Não aceitaremos esmolas, diz Fidel

Ex-presidente cubano diz que Cuba resistirá, em uma aparente resposta às medidas anunciadas por Obama

Ruth Costas, O Estadao de S.Paulo

14 de abril de 2009 | 00h00

O ex-presidente cubano Fidel Castro assegurou ontem que "Cuba tem resistido e resistirá" e "não estenderá jamais suas mãos pedindo esmola". As declarações foram feitas em um artigo divulgado pela mídia estatal horas após o presidente americano, Barack Obama, anunciar o levantamento de restrições de viagens e remessas à ilha.O impacto do fim das restrições às viagens e remessas de cubano-americanos a Cuba não deve se restringir à economia. A chegada de mais visitantes à ilha significa mais relatos sobre a vida nos EUA e os benefícios do capitalismo - e é nesse ponto que essas medidas podem tornar-se um incômodo para o governo cubano, segundo especialistas consultados pelo Estado. "Os cubano-americanos circulam por toda a ilha e não apenas pelos locais turísticos", diz José Azel, do Instituto de Estudos Cubanos da Universidade de Miami. "Eles falam o mesmo idioma e estão em estreito contato com a população local, por isso, muitas vezes, suas histórias sobre o ?mundo livre? são mais poderosas que a propaganda anticapitalista do governo."O economista cubano Carmelo Mesa-Lago, da Universidade de Pittsburgh, lembra os desafios políticos que Havana teve de enfrentar após a liberalização das viagens à ilha durante o governo Jimmy Carter, no final dos anos 70. Só em 1979, 10 mil cubanos lotaram voos charters para visitar seus parentes em Cuba pela primeira vez em duas décadas."Cuba defendia a austeridade socialista e dizia que os exilados passavam dificuldade nos EUA, mas eles chegavam à ilha bem vestidos, com fotos da casa e do carro novo em Miami", diz Mesa-Lago. "Foi em parte motivados por esses relatos que mais de 100 mil cubanos deixaram Cuba em 1980 pelo Porto de Mariel."A lembrança também parece fresca na memória de autoridades cubanas. Armando Hart, um dos comandantes históricos da revolução, admitiu recentemente que se o presidente americano, Barack Obama, cumprir a promessa de aliviar as restrições à ilha "nascerá uma nova etapa do combate ideológico entre a revolução cubana e o imperialismo". "Haverá uma ampla migração para Cuba com distintos objetivos e precisamos estar preparados", disse Hart. COMUNICAÇÕESO fim da proibição para que empresas de telecomunicações prestem serviço aos cubanos - outra medida anunciada pelos EUA ontem - também pode contribuir para reduzir o isolamento de Cuba. Hoje, as redes de comunicação na ilha são precárias porque o país não tem acesso ao cabo de fibra ótica submarino que interliga digitalmente o continente e a Europa. Chamadas internacionais e conexões de internet dependem de linhas via satélite, que são analógicas, caras e ineficientes. É claro que o impacto de todas essas medidas deve ser relativizado. Mesa-Lago faz a ressalva de que, por causa da crise econômica, por exemplo, muitos cubano-americanos devem repensar planos de viagem e as empresas adiarão investimentos. "Além disso, a China já demonstrou que mesmo com mais permeabilidade às ideias de fora e até uma flexibilização econômica, regimes autoritários podem criar mecanismos para evitar a abertura política", afirma Mesa-Lago. O avanço da normalização das relações deve depender de como Havana responderá ao gesto unilateral de Obama.A esperança é a de que Fidel e Raúl Castro libertem presos políticos. O problema é que o governo cubano não tem se mostrado disposto a nenhum tipo de abertura política e é difícil prever se conseguiria - ou desejaria - fazer mudanças na economia. Além disso, as cartas que Obama pode levar à mesa de negociação são limitadas. O presidente americano até pode criar exceções nas proibições ao comércio com a ilha, por exemplo, mas o fim do embargo depende do Congresso - onde é grande o lobby dos que acreditam que um alívio econômico fortaleceria o regime cubano. É esse mesmo lobby que poderia impedir a aprovação de uma lei, em tramitação no Senado, permitindo que todos os americanos - sem exceção - possam visitar a ilha. Se aprovada, o número de turistas - atualmente de 2,3 milhões - pode aumentar em 1 milhão. Hoje, dois terços das famílias cubanas recebem visitas esporádicas ou dinheiro de parentes no exterior. O turismo é a atividade que mais aporta divisas para a ilha e as remessas dos EUA chegariam a US$ 1 bilhão. Otimista sobre o avanço das relações bilaterais, Phillip Peters, especialista em Cuba do Lexington Institute, lembra que a rejeição às sanções está crescendo entre americanos. Mais de 70% da população aprovam o fim do embargo segundo a CNN.

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