Não desperdicem a chance da seca

Assim como o choque do petróleo nos anos 70, a atual falta d'água nos EUA abre caminho para uma série de inovações no consumo consciente

É AUTOR DE THE BIG THIRST: THE SECRET LIFE AND TURBULENT FUTURE OF WATER, CHARLES, FISHMAN, THE NEW YORK TIMES, É AUTOR DE THE BIG THIRST: THE SECRET LIFE AND TURBULENT FUTURE OF WATER, CHARLES, FISHMAN, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2012 | 03h06

Os Estados Unidos estão experimentando a pior seca desde os anos 50 e a estão desperdiçando. A seca devastou as safras de milho e afetou o comércio no Rio Mississippi. Mas, por outro lado, representa uma oportunidade para procurar sanar os problemas da água há tanto tempo ignorados, e repensar como administramos, usamos e até mesmo refletimos a respeito da água.

Há dezenas de anos, os americanos tratam a seca da mesma maneira. As autoridades pedem à população que reduza a quantidade de água ao regar o gramado e ao lavar o carro, que use lavadoras de pratos e máquinas de lavar roupa com carga total e feche a torneira enquanto escova os dentes. Quando começa a chover, voltamos aos nossos velhos e péssimos hábitos no uso da água.

Mas assim como a crise do petróleo dos anos 70 favoreceu vários avanços em termos de economia de combustíveis, também a seca de 2012 deverá inspirar algumas iniciativas para os americanos reduzirem o consumo da água.

O sistema de abastecimento de água dos EUA é uma bagunça, tanto nas grandes cidades quanto nas comunidades rurais, tanto de produtores rurais quanto de fábricas. Para citar um exemplo, as empresas de fornecimento de água preocupam-se em encontrar água, tratá-la e bombeá-la nas redes de distribuição, mas antes que ela chegue a cada casa ou empresa, encanamentos mal conservados fazem com que 16% dela - cerca de um galão (4 litros aproximadamente) em cada seis - volte para a terra. Portanto, em plena seca, nossas empresas públicas perdem a cada seis dias uma quantidade de água suficiente para abastecer a nação por um dia. Você pode tomar um banho mais rápido, mas isso não compensará o desperdício.

A boa notícia é que há uma série de medidas que, em seu conjunto, podem mudar de maneira gradativa, mas permanente, a maneira como usamos a água e a valorizamos. Algumas delas podem até mesmo ser tomadas a partir de agora.

Inovação. O americano médio usa 376 litros de água diários em casa. No verão, a metade dessa água destina-se ao gramado, bem mais que o necessário.

Não há nenhum motivo para que seja regado no meio do dia - quando o sol rouba tanta água - ou mesmo todos os dias. As restrições à rega dos gramados impostas nas cidades no início da seca deveriam se tornar permanentes, como Las Vegas e Fresno, na Califórnia, já fizeram.

As instalações dos canos devem ser mais cuidadosas, e mais divertidas.

Por que não posso comprar um vaso sanitário que informe quanta água usou durante o dia, mês e ano? Por que não posso comprar uma torneira que me diga quanta água minha filha usou no banho? Se tivéssemos ideia de quanto usamos, certamente fecharíamos a torneira.

As normas da construção deveriam ser atualizadas e exigir uma nova geração de edifícios que usassem menos água, desde nas toaletes até nas instalações de ar condicionado. As normas de zoneamento deveriam ser alteradas de forma a exigir que todas as novas construções recolhessem a água da chuva que cai sobre a terra e os telhados. A água da chuva pode ser armazenada e ser usada ou devolvida à terra. Se uma cidade dotada de um sistema de gestão de água primitivo, como Nova Délhi, pode exigir que esta água seja coletada, nós também podemos.

As 55 mil empresas públicas de tratamento e distribuição de água dos EUA precisam modificar as faturas da água incompreensíveis com gráficos no estilo do iPad que mostrem claramente quantos litros cada cliente gastou no mês, em comparação com o mês passado, e ao mesmo mês do ano passado; e em comparação ao gasto médio das famílias do bairro.

Os americanos são naturalmente competitivos: os clientes que souberem quanta água consomem, em comparação com os vizinhos, reduzirão sua quantidade. Os campos de golfe são enormes e frequentemente descuidados usuários de água. Nos últimos dez anos, Las Vegas restringiu rigorosamente a quantidade de água que seus campos de golfe podiam usar. E se o aspecto dos gramados mudou, o golfe não mudou. Outras cidades deveriam seguir o exemplo de Las Vegas.

Também precisamos repensar onde plantamos nossas culturas. Os produtores de arroz no Texas gritaram quando foram obrigados a cortar a água da irrigação. Cultura do arroz? No Texas? Com base nos padrões e nas projeções de precipitação atmosférica, precisamos ser brutalmente realistas quanto ao tipo de cultura que podemos plantar e onde.

Consertar os vazamentos de todas as instalações de água deveria ser uma prioridade de toda empresa urbana de tratamento e distribuição de água. Em geral, há milhares de vazamentos na rede municipal, mas a nova tecnologia digital poderá ajudar essas empresas a identificar os mais graves. O Congresso deveria aprovar a criação de um banco para a infraestrutura que concederia às prefeituras empréstimos a juros baixos destinados a financiar a capitalização para a gestão do sistema de água.

Finalmente, devemos vencer nossa aversão à água reciclada. A água servida pode ser depurada ao máximo, e, na maioria das comunidades, a água que elas já usaram procedente de seus encanamentos - águas pluviais, água usada - é a fonte mais fácil e mais barata de "nova" água. San Antonio recicla quase toda a sua água, mas é uma exceção - nos EUA, apenas 7% da água é de reúso. A reciclagem da água deveria ser rotineira, assim como todos os outros tipos de reciclagem.

O sofrimento provocado por essa seca, um desastre em câmara lenta, é absolutamente real. A seca pode levar à paralisia e ao pessimismo - ou pode nos inspirar a mudarmos fundamentalmente a maneira de usar a água.

A água não é sensível às nossas ilusões. Se assim fosse, as orações e as danças para fazer chover seriam suficientes para atender às nossas necessidades.

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