Carlos Garcia Rawlins/Reuters
Carlos Garcia Rawlins/Reuters

Nada de notícias ‘negativas’: como a China censurou o coronavírus

Milhares de diretrizes internas e reportagens mostram como as autoridades chinesas coordenaram o que era publicado online no início da pandemia

Raymond Zhong, Paul Mozur, Jeff Kao e Aaron Krolik, The New York Times

23 de dezembro de 2020 | 09h00

Na madrugada de 7 de fevereiro, os poderosos censores da internet da China sentiram algo desconhecido e profundamente perturbador. Sentiram que estavam perdendo o controle.

Espalhava-se rapidamente a notícia da morte por covid-19 do doutor Li Wenliang, médico que alertou para a existência de uma nova e mortífera epidemia viral e, em resposta, foi ameaçado pela polícia e acusado de espalhar boatos. As redes sociais foram tomadas pelo pesar e pela fúria. Para o público chinês e estrangeiro, a morte do Dr. Li mostrou o terrível custo do instinto do governo chinês de suprimir as informações inconvenientes.

Mas os censores da China decidiram dobrar a aposta. Alertando para o “desafio sem precedentes” que a morte de Li representava e para o “efeito borboleta” que esta poderia desencadear, as autoridades se puseram a suprimir as notícias inconvenientes e retomar o controle da narrativa, de acordo com diretrizes confidenciais enviadas a funcionários dos escritórios locais de propaganda e aos veículos jornalísticos.

Elas ordenaram aos sites de notícias que não enviassem notificações push alertando os leitores para a morte do médico. Disseram às plataformas de redes sociais que gradualmente removessem o nome dele dos tópicos mais acessados e ativaram legiões de falsos comentaristas online para inundar as redes sociais com um falatório paralelo, chamando atenção para a necessidade de discrição: “Enquanto lutam para orientar a opinião pública, os comentaristas devem ocultar sua identidade, evitar o patriotismo descarado e os elogios sarcásticos, alcançando resultados com agilidade e discrição".

As ordens faziam parte de milhares de diretrizes secretas do governo e outros documentos analisados pelo The New York Times e pela ProPublica. Eles expõem detalhadamente o sistema que ajudou as autoridades chinesas a moldarem a opinião na internet durante a pandemia.

Em um momento em que as redes sociais aprofundam as divisões sociais nas democracias ocidentais, a China manipula o discurso online para reforçar o consenso do Partido Comunista.

Para gerenciar o conteúdo exibido na internet chinesa no começo do ano, as autoridades emitiram comandos rigorosos a respeito do conteúdo e do tom da cobertura jornalística, pagaram diretamente a trolls para que inundassem as redes sociais com comentários favoráveis ao partido e mobilizaram forças de segurança para amordaçar vozes não autorizadas.

Ainda que a China não disfarce sua crença no rigoroso controle da internet, os documentos esclarecem a dimensão dos esforços empreendidos nos bastidores para manter o controle firme. São necessários uma imensa burocracia, exércitos de pessoas, tecnologia especializada feita por empresas terceirizadas, o monitoramento constante de veículos jornalísticos digitais e plataformas de redes sociais - e, supõe-se, muito dinheiro.

É algo que vai muito além de um botão para bloquear certas ideias, imagens e notícias indesejáveis.

De acordo com os documentos, os limites da China para as informações a respeito da epidemia começaram no início de janeiro, antes mesmo de o novo coronavírus ter sido identificado de maneira definitiva. Quando a infecção começou a se espalhar rapidamente algumas semanas depois, as autoridades reprimiram tudo que mostrasse a resposta da China de maneira demasiadamente “negativa”.

Faz meses que os Estados Unidos e outros países acusam a China de tentar ocultar a dimensão do surto no seu início. Talvez nunca saibamos se uma maior liberdade no fluxo de informações na China teria evitado que esse surto se transformasse em uma calamidade de saúde global. Mas os documentos indicam que as autoridades chinesas tentaram conduzir a narrativa não apenas para evitar o pânico e desbancar falsos rumores de circulação doméstica. Elas queriam também fazer com que o vírus parecesse menos grave - e as autoridades, mais capazes - enquanto o restante do mundo assistia.

Os documentos incluem mais de 3.200 diretrizes e 1.800 memorandos e outros arquivos saídos do órgão regulador da internet no país, a Administração Cibernética da China (CAC), na cidade de Hangzhou, no leste do país. Eles também incluem arquivos internos e programas de computador de uma empresa chinesa, Urun Big Data Services, que desenvolve o software usado pelos governos locais para monitorar os debates na internet e gerenciar exércitos de comentaristas online.

Os documentos foram compartilhados com o Times e a ProPublica por um grupo de hackers que se identifica como CCP Unmasked [PCC desmascarado], referindo-se ao Partido Comunista da China. O Times e a ProPublica verificaram independentemente a autenticidade de muitos dos documentos, alguns dos quais foram obtidos em separado pelo China Digital Times, um site que acompanha o controle chinês da internet.

CAC e Urun não responderam aos pedidos de entrevista.

“A China usa o sistema de censura como arma política; este é refinado, organizado, coordenado e sustentado com os recursos do estado", disse Xiao Qiang, pesquisador e cientista da Faculdade de Informação da Universidade da Califórnia, em Berkeley, e fundador do China Digital Times. “Não se trata apenas de apagar algo. Eles têm também um poderoso aparato para construir uma narrativa e apontá-la contra um alvo em uma operação de escala maciça”.

“É um grande diferencial", acrescentou ele. “Nenhum outro país dispõe de algo semelhante.”

Controlando uma narrativa

O principal líder da China, Xi Jinping, criou a Administração Cibernética da China (CAC) em 2014 para centralizar a gestão da censura e da propaganda na internet, bem como outros aspectos das políticas digitais. Hoje, a agência é subordinada ao poderoso Comitê Central do Partido Comunista, sinal de sua importância para a liderança do país.

O controle da CAC para o conteúdo ligado ao coronavírus teve início na primeira semana de janeiro. Uma diretriz da agência ordenou que os sites de notícias usassem apenas material publicado pelo governo, e evitar os paralelos com o mortífero surto de SARS ocorrido na China e em outros países a partir de 2002, mesmo enquanto a Organização Mundial da Saúde reparava nas semelhanças.

No início de fevereiro, uma reunião de cúpula comandada por Xi exigiu uma gestão mais rigorosa das redes sociais, e os escritórios da CAC em todo o país entraram em ação. Uma diretriz na província de Zhejiang, da qual Hangzhou é a capital, disse que a agência não deveria simplesmente controlar a mensagem dentro da China, mas também buscar “formas ativas de influenciar a opinião internacional".

Funcionários da agência começaram a receber links para artigos relacionados ao vírus que deveriam promover nos agregadores de notícias locais e nas redes sociais. Havia diretrizes especificando quais links deveriam ser promovidos nas páginas iniciais dos sites de notícias, o número de horas que deveriam permanecer online e até quais títulos deveriam aparecer em negrito.

As reportagens online deveriam ressaltar os heroicos esforços dos funcionários de saúde locais enviados a Wuhan, a cidade chinesa onde o vírus foi identificado pela primeira vez, bem como as contribuições vitais dos membros do Partido Comunista, de acordo com as ordens da agência.

As manchetes deveriam evitar termos como “incurável” e “fatal", de acordo com uma diretriz, “para evitar o pânico na sociedade". Ao falar nas restrições aos deslocamentos e viagens, a palavra “lockdown” deveria ser evitada, dizia outra. Diferentes diretrizes enfatizavam que notícias “negativas” a respeito do vírus não deveriam ser promovidas.

Os funcionários da CAC sinalizaram alguns vídeos mostrando condições reais que deveriam ser apagados, entre eles vários que pareciam mostrar corpos expostos em público. Outros vídeos marcados pareciam mostrar pessoas furiosas gritando em um hospital, trabalhadores tirando um corpo de um apartamento e uma criança de quarentena chorando pela mãe. Não foi possível confirmar a autenticidade dos vídeos.

A agência pediu aos escritórios locais que pensassem em ideias de “diversão caseira” para “diminuir a ansiedade dos usuários da web". Em um distrito de Hangzhou, os trabalhadores descreveram uma brincadeira “espirituosa e engraçadas” com o violão promovida por eles. Os versos diziam, “Nunca pensei que seria verdade, mas ficar em casa dormindo se tornou uma forma de apoiar o país".

Então veio um teste maior.

‘Repressão agressiva’

A morte de Li em Wuhan desencadeou um gêiser de emoções que ameaçou dilacerar as redes sociais e arrancá-las do controle da CAC.

Não ajudou quando a ordem de silenciamento da agência endereça ao Weibo, uma plataforma popular semelhante ao Twitter, estimulando ainda mais a raiva. Milhares de pessoas procuraram a conta de Li no Weibo e deixaram seus comentários.

A agência não teve muita escolha senão permitir as expressões de pesar, mas até certo ponto. Se alguém tratasse a história com sensacionalismo para atrair público online, a conta sofreria “graves" consequências, e acordo com uma diretriz.

No dia seguinte à morte de Li, uma diretriz incluiu uma amostra de material estaria “se aproveitando do incidente para incitar a opinião pública”: uma entrevista em vídeo na qual a mãe de Li recorda entre lágrimas momentos do filho.

O escrutínio não perdeu força nos dias que se seguiram. “Prestem atenção especialmente nas publicações com imagens de velas, de pessoas usando máscaras, imagens inteiramente pretas ou outros esforços para ampliar ou explorar o incidente", dizia uma diretriz da agência endereçada aos escritórios locais.

Números maiores de homenagens online começaram a desaparecer. A polícia deteve várias pessoas que formaram grupos para arquivar publicações apagadas.

Em Hangzhou, funcionários do departamento de propaganda se revezavam trabalhando em turnos ininterruptos para escrever relatórios mostrando que eles garantiam que o público não via nada que contradissesse a tranquilizante mensagem do Partido Comunista, segundo a qual o vírus estava sob firme controle.

Engenheiros da 'trolagem'

As agências governamentais da China têm à sua disposição uma variedade de softwares especializados para moldar o que o público enxerga na internet. A Urun, uma desenvolvedora de programas desse tipo, obteve mais de vinte contratos com agências locais e empresas de propriedade estatal desde 2016, de acordo com registros do governo. Uma análise dos programas e documentos da Urun mostra que os produtos da empresa podem rastrear tendências online, coordenar a atividade de censura e gerenciar contas falsas nas redes sociais para a publicação de comentários.

Um sistema de software da Urun dá aos funcionários do governo uma interface ágil e fácil de usar que adiciona rapidamente curtidas aos comentários. Os administradores podem usar o sistema para designar tarefas específicas aos comentaristas. O software também pode rastrear quantas tarefas um comentarista completou e quanto a pessoa deve receber.

De acordo com um documento descrevendo o software, comentaristas na cidade de Guangzhou, no sul do país, recebem US$ 25 por publicação original com mais de 400 caracteres. Quando sinalizam um comentário negativo para que seja excluído, ganham US$ 0,40. As republicações valem US$ 0,01 cada.

A Urun produz um aplicativo de smartphone que agiliza esse trabalho. Eles recebem tarefas dentro do aplicativo, publicam os comentários solicitados a partir de suas contas pessoas nas redes sociais, e então enviam uma captura de tela como comprovante de conclusão da tarefa.

Os documentos mostram que a empresa também faz um software semelhante a um videogame para o treinamento dos comentaristas. O programa divide um grupo de usuários em duas equipes, que disputam entre si para ver quem produz as publicações mais populares.

Outros programas da Urun foram criados para monitorar as redes sociais chinesas em busca de “informação nociva". Os funcionários podem usar palavras-chave para encontrar publicações que mencionem temas sensíveis, como “incidentes envolvendo a liderança” ou “assuntos políticos nacionais". Podem também marcar publicações manualmente para analisá-las mais tarde.

Em Hangzhou, as autoridades parecem ter usado o software da Urun para vasculhar a internet chinesa em busca de palavras-chave como “vírus” e “pneumonia” somadas aos nomes de lugares, de acordo com dados da empresa.

Um grande oceano de placidez

Já no fim de fevereiro, a força emocional da morte do Dr. Li parecia estar enfraquecendo. Funcionários da CAC de toda a Hangzhou seguiram vasculhando a internet em busca de qualquer coisa que possa perturbar o grande oceano de placidez.

Um distrito destacou que os usuários da web estavam preocupados com a forma de cada bairro lidar com o lixo deixado por pessoas que voltavam de fora da cidade, possivelmente trazendo o vírus consigo. Outro distrito observou preocupações com a adequação das medidas de segurança adotadas pelas escolas para o retorno dos alunos.

Com o tempo, os relatórios dos escritórios da CAC voltaram a monitorar tópicos não relacionados ao vírus: barulhentos projetos de construção que impediam as pessoas de dormir à noite, pesadas chuvas que inundaram uma estação de trem.

Então, no fim de maio, os escritórios se depararam com uma notícia  chocante: de alguma maneira, relatórios confidenciais de análise da opinião pública foram publicados na internet. A agência ordenou aos escritórios que apagassem os relatórios internos - em especial aqueles analisando as opiniões ligadas à epidemia.

Os escritórios responderam com a habitual linguagem seca e burocrática, prometendo “impedir que dados desse tipo voltem a vazar na internet, causando um grave e indesejado impacto na sociedade”. /TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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