Não é o pior dos tempos

O mundo atual é imprevisível, mas não há perigos geopolíticos como os da Guerra Fria

FAREED, ZAKARIA, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

19 Julho 2014 | 02h02

O mundo parece muito conturbado ultimamente, oferecendo uma boa ocasião para se examinar as forças mais gerais que estão produzindo a confusão. Mas em Washington, é claro, esta é mais uma oportunidade para os partidarismos. "Acredito que as coisas que estamos vendo hoje no mundo, uma conturbação maior do que qualquer outra durante meu tempo de vida, são resultado direto da falta de liderança americana", disse o senador John McCain à CNN no fim de semana.

Mesmo? McCain tem uma vida longa e eminente e estou certo de que se lembra do que aconteceu, por exemplo, em 1973, o ano em que ele e outros 590 foram libertados da prisão no Vietnã. Naquele ano, só no Vietnã, muitas centenas de milhares de pessoas morreram em razão da guerra.

E isso não inclui as dezenas de milhares que morreram na Guerra do Yom Kippur, também em 1973. O efeito subsequente dessa guerra foi que, em retaliação pelo envolvimento dos Estados Unidos, os principais países produtores de petróleo anunciaram um embargo do insumo contra os EUA e seus aliados mais próximos. No intervalo de um ano, o preço do petróleo quadruplicou e o mundo industrializado se viu mergulhado numa crise econômica profunda, perdendo para sempre o acesso à energia barata do Oriente Médio.

Tudo isso ocorria à sombra de uma potencial guerra nuclear. As superpotências tinham quase 45 mil armas atômicas apontadas uma para a outra. Durante a Guerra do Yom Kippur, de 1973, as forças americanas foram colocadas em alerta alto - Defcon 3. A única vez em que tinham sido colocadas no estado de prontidão mais sério, Defcon 2, foi durante a crise dos mísseis de Cuba. Eu poderia ter escolhido 1956, o ano em que a União Soviética suprimiu brutalmente o levante húngaro, o controle do Vietnã pela França ruiu, os franceses, britânicos e israelenses montaram uma fracassada invasão do Egito e as relações sino-americanas sobre Taiwan continuavam fermentando tensões que alguns anos antes fizeram Washington estudar o uso de armas nucleares.

O mundo atual é imprevisível, mas não se compara aos tipos de perigos geopolíticos que existiram por décadas durante a Guerra Fria, para não mencionar antes desse período. Mas mesmo assim vale a pena compreender o que está produzindo a instabilidade atual.

Na Europa oriental, o fator principal é que o povo ucraniano decidiu que não quer viver sob o bastão do Kremlin. Isso provocou tensões, mas é porque as pessoas estão demandando uma genuína independência de um velho sistema imperial. Trata-se de um desenvolvimento positivo, por mais que complique a vida.

No Leste Asiático, estamos testemunhando um evento dos mais antigos da história, a ascensão de uma nova grande potência. Será mesmo tão surpreendente que a China, a segunda maior economia do planeta, esteja buscando aumentar sua influência política na região? Nesses dois casos, o governo Barack Obama manejou os desafios razoavelmente bem, retrucando de modo cuidadoso, mas determinado, coordenando políticas com aliados e assegurando que as tensões não fujam de controle ou desandem para um conflito ativo.

Obama foi menos bem-sucedido no trato com o Oriente Médio em geral, a área mais conturbada. Zbigniew Brzezinski falou de um "arco de instabilidade" durante os anos 70 que parece notavelmente similar à área de agitação atual. A Guerra Irã-Iraque produziu mais de 1 milhão de baixas nos anos 80. E depois houve duas guerras lideradas pelos EUA contra o Iraque, a invasão israelense do Líbano, duas intifadas, etc.

As forças que estão criando a instabilidade atual são mais profundas do que nunca. A velha ordem do Oriente Médio repousava em dois fatos relacionados - apoio de superpotência e ditaduras repressivas. Ambos foram enfraquecidos e, por conseguinte, forças há muito suprimidas - islâmicas, étnicas e democráticas - estão aflorando. A noção de que Washington pode estabilizar facilmente esta situação é tola, como suas longas e dispendiosas experiências no Iraque e no Afeganistão claramente demonstram.

A despeito de todos os problemas, é preciso ter em mente que vivemos num mundo com um número consideravelmente menor de perigos. Uma guerra nuclear é impensável. Os arsenais nucleares russos e americanos foram reduzidos a um quinto do seu tamanho de 1973 e estão num nível inferior de prontidão. Em 1973, a Freedom House publicou seu primeiro relatório de direitos políticos em todo o mundo. Na época, países listados como "não livres" suplantavam os países "livres". Hoje, isso se inverteu, e o número de países "livres" dobrou.

Mercados abertos, comércio e viagens explodiram, permitindo que centenas de milhares de pessoas escapem da pobreza e vivam vidas melhores. Evidentemente há crises, problemas e tensões mundo afora. Mas ninguém com algum senso de história desejaria voltar no tempo em busca de menos conturbação. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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