'Não dou Rajoy por morto, se unir o partido'

Para analista, premiê espanhol sobreviverá no cargo se conseguir unir o Partido Popular até que o escândalo seja esquecido

Entrevista com

PARIS, O Estado de S.Paulo

05 Fevereiro 2013 | 02h03

Chocados pelas notícias sobre o escândalo de corrupção envolvendo líderes do Partido Popular (PP), o mais importante da Espanha, milhares de espanhóis vêm solicitando, nas ruas ou nas redes sociais, a demissão do primeiro-ministro espanhol, Mariano Rajoy. Para o analista Antonio Losada, cientista político da Universidade de Santiago de Compostela, o premiê corre riscos, provocados não só pelas denúncias, mas também pela rejeição de parte do PP. Ainda assim, o especialista diz em entrevista ao Estado que o destino do chefe de governo não está selado. A seguir, os principais trechos.

O senhor acredita que as denúncias sobre o PP, seus líderes e Mariano Rajoy são fundamentadas?

Há razões mais do que fundadas para acreditar no financiamento ilegal do Partido Popular. Existe uma lei para financiar os partidos e, a despeito da lei, pessoas tiraram lucro disso. Havia uma estrutura muito opaca no Partido Popular, que permitia a seus dirigentes disfarçar seus salários. Não se sabia o que era salário legal ou no "black". Os dirigentes faziam trapaças, mas diziam que eram gente muito austera e muito correta. Não eram.

E qual é a gravidade dessas denúncias de corrupção?

Em termos de corrupção, o que está saindo agora não é inédito. Há dois anos o tesoureiro do PP foi imputado por outro escândalo semelhante. Além disso, não está ocorrendo nada na Espanha que não tenha acontecido na França de Nicolás Sarkozy ou na Alemanha de Angela Merkel. O que dá a dimensão catastrófica atual na Espanha é que a crise política foi amplificada pela crise econômica. Temos 26% de desempregados, além de todos os que temem por seus empregos, por suas famílias, etc. As notícias que estão surgindo sobre os indícios de corrupção amplificaram a situação de tensão. Há um fator emocional que legitima ainda mais a resposta social às políticas do governo.

Rajoy sofre pressões para renunciar. O senhor acredita que ele pode cair?

Há uma guerra interna no Partido Popular e em seu entorno empresarial. Mariano Rajoy não era o mais apreciado. Há uma operação em marcha com ramificações dentro e fora do Partido Popular para derrubá-lo. Creio que ele pode cair, sim. A pressão política é muito forte e ela ainda vai se multiplicar. Rajoy vai passar dias muito duros. Sua única alternativa é unir-se aos setores do partido que lhe são fiéis.

O senhor acredita na hipótese de convocação de novas eleições?

É um cenário difícil. Seria necessário pôr fim à maioria do PP que hoje sustenta o governo. Não vejo essa hipótese hoje. Além disso, se Rajoy não cair agora terá dois anos sem nenhuma eleição pela frente para fazer a população esquecer esse escândalo. Não dou Rajoy por morto, especialmente se ele conseguir unir o partido. No sábado o primeiro-ministro espanhol já mandou um recado: disse que é um homem de partido. A meu ver, Rajoy precisa de tempo, de que a economia se recupere um pouco e a oposição siga sem oferecer uma alternativa. / A.N.

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