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Namoro com Mercosul

Muitos italianos acreditam que é mais fácil articular com o Brasil do que com os alemães

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

04 Março 2018 | 03h00

As eleições de hoje na Itália coincidem com um momento decisivo das negociações entre Mercosul e União Europeia (UE), que já duram duas décadas. A Itália tem tido papel importante no sentido de facilitar as concessões. Depois da Alemanha, é o país mais industrializado da Europa. Com a saída da Grã-Bretanha do bloco, outro país que também procurava ajudar a remover os empecilhos impostos pela Política Agrícola Comum, a importância da Itália se tornou ainda maior para o Brasil.

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Estima-se que haja mais de mil empresas italianas no Brasil. Muitas são pequenas, como acontece na própria Itália. E há gigantes como a Fiat e a Enel, do setor elétrico, que tem usado o País como plataforma de lançamento de suas operações de geração e distribuição de energia eólica. Mesmo nesses três anos de recessão, os italianos mantiveram os investimentos no Brasil.

Assim como ajudaram a Embraer a desenvolver o caça AMX, nos anos 80, os italianos estão na disputa para ganhar a licitação de quatro corvetas para a Marinha brasileira, por meio do estaleiro Fincantieri. Massimo Gaiani, subsecretário de Assuntos Econômicos e responsável por América Latina na chancelaria italiana, é um entusiasta do acordo UE-Mercosul. 

No dia 20, quando o ministro da Agricultura italiano, Maurizio Martina, declarou que o acordo com o Mercosul era “insatisfatório”, que a Itália deveria vetá-lo, Gaiani tranquilizou as autoridades brasileiras. “Esse discurso vai só até 4 de março (as eleições de hoje). Não é essa a posição do governo.”

Dois dias depois, o chanceler italiano, Angelino Alfano, visitou Brasília. Os italianos estão entre os europeus que acham que, diante da resistência dos EUA sob Donald Trump contra o comércio, a UE precisa consolidar outras parcerias. Nesse contexto, o bloco firmou acordo comercial com o Canadá e o Japão. O Mercosul seria o próximo da fila.

Na discussão sobre o controle dos nomes de origem geográfica, Gaiani ponderou perante o governo italiano que quem produz parmesão e salame no Brasil são muitas vezes descendentes de italianos, que também são eleitores. “Temos de tomar cuidado.” 

Importância

Em seu discurso no Fórum Econômico Mundial de Davos, o primeiro-ministro italiano, Paolo Gentiloni, defendeu o acordo UE-Mercosul, o que é incomum. Os italianos apoiam a entrada do Brasil na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), porque a consideram muito dominada pelos anglo-saxões. Como sétima ou oitava economia, eles acham que o Brasil terá peso no órgão e há mais facilidade de articulação com os brasileiros do que com os alemães, por exemplo.

Na quinta-feira, o presidente do Parlamento Europeu, Antonio Tajani, aceitou a indicação de Silvio Berlusconi para ser o candidato a primeiro-ministro, caso a aliança de direita seja convocada para formar governo e o Força Itália seja o mais votado entre os quatro partidos que o compõem, como indicam as pesquisas. 

Tajani fala espanhol fluentemente e tem interesse especial pela América Latina. Como comissário de Indústria da UE, ele participou do grupo de trabalho, criado em 2013, para aprofundar as relações econômicas entre o bloco europeu e o Brasil. 

O chanceler brasileiro, Aloysio Nunes Ferreira, reuniu-se com Tajani no dia 29 de agosto, durante a Conferência dos Embaixadores da UE em Bruxelas, e saiu muito bem impressionado. Na conferência, Tajani fez um apelo para que a UE não deixe que a China “tome conta da América Latina, como fez com a África”.

Na sexta-feira, já como pré-candidato da direita, Tajani voltou a falar de sua preocupação com a China em palestra para estudantes do Link Campus University, de Roma. “Não podemos dar de bandeja a liderança do continente para a França e a Alemanha. Sem a Europa, a Itália morre. E, sem a Itália, a Europa também morre.” Será que o Brasil vê o comércio com o mesmo senso de urgência?

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