Mikhail Klimentyev/AFP
Mikhail Klimentyev/AFP

Não confiemos em Putin na questão síria

Geórgia e Ucrânia mostraram o que ocorre quando o Ocidente não bloqueia a diplomacia coercitiva da Rússia

ANDREW FOXALL*, O Estado de S. Paulo

15 Setembro 2015 | 02h02

 

A Síria vem sendo destruída. A guerra civil, que persiste há mais de quatro anos, deixou o país em ruínas. O implacável Estado Islâmico (EI) controla grandes áreas ao norte e leste do território e o regime sanguinário de Bashar Assad mantém sua fortaleza em Damasco.

As potências ocidentais - EUA e países europeus - não têm nenhuma alternativa viável para combater o EI e estão de mãos atadas. Ou trabalham com o governo Assad para combater os jihadistas, ou ignoram sua existência e empreendem uma ação militar sozinhos. Mas, até agora, a campanha aérea liderada pelos EUA contra o EI contribuiu muito pouco para conter os avanços do grupo.

Essa escolha difícil resulta do fracasso da atual política adotada pelo Ocidente. E quem compreende isso melhor do que muitos é o presidente russo, Vladimir Putin.

No dia 4, Putin anunciou que a Rússia estava oferecendo ajuda militar a Damasco para combater o EI. E ele também insistiu em "uma espécie de coalizão internacional para lutar contra o terrorismo e o extremismo". As medidas estão em sintonia com a política de Moscou para a Síria, que tem sido constante desde 2010: bloquear qualquer movimento apoiado pelos americanos para destituir Assad e forçar o Ocidente a aceitá-lo como parceiro.

A Rússia foi isolada pelo Ocidente em razão de suas ações na Ucrânia, mas agora ela se apresenta como improvável salvadora - uma parceira indispensável nos esforços ocidentais de combate ao extremismo islâmico.

E não é a primeira vez. Após os atentados de 11 de setembro de 2001, Putin foi o primeiro líder mundial a falar com o então presidente, George W. Bush. Dias depois, ele prometeu apoio da Rússia à coalizão liderada pelos EUA contra o Taleban no Afeganistão, incentivando outros a se juntarem à Rússia na "luta contra o terrorismo internacional".

O terrorismo islâmico é uma questão à qual Putin dá muita importância. É um problema que o ajudou, primeiramente, a chegar ao poder. Durante várias semanas em setembro de 1999, diversos atentados a bomba destruíram quatro edifícios de apartamentos em Moscou e em outras duas cidades russas. Cerca de 300 pessoas morreram.

Os terroristas da República da Chechênia, ao sul do país, foram os acusados. Com esse pretexto, a população traumatizada da Rússia prontamente concordou quando Moscou iniciou uma segunda guerra na Chechênia. Alguns meses após a invasão, Putin, até então relativamente desconhecido e recém-nomeado primeiro-ministro, assumiu a presidência.

Mas há dúvidas com relação à narrativa oficial. Críticos apontam para evidências de que a responsável pelos atentados teria sido a agência de segurança federal da Rússia (FSB, na sigla em inglês). Menos de uma semana depois do quarto atentado, uma quinta bomba foi descoberta em uma outra cidade russa. Ela foi desarmada e os responsáveis foram presos e identificados. E não eram terroristas chechenos, mas agentes da FSB. Putin, ele mesmo ex-chefe da agência, rejeitou rumores de que os atentados eram um complô com apoio do Estado.

Mas suspeitas de que Moscou manipula o terrorismo para seus próprios fins ressurgiram. Em julho, o Novaya Gazeta, um dos poucos jornais independentes do país, informou que a FSB estava controlando o fluxo de jihadistas do norte do Cáucaso para a Síria, onde muitos aderiram ao EI. A investigação do jornal chegou à conclusão de que a agência havia estabelecido um "corredor" permitindo aos radicais viajarem através da Turquia, uma vez que Moscou prefere que esses jihadistas combatam na Síria e não na Rússia.

Mas o presidente Obama disse ter ficado "encorajado" por um telefonema de Putin para discutir a questão da Síria e era "a oportunidade de uma conversa séria". Obama não poderia estar mais enganado.

O plano diretor de Putin para a Síria é claro: os países árabes e ocidentais, que formam a atual coalizão contra a insurgência, se uniriam a Assad, às tropas curdas e iraquianas; Irã, Hezbollah e Rússia também poderiam se juntar à aliança. A coalizão teria um mandato oficial do Conselho de Segurança da ONU e assim derrotaria os jihadistas.

A Rússia traria Assad para a mesa de negociações e supervisionaria uma transição política que preservasse seu regime. Ao promover uma aproximação entre a Rússia e o Ocidente sobre o problema do EI, Putin espera se reabilitar, como foi o caso após o 11 de Setembro. Naquela ocasião, Putin convenceu o Ocidente de que a ameaça que enfrentava no Afeganistão e em outras regiões era a mesma com que a Rússia deparava no caso da Chechênia. Assim, o presidente russo conseguiu reprimir as críticas do Ocidente sobre a brutalidade da Rússia na Chechênia.

Estratégia. O Kremlin viu como fraqueza o entusiasmo do Ocidente por uma cooperação, o que levou Putin a acreditar que poderia agir como quisesse na Rússia impunemente - crença que ainda prevalece, mas não se aplica mais apenas à Rússia.

Se uma nova aproximação na questão da Síria ocorrer, a Ucrânia será convenientemente esquecida. Mas existe o risco de corroer as sanções contra a Rússia em razão da Ucrânia e pode conferir a Putin o reconhecimento tácito da anexação da Crimeia e o domínio de Moscou sobre a região oriental da Ucrânia.

A Rússia, assim, terá triunfado sobre a ordem mundial imposta pelo Ocidente após o fim da Guerra Fria. Os inimigos dos EUA, da China ao Irã, veriam isso como um convite para redefinir suas relações com Washington.

O Ocidente deve analisar todas as opções com relação à Síria - incluindo uma coalizão internacional com a Rússia contra o EI. Mas, se escolher esse caminho, não deve ter certeza de que pode confiar em Putin, de que a inteligência compartilhada pela Rússia será confiável ou de que o Kremlin ajudará a negociar um acordo diplomático na Síria que o Ocidente e os países árabes possam apoiar.

Georgia e Ucrânia mostraram o que ocorre quando o Ocidente não bloqueia a diplomacia coercitiva da Rússia. Não devemos permitir que Putin dite as condições da cooperação. Se agirmos assim, estaremos repetindo erros passados. / Tradução de Terezinha Martino

* É diretor do Centro de Estados sobre a Rússia na Henry Jackson Society, grupo de estudos internacionais

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