AP Photo/Susan Walsh
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Não deixem o Departamento de Estado à míngua

Investimento em agências civis é mais importante para consolidar o poder americano nos dias de hoje do que no Pentágono

Fareed Zakaria / Washington Post, O Estado de S.Paulo

07 de março de 2017 | 05h00

Na primeira vez em que encontrei o general David Petraeus ele disse algo que me surpreendeu. Era o início da Guerra do Iraque e as coisas não iam bem, mas Petraeus vinha atuando no norte do país com competência e eficiência. Perguntei-lhe se gostaria de ter mais soldados. Petraeus era politicamente muito hábil para criticar a estratégia light footprint (“pegar leve”) de Donald Rumsfeld. Assim, desviou-se da pergunta, respondendo indiretamente: “Gostaria que tivéssemos mais gente em política exterior, em ajuda humanitária e em outras atividades não militares”. O cerne do problema que os Estados Unidos enfrentavam no Iraque, observou ele premonitoriamente, era a profunda divisão sectária entre xiitas e sunitas, entre árabes e curdos. “Precisamos de ajuda nesse campo, do contrário teremos de deixá-lo em mãos de sargentos de 22 anos - que são ótimos rapazes, mas não conhecem a história, a língua, a política da região.”

Pensei nesse diálogo ao ler notícias de que o presidente Trump deve propor um aumento de US$ 54 bilhões no orçamento do Departamento de Defesa, o que seria compensado por grandes cortes para o Departamento de Estado, para a ajuda externa e para outras agências civis. Trump disse que quer fazer isso para que “ninguém mais ouse questionar” o poder militar dos EUA.

O caso é que ninguém questiona. O poder militar americano permanece absoluto. O orçamento da defesa dos Estados Unidos em 2015 foi nove vezes o da Rússia e três vezes o da China.

Nenhuma das dificuldades que os EUA enfrentaram nos últimos 25 anos decorreu de suas Forças Armadas serem pequenas ou fracas. Como o então secretário de Defesa, Robert Gates, assinalou num pronunciamento em 2007, “uma das lições mais importantes das Guerras do Iraque e Afeganistão é que o sucesso militar não basta para se ganhar”. Nessa ocasião e em muitas outras, Gates argumentou que “é necessário um aumento dramático de gastos em instrumentos civis de segurança nacional - diplomacia, comunicações estratégicas, assistência exterior, ação cívica e reconstrução econômica e desenvolvimento”.

Nenhum adversário esperto vai enfrentar com canhões os canhões dos EUA, ou com navios os navios americanos. Vai lutar com táticas assimétricas, como insurreições locais, terrorismo e guerra cibernética. E encarar qualquer desses desafios vai exigir dos EUA melhor capacitação não militar.

Consideremos a estratégia que levou o Irã à mesa de negociação em 2013. Foi preciso um trabalho diplomático intenso para fazer Rússia e China concordarem com as sanções das Nações Unidas ao Irã, e para isolar o país de vizinhos como a Turquia. Foi necessário também que o Departamento do Tesouro criasse sanções duras, mas inteligentes, para elevar o poder financeiro dos Estados Unidos. É assim que funciona o poder no mundo moderno.

“Precisamos fazer muito mais com menos”, disse Trump recentemente, explicando que o governo precisa fazer as coisas a sua maneira.

Economia. Mas o alvo evidente dessa investida deveria ser o próprio Pentágono, sempre citado como exemplo do desperdício no governo. O Pentágono é hoje a maior burocracia do mundo, com um sistema de emprego vitalício e quase socialista que garante moradia, saúde e aposentadoria a seus 3 milhões de funcionários.

Um recente relatório do Defense Business Board, do próprio Pentágono, concluiu que daria para economizar facilmente US$ 125 bilhões em cinco anos reduzindo a ineficiência operacional (militares de alta patente sumiram rapidamente com o relatório). Essa economia daria para financiar duas vezes e meia todo o Departamento de Defesa e todo o programa de ajuda exterior. Gates costumava dizer que “temos mais gente tocando em bandas militares do que funcionários no serviço exterior”. Vale comparar números. Há apenas 13 mil funcionários em todo o serviço externo, para 742 mil civis no Departamento de Defesa.

Trump ateve-se no pronunciamento ao Congresso, como no passado, aos US$ 6 trilhões que os Estados Unidos já gastaram no Oriente Médio. Esse número é exagerado, mas Trump acerta ao notar que, quando o Pentágono vai à guerra, os custos chegam à estratosfera. Para ficar apenas num exemplo, o site jornalístico ProPublica examinou dados da inspetoria geral para o Afeganistão e descobriu que as Forças Armadas desperdiçaram pelo menos US$ 17 bilhões em projetos variados.

Rosa Brooks, ex-conselheira civil do Pentágono no governo Obama, escreveu um livro fascinante, How Everything Became War and the Military Became Everything (Como tudo virou guerra e as Forças Armadas passaram a ser tudo). O livro mostra a política americana sendo afetada por uma força militar que não para de se expandir, enquanto as agências civis são desidratadas. Um dos comentários na contracapa diz: “É um dos livros mais instigantes que já li. É como se, num mundo de sonâmbulos, Rosa acendesse uma lanterna”. O comentário é de James Mattis, hoje secretário de Defesa. Talvez ele devesse dar o livro de presente ao chefe. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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