'Não deixarei a Líbia. Morrerei como um mártir', diz Kadafi na televisão

Ditador acusa 'juventude drogada' de desestabilização e promete retomar controle de cidades rebeladas

estadão.com.br

22 de fevereiro de 2011 | 13h14

Kadafi ameaçou manifestantes em novo discurso.

 

TRÍPOLI - O ditador Muamar Kadafi voltou à televisão na Líbia para confirmar que não vai deixar o poder e alertar que lutará contra os manifestantes que pedem sua renúncia. "Não deixarei a Líbia. Morrerei aqui como mártir. Sou um lutador", disse o coronel em novo discurso nesta terça-feira, 22, quando seu país entrou no sétimo dia de protestos contra o governo.

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Hoje, Kadafi falou em tom ameaçador. Disse que ainda não usou força para coibir os protestos, mas que a usará "se for necessário". Ontem, Kadafi mandou jatos da Força Aérea bombardear manifestantes. Ele prometeu também tirar Benghazi, a segunda maior cidade do país, do controle dos manifestantes.

 

Kadafi culpou a juventude líbia, a imprensa internacional, o terrorismo islâmico e os EUA pelo caos no país e afirmou que a imagem da Líbia está sendo "distorcida" perante o mundo.

"Vocês conhecem alguém decente que participa disso? São todos bêbados e drogados", disse, sobre os jovens que participam dos protestos. O ditador pediu ainda às mães dos manifestantes que os entreguem ao governo para uma "desintoxicação".

O líder líbio vinculou também os protestos a radicais islâmicos que atuam no Afeganistão e na Somália. Segundo ele,  a mídia internacional está, ao mesmo tempo, a serviço da Al-Qaeda e dos EUA. "Os jornalistas seguem as ordem de Osama bin Laden e Ayman al-Zawahiri e converterão a Líbia em algo pior que o Afeganistão", disse.

 

Kadafi ainda usou uma argumentação peculiar para descartar a renúncia. "Não sou presidente, não posso renunciar. Mas se tivesse um cargo renunciaria e esfregaria isto na cara de vocês", disse. Após o golpe de 1969, Kadafi criou uma 'república das massas' na Líbia, onde, em teoria, quem governa é o povo. Na prática, o país é uma ditadura.

 

A Líbia tem vivido dias de tensão por conta das manifestações contra o coronel. Nos últimos dias, houve escalada da violência e quase 300 pessoas morreram devido à repressão das forças armadas e do choque entre manifestantes e simpatizantes do governo. Testemunhas disseram que aviões e helicópteros militares bombardearam marchas na segunda-feira e que havia mercenários pagos pelo governo para disparar contra a população na capital, Trípoli.

 

As marchas em Trípoli, Benghazi e outras cidades líbias seguem-se às revoltas populares que derrubaram ditaduras que duravam décadas no Egito e na Tunísia. Kadafi está no poder na Líbia há 41 anos e mantém os militares e a mídia do país sob forte controle. O país tem o maior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da África, mas a riqueza obtida com o abundante petróleo não é bem distribuída entre a população. O índice de desemprego é de cerca de 30%.

 

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