Não-Alinhados denunciam guerra como dominação

Presidentes, ministros, reis e xeques, representando mais de metade do mundo, reuniram-se hoje numa cúpula que teve início com um pedido dos anfitriões malaios para que a guerra seja considerada ilegal, denunciando que a campanha liderada pelos EUA contra o terrorismo e o Iraque é, na verdade, uma tentativa de dominar as nações não-brancas.O primeiro-ministro da Malásia, Mahathir Mohamad, saudou os líderes que participam da cúpula de dois dias do Movimento dos Não-Alinhados, composto por 116 nações. O movimento quer que seja ouvida sua voz nos confrontos dos EUA com o Iraque e a Coréia do Norte, dois países-membros acusados de possuírem armas de destruição em massa. O grupo quer que o Iraque cumpra a exigência de desarmamento da ONU, mas se opõe a qualquer ação unilateral dos EUA para forçar Bagdá a acatar a determinação.Mahathir, um influente estadista muçulmano, advertiu que a guerra é a "mais importante ameaça" que enfrenta o bloco, a maioria de nações em desenvolvimento, que representa 55% da população mundial e ocupa cerca de dois terços dos assentos da Assembléia Geral da ONU."A guerra tem de ser tornada ilegal - esta tem de ser nossa luta hoje", afirmou Mahathir, o próximo presidente do grupo, na cerimônia de abertura.Depois dos ataques de 11 de setembro nos EUA, países poderosos lideram "o renascimento de um antigo traço europeu de querer dominar o mundo" - o que, segundo Mahathir, "envolve invariavelmente injustiça e opressão dos povos de outras origens étnicas e cor"."Não se trata mais apenas de uma guerra contra o terrorismo. Na verdade, trata-se de uma guerra para dominar o mundo - isto é, o mundo cromaticamente diferente".O ministro do Exterior iraquiano, Naji Sabri, disse a repórteres que o discurso de Mahathir era uma mensagem a Washington para "ouvir cuidadosamente a voz da opinião pública mundial, que é contra a guerra. Aqueles que pedem a guerra são hoje inimigos públicos, inimigos da humanidade".O enviado dos EUA, Charles Twining, um observador na conferência, afirmou que iria passar os comentários de Mahathir a Washington. "Ele é um amigo nosso, escutamos o que ele diz. Não estamos aqui para julgar o que é dito na conferência", explicou.Durante a preparação da cúpula, chanceleres decidiram por consenso pedir ao Iraque para "cumprir ativamente" as resoluções da ONU que exigem seu desarmamento, ao mesmo tempo em que também se opuseram a qualquer ataque unilateral dos EUA.Mas esforços para conseguir que a Coréia do Norte retornasse a um tratado-chave de não-proliferação nuclear (TNP) não tiveram sucesso.Os norte-coreanos mudaram de posição depois de terem inicialmente concordado com uma declaração que "sublinhava a importância" de sua participação no Tratado de Não-Proliferação Nuclear, disseram participantes. O esboço final omitiu a frase.A disputa com a Coréia do Norte reflete o que Mahathir classificou de "luta (do movimento) para banir armas nucleares".Seis participantes da cúpula - Angola, Camarões, Chile, Guiné, Paquistão e Síria - são membros não-permanentes do Conselho de Segurança da ONU, de 15 integrantes, onde os EUA e a Grã-Bretanha precisam de uma maioria de 9 votos para que seja autorizado um ataque contra o Iraque.O secretário-geral da ONU, Kofi Annan, numa mensagem à cúpula, alertou contra qualquer ação sem a autorização do CS, considerando que inspeções de armas no Iraque "começam a apresentar resultados"."Acredito que a guerra, mesmo no momento, não é inevitável", disse Annan. "Exorto a liderança iraquiana a optar pela completa transparência e cooperação com os inspetores, a fim de evitar o conflito".O presidente iraniano, Mohammad Khatami, alertou que um ataque ao Iraque iria "fortalecer o extremismo" e pediu ao mundo para "dizer ´não´ aos negociantes da guerra e políticas inclinadas à violência e vingança".Mais cedo, Timor Leste, o mais novo país do mundo, e a ex-colônia britânica de São Vicente e Granadinas, do Caribe, foram formalmente admitidos, elevando para 116 o número de nações que integram o movimento.O Movimento dos Não-Alinhados foi fundado em 1955, como opção de um caminho neutro entre os Estados Unidos e a antiga União Soviética, e tem tentado manter sua relevância após o fim da Guerra Fria.Mahathir sugeriu que o grupo seja reinventado como um movimento antiguerra, que atrairia os pacifistas dos países ricos - aos quais ele se refere coletivamente como "o Norte" - a fim de formar uma influente voz contrária ao "massacre dos povos por qualquer razão"."Sabemos que somos fracos. Mas também sabemos que temos aliados no Norte", afirmou. "Eles saíram aos milhões às ruas para protestar contra políticas belicistas de seus líderes... Temos de nos unir à luta deles com toda a força moral que podemos controlar".

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