SAUL LOEB/AFP
SAUL LOEB/AFP

Nada que lembre um estilo presidencial

No pódio, Trump desprezou a poesia e a grandeza de muitos discursos de posse

Marc Fisher / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

21 Janeiro 2017 | 05h00

Donald Trump iniciou seu governo do mesmo modo que fez sua campanha – com um discurso mordaz sobre uma nação deteriorada necessitando de uma ação corajosa e imediata. Seu discurso rompeu drasticamente com o daqueles que vieram antes e deixou claro que sua presidência será muito diferente.

De pé no pódio ao lado de grande parte do establishment de Washington, Trump atacou as pessoas que governaram o país. Desprezou a poesia e a grandeza de muitos discursos de posse e, em vez disso, proferiu um grito de união, que lembrou seus discursos improvisados durante a campanha, repletos de bravatas quanto a sua intenção de realizar uma mudança radical.

Depois de uma rápida reverência a seus predecessores, o presidente se lançou imediatamente a uma exaltada leitura dos males de uma nação que descreveu em termos apocalípticos. Trump prometeu há quase um ano que, quando chegasse o momento, adotaria um estilo que chamou de “presidencial”. Mas seu discurso deixou claro que ele pretende governar do mesmo modo que fez sua campanha, em comunhão direta com seus seguidores, deixando de lado as habituais sutilezas e canais de poder.

Trump disse há alguns dias que havia se inspirado nos discursos de posse de John Kennedy e Ronald Reagan. Mas seu discurso não lembrou muito a retórica poética e de união dos dois presidentes. Por outro lado, ele prestou homenagem ao “homem esquecido” da era da Depressão, no governo de Franklin Roosevelt, adotando um pouco da linguagem de otimismo de Reagan sobre a energia e a determinação americanas.

Trump nunca foi um orador tradicional e eloquente e algumas vezes ridicularizou aqueles que trabalham seus discursos com um fervor artesanal. Ele sempre se considerou mais um showman e um empresário e herdou da mãe sua paixão pela pompa e o grande espetáculo. Acredita que o linguajar direto e franco é a melhor maneira de acabar com o ceticismo popular sobre autoridade e instituições numa era conturbada.

Trump não se referiu a seu partido, ao Congresso ou qualquer outro meio pelo qual espera realizar a mudança generalizada que prometeu. Mas disse novamente que pessoalmente produzirá uma restauração nacional. “Lutarei por vocês com todas as minhas forças e nunca os decepcionarei.”

Trump disse que usou como modelo para seu discurso palavras proferidas por seus preferidos: o curto apelo de Kennedy em 1961 para os americanos se unirem para “explorar as estrelas, conquistar os desertos e encorajar as artes e o comércio”, e também o refinado, mas cortante, discurso de Reagan em 1981, talvez o primeiro discurso de posse que incluiu uma história comovente sobre um americano comum.

Sua mensagem central para sua presidência foi quase uma cópia da que expressou na campanha, ou seja, uma crença absoluta de que o país está severamente danificado e somente ele conseguirá reconstruí-lo. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

 

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