz da ONU. Na avaliação das Nações Unidas, a defesa da liberdade de expressão é um dos pilares da democracia.

As ameaças a jornalistas no Brasil vêm ganhando destaque nos debates de entidades internacionais. O Comitê para a Proteção dos Jornalistas, com sede em Nova York, calcula que o Brasil lidera o ranking de jornalistas assassinados na América Latina neste ano.

 

Segundo o cálculo de outra entidade, com sede na Suíça, a América Latina foi o local mais perigoso do mundo para trabalhar como jornalista em 2011, enquanto governos tanto de direita quanto de esquerda têm lançado duras operações contra a liberdade de expressão na região. A constatação é da entidade suíça Press Emblem Campaing (Campanha para um Emblema de Imprensa, em tradução livre), que contabiliza o número de mortes, ameaças, prisões e censura no mundo. “Na América Latina, não importa o país ou o governo e nem a ideología, o jornalismo independente e o direito à informação está sob fogo cruzado entre a agressão física e ameaças, numa atmosfera de impunidade e corrupção sem limites”, afirma o relatório da entidade.

 

Pelos cálculos da entidade, a região “tem a triste liderança de violencia e morte” contra jornalistas. Em 2011, foram pelo menos 35, um terço dos 107 registrados no mundo. A liderança é do México, com doze. O Brasil veio no segundo lugar, com seis, mesmo número de Honduras.

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