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Não é a Guerra Fria

Dada a anexação da Crimeia pela Rússia, a imposição de sanções por parte de Estados Unidos e Europa e a piora da situação na Ucrânia, testemunhamos os mais importantes eventos geopolíticos desde o 11 de Setembro. O que corre na Ucrânia marca uma virada. As relações entre Washington e Moscou já apresentavam desgaste. Com a suspensão dos russos do G-8 e a grande probabilidade de novas restrições, as relações estão agora completamente prejudicadas.

IAN BREMMER, O Estado de S.Paulo

13 de abril de 2014 | 02h04

Várias formas de conflito entre Ocidente e Oriente são inevitáveis, com implicações para a segurança da Europa, a estabilidade da Rússia, o futuro da UE e da Otan, além dos mercados globais de energia. Embora as tensões tenham vindo para ficar, com grandes chances de piorarem, não estamos diante de uma nova Guerra Fria e nem corremos o risco de ela voltar. Há várias razões para isso.

Primeiro, a Rússia não tem amigos poderosos e nem o poder de fazer novos amigos desse tipo. Quando a Assembleia-Geral da ONU votou para decidir a legitimidade da anexação da Crimeia, apenas dez países ficaram do lado da Rússia. O apoio veio de vizinhos que os russos podem coagir (Armênia e Bielorrússia) e países párias sem influência internacional (Cuba, Coreia do Norte, Sudão, Síria e Zimbábue).

Somam-se a eles alguns países latino-americanos tradicionalmente simpáticos aos russos (Venezuela, Bolívia e Nicarágua), deixando claro que a Rússia carece do apelo ideológico da União Soviética: seus aliados estão alinhados contra a ordem global estabelecida e não em torno de algum princípio alternativo de organização que o país possa oferecer.

Decadência. Além disso, o PIB russo cresceu apenas 1,3% no ano passado e sua crescente dependência da exportação de recursos naturais garante que esse crescimento não deve aumentar sem uma improvável e acentuada alta nos preços globais da energia.

Em 2007, a Rússia precisava que o barril de petróleo Brent tivesse preço mínimo de US$ 34 para equilibrar seu orçamento. Cinco anos mais tarde, esse preço mínimo tinha chegado a US$ 117.

No ano passado, a exploração do petróleo e do gás correspondeu a cerca de metade da renda do governo russo. Para piorar, a economia é controlada por uma pequena elite que depende do favorecimento de Putin. Mais de um terço da riqueza doméstica do país está nas mãos das 110 pessoas mais ricas.

Apesar de seu arsenal atômico, sujeito às mesmas regras da destruição mútua assegurada que limitavam o uso das armas americanas e soviéticas, a Rússia carece também da capacidade militar da União Soviética.

Atualmente, os gastos dos EUA com seu Exército são cerca de oito vezes superiores àquilo que a Rússia oferece aos seus militares. Os russos têm força para causar problemas para seus vizinhos, mas não conseguem projetar seu poder em escala comparável à da Guerra Fria.

Para a Rússia, a maior limitação está na relutância da China em se tornar uma aliada confiável contra o Ocidente. Pequim tem pouco a ganhar se tomar partido no conflito.

Por mais que queira adquirir uma fatia maior da energia exportada pela Rússia, a China não tem incentivos para atrair a inimizade de seus principais parceiros comerciais (EUA e UE) para favorecer Moscou. Na verdade, os chineses parecem ser os maiores (e talvez os únicos) vencedores da crise que continua a se desenrolar na Ucrânia.

Vantagens. Enquanto a Europa gasta mais para reduzir sua dependência da energia russa, os chineses sabem que podem pedir um preço mais alto, ao mesmo tempo mantendo relações pragmáticas com ambos os lados.

A China também é beneficiada com o deslocamento do foco americano do leste da Ásia para o Leste da Europa. Os chineses serão cuidadosos com as tentativas russas de provocar crises de secessão na Ucrânia, pois o país se opõe a qualquer precedente que possa ser usado para provocar uma demanda similar em regiões tumultuadas da China, como Tibete e Xinjiang.

Mesmo sem uma nova Guerra Fria, a Rússia pode tentar impossibilitar os planos da política externa ocidental. Os russos podem encorajar o governo de Bashar Assad, na Síria, a ignorar as demandas do Ocidente pela destruição ou entrega de suas armas químicas. Podem oferecer a Assad mais auxílio financeiro e militar. Ainda assim, Assad já conquistou terreno o bastante para sobreviver à guerra civil na Síria e há pouco o que a Rússia pode fazer para evitar o colapso de um país dilacerado.

A Rússia também pode tentar perturbar as negociações envolvendo o destino do programa nuclear iraniano. No entanto, não será fácil para Moscou convencer Teerã a recusar um acordo que eles desejam como meio de reconstruir sua economia doméstica. E os russos não desejam uma corrida armamentista nuclear no Oriente Médio, que ocorreria muito mais perto das fronteiras do país do que dos EUA. Em resumo, a Rússia continua sendo uma potência regional, embora a contribuição do presidente Obama ao mencionar isso publicamente seja negativa.

Mas, por mais que não tenhamos uma nova Guerra Fria, nem tudo são boas notícias. O conflito entre Ocidente e União Soviética impôs uma ordem internacional que tornou a política internacional relativamente mais previsível.

Em um mundo que sofreu o pior "derretimento" americano em 70 anos, uma crise existencial na zona do euro, levantes em todo o Norte da África e Oriente Médio, uma crescente maré de insatisfação pública e, agora, um perigoso impasse entre Ocidente e Oriente envolvendo a Ucrânia - tudo isso nos últimos seis anos - certa dose de previsibilidade seria bem-vinda.

IAN BREMMER É PRESIDENTE DO EURASIA GROUP E PROFESSOR DE PESQUISA GLOBAL NA UNIVERSIDADE DE NOVA YORK

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