''Não devemos ceder à paranoia'', diz educador

Mais de 150 mil vão às ruas em Oslo; a maioria defende tradição pacífica e tolerante da Noruega, mesmo após a tragédia

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

26 de julho de 2011 | 00h00

ENVIADO ESPECIAL / OSLO

ENTREVISTA

Jan Thore Mathisen, educador norueguês

A Noruega parou, ontem, para homenagear os mortos nos atentados de sexta-feira em Oslo e Utoya. Ao meio-dia, foi feito um minuto de silêncio no trânsito, na indústria e no comércio. A homenagem foi transmitida pela TV. No final da tarde, centenas de milhares de pessoas saíram às ruas em todo o país em uma caminhada pela paz.

Convocada de forma espontânea nas redes sociais, a iniciativa reuniu somente em Oslo entre 150 mil e 200 mil pessoas, surpreendendo as autoridades que esperavam 30 mil. Entre os manifestantes estava o educador Jan Thore Mathisen, de 43 anos. Como muitos noruegueses entrevistados pelo Estado nos últimos dias, Mathisen defende a tradição pacífica e tolerante do país, mesmo após a tragédia promovida por Anders Berhing Breivik.

Por que você decidiu ir a Oslo e visitar o local do atentado?

Eu vivo em uma pequena cidade a 40 quilômetros daqui e achei importante vir, observar todo esse estrago, participar do minuto de silêncio, da caminhada dessa tarde. Foi a forma que encontrei de expressar meus sentimentos. Você pode chamar isso de terapia, se quiser.

O que você pensa de Anders Breivik? Os noruegueses não pareciam acreditar que alguém assim vivesse nesse país...

Não. E o que considero mais irreal, mas difícil de entender é como um único homem pode catalisar tanta ira, tanto ódio em relação a outras pessoas. É claro que há algo errado em seu comportamento e em sua formação psicológica.

Surpreendeu-lhe ser um extremista cristão e de direita?

O mais importante, na minha opinião, não é que o atentado tenha sido cometido por um católico. Ele é um fundamentalista. Esses ataques só me levam a crer que os fundamentalistas de fato não entendem os propósitos de suas religiões.

Em 21 anos ele pode ser libertado. Você pensa que a lei deve ser alterada?

Não, absolutamente. Não devemos defender leis mais duradouras por causa de um único caso. Não devemos ceder à pressão da paranoia e enchermos de policiais e de esquemas de segurança cada rua de nossas cidades. Nem precisamos de um código penal mais rigoroso. Essa tentação acabaria com o que temos de mais caro: a abertura e o espírito de solidariedade e tolerância.

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