Rafael Arbex / ESTADAO
Rafael Arbex / ESTADAO

‘Não devemos costurar as bocas, há um clima de islamofobia’

Clérigo xiita responde a protestos sobre visita ao Brasil, critica ‘guerra contínua’ em Israel e vê acordo nuclear em risco

Entrevista com

Mohsen Araki. Aiatolá e membro da Assembleia dos Especialistas do Irã

Luiz Raatz, O Estado de S.Paulo

29 Julho 2017 | 05h00

O aiatolá Mohsen Araki, um dos 88 membros da Assembleia dos Especialistas do Irã,  participa hoje de uma palestra em São Paulo na qual deve abordar o papel dos muçulmanos no combate ao terrorismo. A visita foi criticada pela comunidade judaica e evangélica em virtude de declarações do imã sobre o Estado de Israel. Ao Estado, Araki disse ter vindo em busca do diálogo e pela paz, rechaçou as críticas e atribuiu as declarações sobre  Israel a uma análise feita com base no Alcorão. A seguir, trechos da entre vista:

Qual o principal tema da palestra de hoje?

Infelizmente alguns grupos que dominam o mundo provocam as guerras na região do Oriente Médio, especialmente quando criam e ajudam grupos terroristas. Dividem nossas sociedades e afetam nossa convivência pacífica. Nossa região convivia há centenas de anos em paz entre todos os povos.  Nunca havíamos testemunhado conflitos, como por exemplo Arábia Saudita e Catar, ou Arábia Saudita e Iêmen, como estamos convivendo.  As grandes potências em vez de ter um papel pacífico, provocam mais guerras.  Como esse terrorismo nasceu? O terrorismo não tem religião, nem pátria.

Em uma reunião no Líbano, com o clérigo libanês sheik Mohammed Yazbek, o senhor disse que ‘a aniquilação do sionismo é uma certeza e uma promessa corânica’. Isso é compatível com sua pregação contra o terrorismo?

Em todos os livros sagrados, existem profecias.   Na própria Torá, há a profecia de um Estado Judeu. Muitas civilizações nascem e são extintas: o Império Otomano, a União Soviética. E o imã Khomeini foi uma das pessoas falava que a União Soviética seria extinta. 

Nós temos no Alcorão sagrado um versículo que haverá dois Estados  para os judeus: o primeiro vai ser fundado e extinto. O segundo, com mais força, existirá e será extinto novamente. Isso bate com alguns versículos até mesmo da Torá: o último Estado dos judeus será extinto pela chegada do  Messias.  Não é crime citar o livro sagrado.  Nos EUA, muitos analistas preveem o fim dos EUA e falam isso com base em análises, e com essa política atual, que coloca em risco a própria existência dos EUA. Censurar esse pensamento não levará a nada. Gostaria de convidar os analistas judeus a uma análise profunda social e veja se existe esse risco ou não. 

Qualquer Estado para continuar precisa de bases e princípios. A primeira regra para uma estabilidade de um Estado é que tenha relações pacíficas com seus vizinhos e seus habitantes. Hoje, o regime de Israel está em guerra dentro e fora de seu Estado. Nós acreditamos que essa forma de gestão não terá sucesso. O Irã sugeriu um referendo para a paz na Palestina, com todos os habitantes originais da terra - cristãos, judeus e muçulmanos - para criar uma Constituição para administrar seu próprio país e exista um Estado aceito por todos.  Que ambiente é esse que por 70 anos há uma guerra contínua? Eu faço uma pergunta para você sobre Israel: Que país é esse que não tem fronteiras, nem a característica de seus povos definida?

Como um país assim pode durar? Não é uma ideia minha, mas uma teoria de estudiosos que chegam a essa conclusão. Até mesmo intelectuais israelenses têm essa conclusão. Na minha opinião, não devemos costurar as bocas e parar de pensar. Isso não é lógico e certamente representa o radicalismo. Se existe uma análise oposta à minha, que seja discutida. O que não pode acontecer é ser criticado por isso.

O senhor falava da importância de debater e discutir ideias.Um defensor do Estado de Israel poderia discutir isso com o senhor no Irã? 

No Irã, nós convivemos com judeus. Existem intelectuais e políticos, membros do Parlamento, que são judeus. Somos iguais perante a lei no Irã. E esse diálogo no Irã acontece sempre. Existem rabinos no Irã que são contrários à minha análise. 

Por que o senhor veio ao Brasil? Enfrentou protestos em outros países?

Eu fui convidado para participar. Antes de vir aqui estava num congresso na Inglaterra, com personalidades muçulmanas, cristãs e judaicas. Todos reconheceram a importância do nosso discurso de união pacífica. Clamamos pela paz e pela harmonia.  Quem é contrário a essas ideias que deve ser criticado. Falaram que eu vim para cá para espalhar o ódio. Essas pessoas que devem ser criticadas. Representantes da sociedade brasileira nos convidaram e eles têm direito de fazer isso. Aqueles que querem evitar esse tipo de vento no Brasil estão criando um ambiente de ódio e islamofobia. 

Jamais vamos propagar o ódio aqui no Brasil. Entramos aqui oficialmente. O governo brasileiro está ciente e nos acompanha. O encontro visa o bem para o Brasil e certamente vai erguer o País como um exemplo de convivência pacífica. Que o Brasil receba vários líderes religiosos é um gesto gratificante e uma coisa boa. Que a mensagem da paz chegue ao Brasil e ao mundo inteiro. 

O senhor teme que o presidente Trump desista do acordo nuclear com o Irã?

Acreditamos que isso prejudicaria todos. Se o senhor Trump formalizar isso, a opinião pública iraniana vai na direção não apenas de abandonar o acordo, mas talvez além: abandonar o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, do qual somos signatários. Há dois anos atrás, o porta-voz da chancelaria britânica foi questionado do porquê das sanções, uma vez que o Irã é signatário do TNP e Israel tem bombas nucleares e não assina o tratado, sem sofrer nenhuma pressão.

Ele respondeu que ‘pressionamos o Irã porque o Irã assinou o acordo’. Com base nessa lógica, certamente seria mais interessante para o Irã recusar o acordo e não ser pressionado. Se o senho Trump tomar uma decisão mais severa, ‘rasgando o acordo’, tenha a total certexza de que a opinião pública iraniana seguirá nessa de direção (de abandonar o TNP). 

Qual o papel do Irã na crise entre o Catar e a Arábia Saudita?

O Irã sempre insere a linguagem do diálogo na região. Está à disposição para qualquer esforço para a paz. Já enviou diversas mensagens para ambos os países e afirmou que essa política, a forma que está sendo tratada a crise, não é benéfica a ninguém. Que situação é essa? Iêmen, cercado. Catar, cercado. Gaza, cercada. Síria, cercada. Daqui a pouco todos os países estarão com relações cortadas. Essa política é prejudicial a todos.

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