Nações Unidas reúnem provas contra Kadafi

Documento, elaborado com base em informações de embaixadas e da Cruz Vermelha, fala em massacre planejado e execuções sumárias

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

26 de fevereiro de 2011 | 00h00

Um documento interno da ONU relatando com detalhes atrocidades cometidas nos últimos dias na Líbia foi obtido pelo Estado. O estudo coletou informações de instituições como a Cruz Vermelha, embaixadas estrangeiras e fontes líbias, além de relatos de estrangeiros que deixaram o país.

Se Muamar Kadafi fechou o país para a imprensa internacional e vetou a divulgação de imagens, o documento da ONU revela o que a própria entidade já considera como indício de crime contra a humanidade. Valas comuns repletas de corpos, massacres dentro de hospitais, vítimas abandonadas sangrando até a morte pelas ruas e milhares de feridos. Segundo o documento, essas são indicações de que o massacre não estaria ocorrendo de forma espontânea, em choques contra a população, mas em atos "planejados".

O documento evita falar em um número concreto de mortos. Apenas indica que o total poderia chegar a "milhares de vítimas, entre mortos e feridos".

Segundo um dos relatos, atiradores teriam sido posicionados em edifícios e estariam abrindo fogo contra manifestantes, a grande maioria indefesos. Outra revelação é que, em grande parte, os mortos foram alvo de tiros certeiros "na cabeça, peito e nuca". A avaliação dos especialistas é que isso seria um sinal claro de execuções sumárias. "Há uma matança", indica o documento.

Nos primeiros dias do conflito, militares e policiais foram colocados nas portas de alguns hospitais públicos para impedir que manifestantes feridos fossem admitidos. "Aquele que se atrevesse a se aproximar era espancado pelas forças de ordem", afirma o documento, citando uma ONG.

Há relatos de que sobreviventes de um ataque foram assassinados a sangue frio nos corredores dos hospitais para onde tinham sido levados. Segundooutras informações, manifestantes assassinados têm sido vestidos com uniformes militares e policiais para que apareçam nas ruas como vítimas da população.

Em muitos casos, as famílias das vítimas "não são autorizadas" a recuperar os corpos e o documento revela a proliferação de valas comuns para enterrar essas pessoas.

A ONU diz que não tem como confirmar as acusações. Mas fontes da organização dizem que, ao menos, elas dão uma imagem do que está ocorrendo na Líbia. Ontem, a ONU obteve um mandato oficial para conduzir uma investigação detalhada sobre a violência, que pode ser usada em um processo contra Kadafi nas cortes internacionais.

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