Não confiem nos barbudos

Há pouco mais de um ano ocorria a Primavera Árabe, graças à qual a população derrubou três figuras sinistras: Mubarak (Egito), Kadafi (Líbia) e Ben Ali (Tunísia). Esses levantes espontâneos, essas revoluções, a passagem da Idade Média para a Modernidade, a ascensão gloriosa dessa juventude encantaram os democratas. Algumas vozes mais experientes advertiam: "Excelente a derrubada dos déspotas. Mas, depois deles, não confiem nos barbudos (os islâmicos) e temam o caos".

Gilles Lapouge,

14 de junho de 2012 | 03h08

E é no caos que a Líbia vive desde então. O Conselho Nacional de Segurança mostra-se incapaz de desarmar as milícias formadas no ano passado durante a luta contra Kadafi, e agora pululam, algumas delas submetidas a grupos islamistas, outras em defesa dos interesses dessa ou daquela tribo.

Na Tunísia, que ontem condenou à revelia Ben Ali a 20 anos de prisão, os islamistas estariam por trás da onda de revoltas que sacode as grandes cidades, saqueando ou incendiando instalações do governo. Minutos depois de Ayman al-Zawahiri, o sucessor de Osama bin Laden, lançar um apelo na internet, era divulgada outra mensagem. Era Abu Ayoub, que conclamava os tunisianos a um "levante popular". Abu Ayoub é uma figura notória. Trata-se do chefão da ala salafista tunisiana, e os salafistas não estão para brincadeiras! Os dois apelos são inquietantes, principalmente porque o próprio chefe do governo tunisiano é islamista. Isso significa que o partido islamista Ennahda, que detém o poder, é considerado pelos verdadeiros islamistas indeciso, pró-ocidental e talvez mesmo traidor.

A prova disso é que as autoridades permitem que teatros apresentem obras ímpias. Pior ainda, elas toleraram que uma galeria de arte de Túnis promovesse no Palácio Abdellia (no bairro chique da capital) uma exposição sacrílega. Os quadros atacavam os barbudos e as mulheres de niqab (o véu negro). Uma tela provocou particular indignação: uma mulher nua, cercada de homens vestidos de preto e de barba, que em lugar do sexo exibia um prato de cuscuz.

O governo recuou e ordenou o fechamento do palácio. Ao mesmo tempo, reforçou seu dispositivo contra outros eventuais problemas provocados pelos salafistas ou pela Al-Qaeda.

A Tunísia é um país cuja economia depende em grande parte do turismo (e com razão, porque suas paisagens são magníficas). A temporada de turismo está começando, mas a efervescência salafista e policial poderá afetá-la dramaticamente. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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