Danna Singer/New York Times
David Wisnia, sobrevivente de Auschwitz, em sua casa na cidade de Levittown, EUA, em 2 de novembro de 2019 Danna Singer/New York Times

Namorados em Auschwitz se reencontraram 72 anos depois nos EUA

David Wisnia tinha uma pergunta a fazer para Helen Spitzer: se ela era responsável por ele ter escapado com vida

Keren Blankfeld/ NYT, O Estado de S.Paulo

09 de dezembro de 2019 | 06h00

LEVITTOWN, EUA - David Wisnia percebeu que Helen Spitzer não era uma prisioneira qualquer na primeira vez em que eles se falaram, em 1943, no crematório no campo de concentração de Auschwitz. Zippi, como era conhecida, era limpa e sempre estava arrumada. Ela vestia uma jaqueta e cheirava bem. Eles foram apresentados por um conhecido, também prisioneiro, a pedido dela. 

A presença dela era por si só fora do normal: uma mulher que estava fora da ala feminina, conversando com um prisioneiro homem. Antes que Wisnia percebesse, eles ficaram sozinhos, todos os colegas haviam ido embora. Isso não foi uma coincidência. Eles planejaram se encontrar novamente na semana seguinte.

Na data combinada, Wisnia foi, como planejado, encontrar Spitzer nas barracas entre os crematórios 4 e 5. Ele subiu uma escada improvisada, feita de pacotes com uniformes de prisioneiros. Spitzer conseguiu um espaço no meio de centenas de pilhas de roupas, grande o suficiente para somente os dois. Ele tinha 17 anos, e ela, 25. 

Ambos eram prisioneiros judeus no campo de Auschwitz, na Polônia, o maior controlado pelo regime nazista alemão durante a Segunda Guerra.

Tanto Wisnia quanto Spitzer tinham certos privilégios. Ele, inicialmente forçado a coletar os corpos de prisioneiros que cometiam suicídio, havia sido escolhido para entreter os soldados nazistas, após descobrirem que ele era um cantor talentoso. 

Já ela tinha uma posição melhor: era a designer gráfica do campo. Eles tornaram-se amantes, se encontrando no local combinado cerca de uma vez por mês. Depois do receio inicial de saberem que estavam colocando suas vidas em risco, o casal começou a criar mais expectativas para seus encontros. Wisnia sentia-se especial: "Ela me escolheu", ele pensava. 

Durante alguns meses, eles conseguiram ser a válvula de escape um do outro, mas sabiam que essas visitas não perdurariam. A morte estava em todo lugar. Mesmo assim, os amantes planejavam uma vida juntos, um futuro fora de Auschwitz. Eles sabiam que seriam separados, mas tinham um plano, após o fim da guerra, para se reunirem. 

Isso levou 72 anos. 

Numa tarde no fim de 2019, Wisnia estava em sua casa na cidade de Levittown, estado americano da Pensilvânia, olhando fotografias antigas. Ainda um cantor apaixonado, Wisnia cantou na congregação local por décadas.

Agora, cerca de uma vez por mês, ele dá palestras onde conta histórias da guerra, normalmente a estudantes e algumas vezes em livrarias ou congregações. "Restam poucas pessoas que sabem os detalhes", ele aponta. 

Spitzer estava entre as primeiras judias a chegar em Auschwitz, em março de 1942. Por sua fluência em alemão, a habilidade em design gráfico e uma pitada de sorte, ela conseguiu evitar um trabalho braçal. 

Conforme suas responsabilidades aumentavam, ela ficava livre para circular por locais diferentes do campo, e às vezes tinha permissão para fazer excursões. Ainda assim, Spitzer nunca foi uma colaboradora nazista ou kapo, que era o termo utilizado a um judeu que tinha a obrigação de observar os prisioneiros. Ao invés disso, ela usava sua posição para ajudar aliados e os prisioneiros.

Após virar cantor do campo, Wisnia conseguiu um novo posto para trabalhar no prédio que a SS chamava de "Sauna". Ele devia desinfetar as roupas dos novos prisioneiros com o mesmo pesticida Zyklon B utilizado pelos nazistas para matar prisioneiros nas câmaras de gás. 

Spitzer, que já havia notado Wisnia na Sauna, começou a fazer visitas especiais. O relacionamento deles durou vários meses. Em uma tarde em 1944, eles perceberam que aquele deveria ser o último encontro. Os nazistas estavam transportando os últimos prisioneiros do campo em marchas da morte e destruindo as evidências de seus crimes. 

Durante o último encontro, o casal fez um plano. Eles iriam se encontrar em Varsóvia ao fim da guerra, em um centro comunitário. Era uma promessa. 

Wisnia deixou o campo antes de Spitzer, em um dos últimos trens para sair de Auschwitz. Ele foi transferido para o campo de Dachau em dezembro de 1944. 

Logo depois, durante uma marcha da morte saindo de Dachau, ele encontrou uma pá; acertou um guarda da SS e correu. No dia seguinte, enquanto se escondia em um celeiro, Wisnia escutou o que pensou ser tropas soviéticas, e correu em direção aos tanques, torcendo pelo melhor. Na verdade, eram soldados americanos. 

Apesar de, por ser um polonês, ele nunca poder se tornar um legítimo soldado americano, Wisnia exerceu diversos cargos no Exército Americano após a Guerra. Após ter se unido aos americanos, seu plano de encontrar Spitzer na Varsóvia deixou de ser uma opção. A América era o seu futuro. 

Spitzer foi uma das últimas a sair de Auschwitz com vida. Ela foi enviada ao campo feminino em Ravensbrück e a um sub-campo em Malchow antes de ser mandada para uma marcha da morte. Ela e uma amiga escaparam ao retirarem a listra vermelha que havia sido pintada em seus uniformes, o que permitiu que elas se camuflassem entre a população local que estava migrando. 

Entre o caos, Spitzer chegou ao primeiro campo para judeus deslocados na zona americana da Alemanha ocupada, que recebeu na primavera de 1945 ao menos 4 mil sobreviventes. 

Logo depois, Spitzer se casou com Erwin Tichauer, o chefe da polícia do campo. Novamente, Spitzer, agora conhecida como Tichauer, estava em uma posição privilegiada. Apesar de também serem deslocados, o casal Tichauer morava fora do campo. 

Eventualmente, eles se mudaram para os Estados Unidos, primeiro para Austin, no Texas, e em 1967 chegaram a Nova York, onde ela se tornou professora de bioengenharia na Universidade de Nova York. 

Algum tempo após o fim da guerra, Wisnia escutou de um ex-companheiro em Auschwitz que Tichauer estava viva. Neste momento, ele estava profundamente envolvido no Exército Americano, baseado em Versailles, na França, onde esperava para poder imigrar aos EUA. 

Quando seus tios o buscaram no porto de Hoboken, em fevereiro de 1946, eles não podiam acreditar que o rapaz de 19 anos, vestido em um uniforme americano, era o pequeno David que haviam visto pela última vez em Varsóvia. 

Na pressa para compensar o tempo perdido, Wisnia se adaptou ao estilo de vida nova-iorquino, indo a diversas festas. Em um casamento, em 1947, ele conheceu sua futura esposa, Hope. 

Com o passar dos anos, Wisnia recebia atualizações de Tichauer por meio de um amigo em comum. Ao mesmo tempo, sua família cresceu - ele teve quatro filhos e seis netos. 

Em 2006, ele tentou contato com a amiga Zippi. Ao compartilhar a história dos dois com sua família, seu filho, que agora era um rabino em uma sinagoga em Princeton, Nova Jersey, iniciou o contato para ele. Finalmente, ela concordou em uma visita. 

Passaram 72 anos desde a última vez que ele havia visto sua ex-namorada. Ele havia escutado que a saúde dela estava debilitada, mas sabia pouco sobre sua vida. Ele suspeitava que ela havia ajudado a mantê-lo vivo, e queria saber se era verdade. 

Quando Wisnia e seus netos chegaram ao apartamento de Tichauer em Manhattan, eles a viram deitada em uma cama de hospital, rodeada de estantes cheias de livros. Ela estava sozinha desde a morte de seu marido, em 1996, e eles nunca tiveram filhos. Com o passar dos anos, presa à cama, ela desenvolveu cegueira e surdez. 

Em um primeiro momento, ela não o reconheceu. Então, Wisnia se aproximou. 

"Seus olhos arregalaram, como se a vida estivesse de volta dentro dela", disse Avi Wisnia, neto de Wisnia. "Todos nós ficamos surpresos". 

O reencontro durou cerca de duas horas. Ele finalmente perguntou: ela tinha algo a ver com o fato de que ele conseguiu sobreviver em Auschwitz?

Ela levantou a mão e mostrou os cinco dedos. Sua voz saiu alta, com o sotaque eslovaco carregado. "Eu te salvei cinco vezes de remessas ruins", ela disse. 

"Eu sabia que ela tinha feito isso", disse Wisnia a seus netos. "É absolutamente incrível. Incrível". 

E havia mais. "Eu estava esperando por você", disse Tichauer. Wisnia quase caiu para trás. Após ela ter conseguido escapar da marcha da morte, ela o esperou em Varsóvia. Ela seguiu o plano. Mas ele nunca apareceu. 

Ela havia o amado, disse a ele em tom baixo. E ele também havia a amado, ele confidenciou. 

Wisnia e Tichauer nunca mais se viram de novo. Ela morreu em 2018, aos 100 anos. Em sua última tarde juntos, antes de Wisnia deixar seu apartamento, ela pediu para que ele cantasse para ela. Ele pegou sua mão e cantou a canção húngara que ela havia o ensinado em Auschwitz. Ele queria mostrar que se lembrava das palavras. 

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Espiã soviética que evitou atentado contra Stalin, Churchill e Roosevelt morre aos 93 anos

Goar Vartanian frustrou junto ao marido a operação nazista chamada 'Grande Salto', cujo objetivo era matar simultaneamente os três líderes aliados

Redação, O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2019 | 17h17

MOSCOU - A espiã soviética Goar Vartanian, que frustrou junto ao marido uma tentativa de assassinato dos nazistas contra Stalin, Churchill e Roosevelt em 1943, morreu em Moscou aos 93 anos, informou o serviço de inteligência russo nesta terça-feira, 26. 

Goar, que morreu na segunda-feira à noite, será enterrada em Moscou junto a seu marido, o renomado agente secreto Guevork Vartanian, que morreu em 2012, disse Serguei Ivanov, porta-voz dos Serviços de Inteligência Estrangeira da Rússia (SVR), um dos herdeiros da KGB soviética

Espiã, como seu marido, Goar o ajudou a fazer fracassar a operação nazista chamada "Grande Salto", cujo objetivo era matar simultaneamente os três líderes aliados, o soviético Josef Stalin, o britânico Winston Churchill e o americano Franklin Roosevelt, durante a conferência de Teerã em 1943. 

Nascida em 1926 na Armênia soviética, Goar mudou-se com a família para o Irã na década de 1930. Ela ingressou em um grupo antifascista aos 16 anos e depois trabalhou com o marido para desmascarar agentes alemães.

Segundo o SVR, "Anita" e "Henri", dois de seus 'pseudônimos', estavam envolvidos em seu trabalho "em condições extremas e em muitos países, como França, Grécia, Estados Unidos, Japão, Índia ou China".

Em junho de 2017, o presidente russo, Vladimir Putin, que é um ex-agente soviético da KGB, visitou a sede da SVR e elogiou o trabalho dos agentes, incluindo o do casal. / AFP

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Ferrovia que colaborou com nazistas indenizará sobreviventes do Holocausto

Diretor executivo da companhia disse que o dinheiro era apenas um gesto, e que reconhecia que “é apenas um pequeno curativo sobre uma enorme ferida”

Nina Siegal, The New York Times

16 de outubro de 2019 | 06h00

AMSTERDÃ - O papel desempenhado pelas ferrovias alemãs na máquina do genocídio nazista, na Segunda Guerra Mundial, é notório. Mas agora, os holandeses estão começando a admitir a contribuição das ferrovias nacionais no Holocausto. Por dezenas de anos, segundo o historiador David Barnouw, muitos holandeses consideraram heroico o trabalho das suas ferrovias, Nederlandse Spoorwegen, ou N.S., na guerra.

Em setembro de 1944, o governo holandês em exílio em Londres, ordenou que os ferroviários fizessem a greve, que durou quase oito meses até o fim do conflito. A greve ocorreu depois que as estradas de ferro holandesas já haviam deportado cerca de 107 mil judeus residentes na Holanda - dos 140 mil cidadãos identificados como judeus em 1941 - para campos de trânsito e de extermínio. Somente 5,1 mil sobreviveram. 

O fato é notório na Holanda, assim como o elogio que Adolf Eichmann, o oficial nazista que elaborou os planos de deportação e genocídio, fez às ferrovias holandesas: “Os transportes funcionam tão perfeitamente que é um prazer observá-los”. Mas novas pesquisas, divulgadas no livro de um holandês lançado em setembro, indicam que havia em funcionamento mais meios de transporte do que originalmente se pensava.

Ao todo, os pesquisadores concluíram que 112 trens holandeses saíram da Holanda com destino a nove campos nazistas em países como Alemanha, Áustria e Polônia de junho de 1942 a agosto de 1944. Cada trem deixou o principal campo de trânsito, Westerbork, com em média mil pessoas a bordo aproximadamente, e alguns com uns milhares. As ferrovias holandesas cobraram dos alemães mais ou menos o equivalente a três milhões de euros, corrigidos de acordo com a inflação, para operar estes trens, segundo Dirk Mulder, um dos autores.

Os alemães pagaram à empresa uma pequena quantia por pessoa para transportar uma parte de Amsterdã até o campo de trânsito. E pagaram alguns centavos a mais por pessoa para o trajeto até a fronteira alemã-holandesa. Lá, o condutor holandês e a sua turma eram substituídos por uma tripulação alemã, disse Barnouw, por isso não se sabe ao certo até que ponto os funcionários dos trens holandeses sabiam o que aconteceria com os seus passageiros.

Guus Veenendaal, um dos autores, discordou. “Mais tarde ao longo da guerra, os funcionários da ferrovia ficaram cientes do que aconteceria exatamente”, ele disse. “Não sei se eles sabiam anteriormente. Talvez nem quisessem saber”. Em 2005, a companhia admitiu ter colaborado com os nazistas e pediu desculpas por isto. No ano passado, anunciou que destinaria uma verba de 50 milhões de euros, ou cerca de US$ 55 milhões, para indenizar os sobreviventes e seus parentes.

Roger van Boxtel, o diretor executivo da ferrovia, disse que o dinheiro era apenas um gesto, e que reconhecia que “é apenas um pequeno curativo sobre uma enorme ferida”. Veenendaal afirmou que os pesquisadores não encontraram provas de sabotagens por parte dos funcionários da ferrovia, gerentes ou empregados da época.

“Há um único maquinista que se recusou a conduzir um dos trens que transportavam judeus”, disse. “Ele foi simplesmente substituído por outro, e foi dado como doente e incapaz de cumprir a sua obrigação. E só, apenas um. Os restantes cumpriram a sua obrigação, e operaram os trens”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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O diário de Renia Spiegel, a 'Anne Frank polonesa'

Jovem assassinada por nazistas aos 18 anos também escreveu sobre suas experiências durante a 2ª Guerra

Redação, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2019 | 18h09

VARSÓVIA - Após passar décadas no cofre de um banco, o diário de Renia Spiegel, adolescente polonesa e judia que descreveu suas experiências durante a 2ª Guerra, ganhou uma versão em livro que conta a história da "Anne Frank polonesa", em referência à adolescente holandesa vítima do Holocausto e também autora de um diário famoso. 

Assassinada em 1942, aos 18 anos, Renia teve seu diário recuperado depois da guerra por seu namorado,  Zygmunt Schwarzer, de 19 anos. Ele o entregou à mãe da adolescente no início dos anos 1950, quando a encontrou em Nova York

Para Entender

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Schwarzer descreve a morte de Renia em uma assustadora nota acrescentada ao diário. "Três tiros! Três vidas perdidas! Foi ontem à noite às dez e meia... Minha querida Renusia, o último capítulo do seu diário acabou". 

"Estava abalada. Nunca fui capaz de ler o diário", relata sua irmã, agora chamada Elizabeth Bellak. E, mesmo hoje, conseguiu ler apenas alguns trechos, porque é "dilacerante demais". Finalmente, foi sua filha, sobrinha de Renia, que tirou o diário do cofre.

"Eu me chamo Alexandra Renata (Bellak). Meu nome se deve a esta pessoa misteriosa que nunca conheci... Sentia curiosidade por conhecer o passado", explicou a filha de Elizabeth, uma agente imobiliária de 49 anos.

As duas mulheres entraram em contato com o diretor de cinema Tomasz Magierski, que aceitou, inicialmente por educação, olhar o diário. "Não fui capaz de me soltar dele. Eu o li provavelmente em quatro, ou cinco, noites... Me acostumei com sua forma de escrever e, para ser sincero, me apaixonei por ele, por Renia", disse o cineasta.

"O triste deste diário é que... você sabe como termina. Mas, quando você lê, espera que o final seja diferente", lamentou. Os poemas o impressionaram. Em um deles, sobre um soldado alemã, Renia Spiegel mostra empatia. "Amaldiçoo milhares e milhões/ Mas por um, ferido, choro".

História inspirou documentário 

Magierski fez um documentário sobre as duas irmãs intitulado "Os sonhos destruídos" (em tradução livre) e, em colaboração com os Bellak, conseguiu que o diário fosse publicado na Polônia pela Fundação Renia Spiegel. Em setembro, os três assistiram à estreia em Varsóvia. Elizabeth chorou ao ouvir uma atriz cantar um poema de sua irmã.

"Nacionalismo, populismo, antissemitismo. Todos esses 'ismos' voltam. E nós não queremos que a morte de milhões de pessoas volte a se repetir", disse à AFP. "Sabe que algumas pessoas nunca acreditaram no que aconteceu? Eu estava lá. Posso afirmar que aconteceu".

Diário mostra cotidiano da perseguição aos judeus

Apenas um ano depois de seu primeiro beijo, a adolescente judia Renia Spiegel escreveu em seu diário uma oração pedindo a Deus que a deixasse viver. Era junho de 1942. Ela então iria completar 18 anos. 

Os nazistas alemães acabavam de exterminar todos os judeus de um bairro de sua cidade de Przemysl, no sul da Polônia. Alguns se viram forçados a cavar seu próprio túmulo. "Para onde quer que se olhe, há sangue. Que 'progroms' tão terríveis. É um massacre, assassinato", escreve ela em 7 de junho.

"Deus Todo-Poderoso, pela enésima vez me inclino diante de ti. Ajude-nos, salve-nos! Oh, Deus, nosso Senhor, deixe-nos viver, eu lhe suplico, quero viver!", completa.

Um mês e meio mais tarde, seu namorado, Schwarzer, um judeu com visto de trabalho que lhe permitia se movimentar pela cidade, escondeu-a com os pais dele no sótão de uma casa fora do gueto judeu. Um colaborador os traiu, resultando na morte de Renia. 

Renia começou o seu diário em 1939, aos 14 anos. Vivia na casa dos avós. Sua mãe estava em Varsóvia para promover a carreira cinematográfica de sua irmã caçula Ariana, apelidada de "Shirley Temple polonesa". 

A adolescente escreveu cerca de 660 páginas em vários cadernos. Conta o quanto sentia falta da mãe e que gostava do jovem Schwarzer de olhos verdes. Também compõe poemas e inclui parágrafos sobre a ocupação soviética e nazista de sua cidade.

Ela encerra cada volume da mesma maneira: pedindo ajuda à sua mãe e a Deus, como se fosse um mantra.

No início da guerra, sua irmã Ariana ficou bloqueada em Przemysl, onde passou o verão de 1939 na casa dos avós. Salvou-se graças ao pai de sua melhor amiga, que a levou de trem para Varsóvia.

Ajuda de cristão salvou irmã de Renia

"Um bom cristão me salvou a vida. Arriscou-se à pena de morte, me levando, como sua filha, para a casa da minha mãe", declarou à AFP em Varsóvia a agora senhora de 88 anos que vive em Nova York.

Ela foi então batizada e passou a se chamar Elizabeth. Um oficial alemão, apaixonado por sua mãe, enviou as duas para um lugar seguro na Áustria. Depois da guerra, ambas emigraram para os Estados Unidos

Schwarzer também sobreviveu, apesar ter sido enviado para o campo de extermínio de Auschwitz. Conta-se que o infame médico e criminoso de guerra Josef Mengele o escolheu para que lhe permitissem viver. / AFP

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Brasil teve 60 militares judeus para combater o nazismo

A maioria estava na FEB, enviada pelo País para lutar na Itália

Marcelo Godoy, O Estado de S. Paulo

01 de setembro de 2019 | 05h00

Moysés Chaon tinha um sonho: entrar para a Escola Militar do Realengo. Como era judeu, temia ser barrado. Procurou uma igreja no Engenho Novo e se batizou. Tudo para arrumar um papel que – pensava ele – lhe permitiria entrar na escola. Saiu aspirante em 1941. Era infante. Quando se abriu a seleção para a formação da Força Expedicionária Brasileira (FEB), Chaon decidiu que devia participar. Queria lutar contra o nazismo. E se tornou um dos maiores heróis da história da FEB, durante o ataque, tomada e a resistência em La Serra, ao lado do também tenente Apollo Miguel Rezk.

“Ele nunca renegou sua fé judaica”, afirmou o pesquisador Israel Blayberg, que se dedica a preservar a memória dos cerca de 60 militares judeus que combateram pelo Brasil na 2.ª Guerra Mundial. Depois da guerra, Chaon – que recebera a medalha Silver Star pela bravura em combate – chegara à patente de general. Seu irmão Alberto também fez a guerra, ambos no 1.º Regimento de Infantaria (1º RI). “Pelas regras, um dos dois poderia permanecer no Brasil, mas a mãe dos jovens impôs uma condição: ou iam os dois ou nenhum. Foram os dois”, conta Blayberg. A família de Chaon viera da Turquia para o Brasil. Assim como a de seu colega Rezk, um cristão maronita.

O Brasil enviou para lutar na Itália a Força Expedicionária Brasileira (FEB) e o 1º Grupo de Aviação de Caça. Eram mais de 25 mil homens que lutaram entre 1944 e 1945. A FEB teve 12 oficiais judeus, um dos quais chegou a marechal: Wanderley Levy Cardoso. Entre os judeus que se alistaram como oficiais temporários estava o tenente Salomão Malina, mais tarde secretário-geral do Partido Comunista Brasileiro (PCB), cuja família viera da cidade industrial de Lodz, na Polônia. Também estava o capitão Samuel Kicis, avô da deputado federal Bia Kicis (PSL-DF). “Meu avô lutou pela Pátria para defender o Brasil. Mas ele sabia que corria um duplo risco se fosse capturado”, contou a deputada. Malina – já militante comunista – queria combater o nazismo. A FEB não fez distinções ideológicas. Nacionalistas e comunistas tinham então um inimigo comum: o nazismo.

O capitão Kicis lutou em Monte Castelo, uma das principais batalhas da FEB. Era reservado e não gostava de falar sobre a guerra. A um amigo contou certa vez que se ausentara por poucos minutos do ponto em que trabalhava como observador da artilharia. Quando retornou, soube que uma bomba nazista havia caído ali, matando um sargento. Voltou surdo de um ouvido da guerra, mas isso não impediu que seguisse carreira no Exército, atingindo a patente de general de divisão. Morreu em 1984. Sua neta – também filha de militar – é hoje uma expoente do bolsonarismo no Congresso.

Intelectuais. Havia entre os judeus da FEB intelectuais como o jornalista e historiador comunista Jacob Gorender (soldado do 1º RI), o artista plástico Carlos Scliar (1.º Grupo de Obuses) e o escritor e tradutor Boris Schnaiderman (2.º Grupo de Obuses). Eram quase todos da esquerda judaica, que foi combater Hitler por dois motivos: as simpatias pela União Soviética e o dever moral de se combater o nazismo. “Eu achava absolutamente fundamental lutar contra o nazifascismo”, dizia Schnaiderman, morto em 2016.

De acordo com Blayberg, o que caracteriza todos os judeus da FEB foi o fato de eles todos terem sido voluntários para a guerra. Esse foi o caso do dentista Israel Rosenthal, de 98 anos, cuja família era da Bessarábia (atual Moldávia), a exemplo dos Kicis. “Eu era oficial de infantaria. Mas chegando ao acampamento, com a falta de dentistas, fui requisitado para trabalhar na área de saúde. Fui voluntário e sabia das perseguições aos judeus na Europa, mas nunca imaginei os campos de concentração”, disse. Rosenthal tinha ciência, no entanto, que se fosse capturado não teria chance de sobreviver.

Sua rotina era pesada – era responsável com outros três colegas pelo atendimento de 5,3 mil homens acampados em Stafolli, na região de Pisa, na Toscana. Ali ficava a tropa de reserva da FEB. Rosenthal era oficial do CPOR, da turma de 1943. De 115 homens da turma que se apresentaram como voluntários, 92 embarcaram, entre eles o economista Celso Furtado. “Éramos amigos.” Malina também era da turma de Rosenthal. “Antes de embarcar, ele era cliente do meu consultório. Nunca cobrei nada dele, que ele era de família pobre.” Dos 92 do CPOR, quatro ainda estão vivos.

Quando voltou ao Brasil, Rosenthal se ligou à associação de veteranos da FEB, que presidiu por oito anos. Cerca de 1,9 mil brasileiros morreriam na guerra – quase 500 na Itália –, a maioria em naufrágios. Entre eles, o único judeu morto na guerra, o 2.º comissário da Martinha Mercante Maurício José Pinkusfeld. Estava no navio Aníbal Benévolo, torpedeado pelo submarino alemão U-507, em 16 de agosto de 1942, na costa do Nordeste, em episódio que levara o Brasil a declarar guerra à Alemanha. "Havia dez judeus na Marinha de Guerra e Mercante e três na Força Aérea", conta Blayberg.    

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Guerra colocou irmãos brasileiros em lados opostos

Paul Heinrich lutou com os alemães e Gerd Emil foi para a Itália com brasileiros

Carla Bridi, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2019 | 05h00

A cultura germânica é passada de geração em geração na família de Gerd Emil Brunckhorst, brasileiro com ascendência alemã. Do seu apartamento em São Paulo, ele e a esposa Margareth se comunicam com filhos e netos em alemão.

Suas origens são responsáveis, indiretamente, pela sua participação na Campanha da Itália (1943-1945), com a Força Expedicionária Brasileira (FEB), que enviou soldados para 2.ª Guerra. Do lado oposto, seu irmão caçula, Paul Heinrich Brunckhorst, foi convocado para lutar no Exército de Hitler.

Paul se mudou para a Alemanha para morar com um tio um ano antes do início da guerra, em 1938. “Ele nunca tinha passado de 1,50 m. Um problema glandular. Mas pensamos, ‘quem sabe a mudança de clima ajuda’. Nunca ajudou”, lembra Gerd. 

Por ser filho de alemães, o Terceiro Reich recrutou Paul para servir o país, aos 20 anos, em 1943. “Ele estava feliz, porque havia sido considerado apto para lutar”, conta Gerd. Após ser designado motorista, escreveu dizendo que havia sido destacado para a frente russa. E nunca mais deu notícias. 

Já Gerd, no ano seguinte, foi para Nápoles no primeiro navio brasileiro, em 2 de julho de 1944, compondo o Batalhão de Engenharia do 6.º Regimento de Infantaria, de São Paulo. “Eu queria ir. Queria provar que sou brasileiro a todo custo. Fiz questão.” 

A motivação de Gerd vinha da discriminação vivida no trabalho. A campanha antigermânica no governo de Getúlio Vargas fez com que ele fosse demitido da companhia de seguros onde trabalhava no Rio de Janeiro, no setor marítimo, com outros três alemães, por “ordens superiores”. 

Intérprete. Nos quatro meses em que ficou na Itália, como cabo, acompanhou oficiais do Exército servindo de intérprete de inglês e alemão. Gerd era trilíngue, após ter completado os estudos na Deutsche Schule de São Paulo, atual Porto Seguro. 

Ao ser afastado depois de um acidente enquanto montava o acampamento, com complicações no fêmur esquerdo, Gerd também serviu de intérprete nas bases hospitalares americanas onde ficou internado, antes de ser mandado de volta ao Brasil. “Uma enfermeira me levou até um soldado alemão machucado. ‘Vai lá, ele está tão sozinho’, ela me disse. Meus colegas brasileiros me incentivaram. Disseram que ele era um cara bacana.” 

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