Não desistir da Primavera Árabe

Por décadas, os EUA minaram a democracia regional ao apoiar ditadores; agora que estão agindo certo, não podem retroceder

SHADI HAMID*, FOREIGN POLICY, O Estado de S.Paulo

17 de setembro de 2012 | 03h03

A cruel ironia da morte do embaixador americano na Líbia, Christopher Stevens, não passará despercebida dos americanos. Não fosse a decisão do presidente Barack Obama, não obstante atrasada e relutante, de intervir na Líbia, o brutal ditador Muamar Kadafi muito provavelmente ainda estaria no poder. Stevens, em particular, ganhou o respeito dos rebeldes de Benghazi pelo firme apoio que deu à sua causa. Ele foi, para usar o clichê, um amigo da Líbia. Agora ele está morto por razões que estão ao que parece associadas a um filme que ninguém na Líbia realmente viu.

Para os americanos comuns, a reação compreensível é de ódio, de traição até. Nós os libertamos - desta vez por razões humanitárias -, apesar de nossos interesses vitais não estarem em jogo. E agora eles cercam nossa embaixada e matam nosso embaixador. Quando acordei na quarta-feira, um amigo me perguntou meio brincando: "Qual o problema dos muçulmanos?".

Gostemos ou não, essa é a pergunta que muitos - até liberais americanos que deram muitas vezes o benefício da dúvida aos "muçulmanos" - farão. E é aqui que as narrativas colidirão. O filme anti-islâmico em questão foi muito mais um pretexto que uma causa da violência iniciada na semana passada.

Poderia ter sido qualquer coisa. O ódio antiamericano, mesmo na Líbia, o país mais pró-americano do mundo árabe, continua palpável, persistindo por baixo da superfície de aparente gratidão. Fora isso, mesmo que os EUA fizessem tudo da lista de desejo dos árabes, restaria uma franja pequena e influente que encontraria outra razão para o ódio - ou ao menos a aversão ou desconfiança - dos EUA.

Exceto casos excepcionais em que os EUA intervêm decisivamente de um lado ou de outro, as atitudes árabes perante a potência proeminente do mundo são geralmente o que economistas chamariam de inelásticas. Em outras palavras, mesmo que os EUA façam coisas "boas" - como encerrar a guerra no Iraque - a opinião pública árabe não parece mudar muito. Mesmo na Líbia, o sentimento antiamericano quase certamente aumentará depois que a operação da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) desaparecer da memória. Aliás, em vários países árabes, os índices favoráveis aos americanos com Obama têm sido mais baixos que nos anos finais do governo de George W. Bush.

Às vezes, é difícil para o americano entender quão arraigado é o ódio árabe. Em parte, ele é injustificado, mas boa parcela ao menos tem base em coisas que de fato ocorreram. Os argelinos trarão 1991, quando o que era então a transição democrática mais promissora da região foi abortada por um golpe militar apoiado pelo Ocidente. Os iranianos trarão 1953, quando seu primeiro-ministro democraticamente eleito foi derrubado por um golpe patrocinado pela CIA. Essas datas, de uma história remota, esquecida, são muito vivas para os que ainda sofrem as consequências dessas tragédias. O antiamericanismo pode diminuir, e provavelmente diminuirá, mas é ilusório esperar uma transformação do dia para a noite.

Grandes pluralidades ou maiorias no mundo árabe acreditam que EUA ou Israel foram de alguma forma responsáveis pelos ataques ao Pentágono e ao World Trade Center. Sim, isso é irracional - basta olhar o fato de que a Al-Qaeda recebeu o crédito pelo ataque. Mas muitos árabes acreditavam, bem antes de 11 de setembro de 2001, que os EUA não eram apenas um país bem intencionado que às vezes fazia coisas más, mas uma verdadeira força do mal. Portanto, não era difícil para eles acreditar em algo que a vasta maioria dos americanos simplesmente não poderia crer - que os americanos consentiriam ou até apoiariam ativamente a matança de seus próprios cidadãos.

A resposta fácil, para americanos que sofrem a fadiga da Primavera Árabe, seria desistir do Oriente Médio. Eles poderiam se desengajar e tratar com o mundo árabe como ele parecia ser antes deste mês - um lugar muito fora do alcance de uma análise política normal, racional.

Mas isso seria um grave erro, especialmente agora. Deveria ser óbvio que se desengajar do mundo árabe é o que extremistas salafistas - para não falar nos ditadores árabes - querem. Quanto mais os EUA se desengajarem, mais espaço eles terão para aumentar influência e poder, e mais comuns serão eventos como os da semana passada.

Durante décadas, os EUA solaparam a democracia árabe com seu apoio constante a autocratas árabes. Mas os levantes árabes mudaram esse cálculo básico e viraram de pernas para o ar as barganhas fáusticas com os déspotas da região (bem, ao menos com alguns deles).

Em países como Egito, Tunísia, e, é claro, Líbia, interesses e valores não estão perfeitamente alinhados - nunca estarão -, mas estão coordenados do que se poderia esperar. E essa não é uma oportunidade que se deva desperdiçar. Nos três países, os EUA estão finalmente jogando um papel positivo, crucial até, no apoio à recuperação econômica dos governos democraticamente eleitos que, embora profundamente falhos, gozam de legitimidade popular.

O comprometimento com essas transições têm sido morno, às vezes - mas há os que gostariam que os EUA e a Europa reduzissem ainda mais seus esforços. Devemos resistir a tais apelos. A Casa Branca precisa redobrar seu compromisso com a Primavera Árabe.

Por toda a região, extremistas salafistas e outros personagens repulsivos estão tentando preencher o vácuo de poder deixado por uma comunidade internacional fraca e confusa. Mais do que nunca, os americanos agora precisam ouvir uma narrativa clara de por que os democratas árabes precisam de nosso apoio em sua luta contra os radicais. Em poucas palavras, o que o governo Obama precisa - tanto para virar a mesa sobre seus críticos em casa como sobre seus imigos no exterior - é optar por uma resposta de "não deixar os terroristas vencerem". Com certeza, é uma ideia tosca - e uma que pode ser usada para justificar quase tudo, como na época do governo Bush. Mas hoje ela realmente faz sentido. E tem a virtude adicional de ser não só uma boa política para o mundo árabe, como uma boa política em casa. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

*É DIRETOR DE PESQUISA DO BROOKINGS DOHA CENTER, COM BASE NO CATAR, E BOLSISTA NO SABAN CENTER FOR MIDDLE EAST POLICY NA BROOKINGS INSTITUTION

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