Myitkyina News Journal / AFP
Myitkyina News Journal / AFP

'Não atirem nos manifestantes': Em Mianmar, freiras tentam evitar violência dos militares

Desde o golpe de Estado em 1º de fevereiro, 60 civis foram mortos e 1.800 foram detidos pelo novo regime

Redação, O Estado de S.Paulo

09 de março de 2021 | 15h00

YANGON, Mianmar - "Não atirem contra as crianças!". A irmã Ann Rose Nu Twang se ajoelhou, abriu os braços em cruz e implorou às forças de segurança de Mianmar. Mas foi em vão. No mesmo dia, 8 de março, três manifestantes que lutavam pela democracia foram mortos. O ato de coragem de Ann Rose foi muito compartilhado nas redes sociais do país asiático, que é majoritariamente budista e tem visto uma escalada de violência. 

A polícia e o Exército não têm hesitado em usar munição desde que começaram as manifestações pacíficas contra o golpe de Estado que derrubou o governo civil de Aung San Suu Kyi, em 1º de fevereiro.

Em 8 de março, centenas de pessoas, principalmente membros da etnia Kachin, tomaram as ruas da cidade de Mytkyina, no norte, palco de manifestações desde o golpe. Entre os manifestantes, havia inúmeras jovens que se manifestavam pelo Dia Internacional da Mulher. 

Mas no início da tarde, o ambiente se degradou. A polícia e o Exército lançaram gás lacrimogêneo e bombas de efeito moral para tentar dispersar a multidão, que respondeu lançando projéteis. Ao longe, ouvia-se várias explosões. 

Os manifestantes se protegiam atrás de barricadas erguidas às pressas com folhas, placas de madeira e tijolos. Entre a multidão, a freira Ann Rose Nu Twang, de 45 anos, se aproximou das forças de segurança. Ajoelhou-se e dois policiais fizeram o mesmo, juntando suas mãos em sinal de respeito pela religiosa. Já outros permaneceram indiferentes, de acordo com imagens divulgadas por um veículo local, o Myitkyina News Journal.

"Eu supliquei que não atirassem (nos manifestantes). Que em vez disso me matassem. Levantei as mãos em sinal de perdão", conta a freira à AFP. Não muito longe do local, outro grupo de policiais começou a atirar. Imagens divulgadas nas redes mostravam manifestantes imóveis e cobertos de sangue. Um deles estava estirado de bruços no chão. 

"Foi um momento de pânico. Estava no meio e não podia fazer nada. Não tive medo". Outras duas freiras chegaram para apoiá-la. "Parem, estão torturando e matando as pessoas. É por isso que as pessoas estão com raiva e protestam", afirmou uma delas.

Três manifestantes morreram. Nesta terça-feira, uma das vítimas, Zin Min Htet, foi enterrada e uma multidão compareceu para prestar uma última homenagem, reunindo-se em volta de seu caixão, coberto de flores, e fazendo a saudação dos três dedos, símbolo da resistência. 

Em 28 de fevereiro, a religiosa havia chamado a atenção ao ficar de joelhos em frente às forças de segurança para pedir prudência. Ao menos 60 civis perderam a vida desde o golpe e mais de 1.800 foram detidos, segundo a Associação de Assistência aos Presos Políticos.

O Estado nega qualquer envolvimento da polícia ou do exército na morte dos civis, e defende que as forças de segurança devem "conter os distúrbios tal e como dita a lei". / AFP

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