Mauricio Dueñas Castañeda/EFE
Mauricio Dueñas Castañeda/EFE

‘Não apostaria numa queda rápida de Maduro’

Economista e diplomata brasileiro considera que apoio do comando militar a presidente venezuelano ainda é grande

Entrevista com

Rubens Ricupero, ex-ministro da Fazenda e ex-embaixador nos EUA

Jéssica Otoboni, O Estado de S.Paulo

04 de junho de 2017 | 05h00

Rubens Ricupero foi ministro da Fazenda no governo de Itamar Franco e embaixador do Brasil nos EUA. Atualmente, é diretor da Faculdade de Economia da Fundação Armando Alvares Penteado (Faap). Ao Estado, ele falou sobre a crise venezuelana, a influência da OEA e o papel regional do Brasil. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Como o senhor avalia a crise na Venezuela?

O chavismo ainda tem muita força na Venezuela. Chávez é o que Perón foi na Argentina, Getúlio e Lula no Brasil. Por isso, ganhou tem apoio dos mais pobres. A morte dele não modificou o panorama. Eu não apostaria em uma queda rápida de Maduro, porque ele conseguiu cooptar grande parte do comando militar. Na Venezuela do passado, seria provável que, a essa altura, já houvesse algum movimento militar contra o presidente. Atualmente, não. A situação econômica, embora muito ruim, ainda não chegou a um ponto de desgoverno absoluto. Há muito tempo se espera que a Venezuela não consiga mais pagar seus compromissos externos, sobretudo os bônus da PDVSA. Mas, até agora, conseguiram. Segundo previsões de bancos americanos, o momento mais crítico será em 2018. Ninguém imagina que eles vão suspender o pagamento de uma hora para a outra. Eles têm condições por algum tempo de manter esse impasse. Quanto? É difícil saber.

O que a OEA pode fazer?

Não se pode apostar muito na OEA, pois é a enésima tentativa de uma saída negociada. O papa tentou duas vezes. Já houve diálogos entre oposição e o grupo de Maduro, e sempre acabam mal. É difícil ter esperança. Em algum momento, haverá um efeito catalisador que forçará uma saída negociada ou pior: uma explosão de violência. Acredito que eles vão tentar na OEA criar esse grupo de amigos, mas não é muito fácil. O secretário-geral, Luis Almagro, é inimigo de Maduro, quase pessoal. A OEA hoje é está enfraquecida e não tem mais o prestígio e a força que tinha antes. Por outro lado, os EUA continuarão deixando os países latino-americanos resolver o problema.

Qual o papel do Brasil na crise?

No que se refere à diplomacia, o Brasil pode desempenhar um papel útil. Mas vai ser difícil. O que precisa ser visto é o problema dos refugiados. Até agora o número não é muito grande, mas se a situação na Venezuela não melhorar, haverá mais refugiados. Nesse caso, o Brasil teria que pedir ajuda à ONU, porque o País tem pouca experiência nisso. O Brasil teria de gastar bastante. Se a ONU estiver presente, pode dividir a fatura.

O centro de refugiados feito pelo Brasil na fronteira com a Venezuela pode funcionar?

Depende do número de refugiados. Se ficar em dezenas, ou no máximo centenas, o ideal é processar logo o caso dessas pessoas e permitir que elas trabalhem. No caso da Síria, o Brasil já acolheu 3 ou 4 mil refugiados sírios. Então, não é impossível. No caso do Haiti, acolhemos um número ainda maior. Se o número ficar por aí, vai dar certo. Se aumentar, fica complicado. Esse é o primeiro caso que o Brasil tem de refugiados fronteiriços. Houve com a Colômbia, no caso das Farc, mas foi relativamente pequeno. Agora, isso existe em uma fronteira que, embora não seja muito povoada, pode se tornar uma válvula de escape se a violência piorar na Venezuela. Por isso, é importante conter o nível de violência.

Com o senhor avalia a ação de Colômbia e Argentina na crise?

A Colômbia é um país-chave. O presidente (Juan Manuel) Santos ainda tem possibilidade de ajudar. No começo, ele tinha melhorado muito a relação com a Venezuela em comparação com seu antecessor, (Álvaro) Uribe. A Argentina pode ajudar, mas é mais distante e tem pouco a ver com a Venezuela. O Brasil teria mais peso do que a Argentina por ser um país fronteiriço. A Argentina está procurando aparecer em razão do regime mais ativo de (Mauricio) Macri. Mas essa não é uma questão que depende muito de protagonismo. O problema é o impasse entre eles. No momento, pode-se dizer o que os teóricos das relações internacionais gostam de falar, que o impasse entre governo e oposição é uma soma igual a zero: se um ganha, o outro perde. Nesse tipo de situação, em que cada um luta por sua própria sobrevivência, é difícil encontrar uma solução. É necessário encontrar uma forma que haja uma soma maior do que zero, em que os dois lados ganhem alguma coisa. A alternativa a isso é o enfrentamento violento e a deriva da Venezuela para uma ditadura.

O petróleo pode tirar a Venezuela da crise?

No momento, essa perspectiva não existe. A Venezuela escapou de muitas crises no passado porque, de repente, o preço do petróleo subia. São reviravoltas que acontecem no mercado. Mas não podemos esquecer que há na Venezuela essas singularidades que não existem no Brasil. Como se trata de um país de um único produto, e como ele tem muita oscilação, provavelmente, no cálculo do governo deve estar presente a esperança de que o mercado do petróleo melhore.

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