'Não considero o modelo defendido por Cuba e Venezuela como o melhor'

Entrevista com Sebastián Piñera, presidente do Chile

João Paulo Charleaux, O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2010 | 00h00

O presidente chileno, Sebastián Piñera, esteve em São Paulo e Brasília nos últimos dois dias, depois de ter visitado a Argentina, em seu primeiro giro internacional desde que assumiu o governo, em março. A seguir, trechos da entrevista que ele concedeu ao Estado na madrugada de ontem.

O Chile inspirou os socialistas nos anos 60 e os neoliberais nos 90. Sua chegada ao poder pode, hoje, inspirar uma reação da direita na América Latina?

Há na América Latina dois modelos. De um lado, estão Venezuela, Nicarágua, Bolívia e Cuba. De outro, México, Brasil, Colômbia, Peru e Chile. Eu acredito no modelo que respeita a liberdade numa democracia verdadeira, com Estado de direito, liberdade de expressão, respeito à oposição, alternância de governo e separação de poderes. Creio na economia de mercado, aberta e competitiva, porque favorece o empreendedorismo e produz riqueza e bem-estar.

E como será a relação com os que estão do outro lado?

É óbvio que eu não considero o modelo defendido por Cuba e Venezuela como o melhor. Temos diferenças importantes. Mas cada um tem o direito de escolher seu caminho.

Seus quatro anos de mandato serão marcados pela reconstrução depois do terremoto de fevereiro. Que papel as construtoras brasileiras podem ter neste processo?

O terremoto que atingiu o Chile foi um dos cinco piores da história. Ele nos custou mais de 400 vidas. Nós também perdemos US$ 30 bilhões (14% do PIB). Foram destruídas ou danificadas mais de 270 mil casas, 4 mil escolas e 78 hospitais. O plano de reconstrução tomará todo o tempo que durará meu governo. Estamos nos preparando para cumprir com nosso programa de governo e, ao mesmo tempo, assumir o desafio de reconstruir o país.

Quando o sr. assumiu, defendeu a unidade nacional. Mas a oposição não para de criticar seu governo, especialmente no campo dos direitos humanos. Esta unidade não durou nada?

Não há ninguém no nosso governo que tenha sido condenado por violação dos direitos humanos. Muitas destas acusações são infundadas. Quem deve dizer se alguém é ou não é culpado são os tribunais.

Mas, de uma forma ou de outra, estas críticas mostram que a unidade não durou nada.

Ao contrário, eu penso que para enfrentar o desafio de derrotar o subdesenvolvimento, necessitamos unidade. Isso não significa misturar o papel do governo com o da oposição. Os dois têm papéis diferentes e necessários.

Houve, na decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de não prestigiar sua cerimônia de posse, em março, alguma mensagem política oculta?

Não. Isso não se deve a nenhuma diferença deste tipo, mas a outras razões que ele conhece.

E o sr. também conhece?

Eu também as conheço.

Quais são?

Pertencem ao mundo privado.

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