Não culpem Netanyahu

Premiê pode não ser o líder que conduzirá o processo de paz entre Israel e os palestinos, mas não é o principal nem o único responsável pela falta de um pacto

AARON DAVID MILLER, PESQUISADOR DO WOODROW WILSON INTERNATIONAL CENTER FOR SCHOLARS, O Estado de S.Paulo

29 de setembro de 2012 | 03h07

O premiê israelense, Binyamin Netanyahu, tem sido recriminado energicamente por ameaçar atacar logo o Irã. Ele não viu Barack Obama na abertura da Assembleia-Geral da ONU e é criticado furiosamente por intervir na política dos EUA.

Não é a primeira vez que o mundo atribui a Bibi a desgraça do Oriente Médio. Como lembrou Josh Rogin, da revista Foreign Policy, há um ano, o ex-presidente Bill Clinton discorreu sobre o motivo pelo qual não há um processo de paz e seu ponto de vista é o seguinte: existe esse sujeito chamado Netanyahu, que é um cretino e não está disposto a aceitar os termos que ofereci em Camp David como base para um acordo com os palestinos. Clinton afirmou: "(Os líderes palestinos) disseram explicitamente em mais de uma ocasião que se (Bibi) montasse o pacto que lhes foi oferecido antes, meu acordo, o aceitariam".

Gosto realmente de Clinton. Mas sejamos claros. O ex-premiê israelense Ehud Olmert ofereceu ao presidente palestino, Mahmoud Abbas, um acordo muito melhor do que o que Clinton ofereceu a Yasser Arafat. E os palestinos não o aceitaram.

Tenho consciência de todas as razões pelas quais muitas pessoas racionais querem atribuir a culpa pelo atual impasse com os palestinos e pelo péssimo relacionamento entre EUA e Israel a Bibi. E o premiê israelense certamente merece uma grande parte da culpa. Netanyahu não é um crédulo. Tratamos com ele durante o governo Clinton e - para usar a frase de Bush-pai - ele era um negociador difícil. Minha visão quanto ao que Israel deveria ou não fazer sobre a questão são diferentes das dele.

No entanto, gosto de Bibi mesmo assim. Ele é um cara inteligente, num cargo difícil e, embora pareça conseguir sempre tornar a própria situação pior, não dispõe de escolhas fáceis. Além disso, há o inconveniente de que Netanyahu é (mais uma vez) o premiê de Israel devidamente eleito. Considerando o sistema parlamentar peculiar do país, há uma razão pela qual somente ele tinha condições de montar uma coalizão que funcionasse - fato que dá uma legitimidade que os americanos são obrigados a respeitar.

No entanto, será que Clinton está certo? Será que Bibi é a razão fundamental pela qual não esteja perto um acordo para encerrar o conflito entre Israel e os palestinos? Não se pode negar que Netanyahu é mais intransigente sobre algumas questões fundamentais do que outros políticos israelenses. Está expandindo os assentamentos da Cisjordânia, não quer compartilhar Jerusalém e é contrário a um compromisso sobre o "direito de regresso" dos refugiados palestinos. Se Ehud Barak, Shaul Mofaz ou Ehud Olmert estivessem no poder com uma coalizão que os apoiasse, a situação melhoraria sensivelmente. Mas quais são as chances atuais de se chegar a um acordo com eles ou qualquer premiê israelense? Como Yitzhak Rabin, por duas vezes primeiro-ministro israelense, costumava dizer quando se defrontava com um cenário que achava pouco realista: "Pode esquecer". O processo de paz está temporariamente fechado e não apenas por culpa de Netanyahu.

Palestinos. O processo de paz sempre exige duas mãos - às vezes três - para aplaudir. E embora haja um parceiro palestino (talvez até dois, com o Fatah e o Hamas). Como os israelenses, os palestinos são um grupo muito complexo.

O movimento nacional palestino se encontra numa crise profunda. Tudo existe aos pares: premiês, serviços de segurança, Constituições, patrocinadores estrangeiros, políticas geográficas e visões do que seja a Palestina e onde ela se encontra. Essas divisões não desaparecem. Ao contrário, se fortalecem.

Querem atribuir o mau funcionamento palestino à ocupação israelense? À vontade, se isso os fizer sentir melhor. Mas não mudará a dura realidade de que, sem uma unidade palestina que produza uma autoridade única e uma única posição para negociação, não haverá um diálogo sério e, muito menos, um Estado palestino.

Os palestinos precisam encarar a verdade inconveniente de que a viabilidade de um Estado está em sua capacidade de manter o monopólio sobre a violência. Sem isso, nenhum país pode assegurar o respeito dos vizinhos ou dos próprios cidadãos. Vamos atribuir a Bibi a disfunção do Fatah e a viabilidade do Hamas também?

Quanto falta. Não venham me dizer mais uma vez que falta pouco para um acordo. Mesmo que isso fosse verdade, o que falta é a vontade política - não fórmulas diplomáticas. E em todo caso, o pacto não está perto. Na questão de Jerusalém, dos refugiados, da segurança e até mesmo das fronteiras do eventual Estado palestino, há enormes divergências. Essa ideia tola de que todo mundo sabe qual é a solução - e, portanto, seria fácil chegar lá - só banaliza a dificuldade em chegar a um acordo que acabe com o conflito. Os detalhes são importantes.

Os árabes. Só posso rir ao lembrar dos que argumentavam que a Primavera Árabe tornaria mais fácil tratar da questão da paz árabe-israelense. Alguns afirmaram que, agora que os árabes se democratizam, Israel poderia querer um diálogo. Outros usaram o argumento inverso: Agora que o populismo árabe se livra dos obedientes ditadores pró-americanos, Israel não teria escolha senão acertar as contas antes que o problema palestino radicalizasse toda a região. O que a Primavera Árabe causou, acima de tudo, foi a incerteza - e um novo populismo que trouxe consigo anti-israelenses e antiamericanos. Em vez de fazer com que Israel estivesse mais disposto a um acordo - ou tão temeroso que não tivesse outra escolha senão um acordo - eventuais mudanças no mundo árabe não trariam incentivos suficientes ou desincentivos para uma mudança. Em vez de medidas ousadas, o lema foi aversão ao risco e não disposição ao risco.

Irã. Não ocorrerá nenhum acordo israelense-palestino enquanto não houver mais clareza na questão do programa nuclear iraniano. Independentemente de o futuro presidente americano vir a ser Mitt Romney ou Barack Obama, o Irã será o problema dominante no próximo ano. As questões sobre as quais os estrategistas do mundo todo se debruçarão, serão: Haverá um ataque militar de Israel ou dos EUA? A diplomacia entre americanos e iranianos conseguirá montar um acordo importante? Ou o impasse continuará - com novas sanções e a perpetuação de uma guerra fria entre o Irã e o Ocidente?

Em todo caso, haverá bem pouco espaço ou incentivo a medidas sérias que levem à paz entre israelenses e palestinos, particularmente do lado israelense. De fato, Israel insiste tanto na urgência de liquidar a questão com o Irã em 2012, que é quase inimaginável que 2013 não traga alguma decisão. Se for uma ação militar, as chances de um processo de paz em razão do subsequente caos regional serão mínimas. Na realidade, sob muitos aspectos, não há maior atraso para o processo de paz neste momento do que tornar o programa nuclear do Irã a questão mais importante.

Encarar os fatos. Bibi não é apenas quem elabora a política do Oriente Médio, é também produto de seu ambiente político. Seria ridículo considerá-lo - e considerar grande parte do país que ele governa - como entidades que existem num vácuo. A casa palestina é um caos não apenas em virtude de Israel - as divergências entre o Hamas e o Fatah são reais e persistentes. Nem Barak nem Olmert puderam chegar a um acordo. Quanto ao povo israelense, não é absurdo pressupor que sua atitude conservadora e seu interesse pela paz se baseiem em sua avaliação do comportamento dos vizinhos.

Podemos preferir fingir que o principal obstáculo no caminho da paz israelense-palestina seja Bibi. Essa explicação atende à necessidade de personalizar os problemas, de encontrar respostas palatáveis e tornar o conflito uma alegoria na qual o bem luta contra o mal. Mas isso é incorreto: Netanyahu pode não ser capaz de conduzir o seu país para um acordo que ponha fim ao conflito com os palestinos, mas não é a razão mais importante ou a única razão por não ocorrer um acordo. O que realmente me surpreende é que um sujeito inteligente como Clinton - que sabe que o mundo é um lugar complicado - pense dessa maneira. Mas talvez não. Em Camp David, em 2000, Clinton culpou Arafat por não aceitar seu plano de paz. Agora, está culpando Netanyahu e os israelenses. Clinton tem razão em se preocupar por não haver um processo de paz. Mas pelo menos sejamos honestos quanto ao motivo. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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