REUTERS/Manaure Quintero
REUTERS/Manaure Quintero

'Não é surpresa', diz militar venezuelano sobre indícios de narcotráfico nas Forças Armadas

Tenente que vive hoje nos EUA afirma ao 'Estado' que governos Chávez e Maduro sabiam e permitiram envolvimento

Entrevista com

José Colina, tenente venezuelano que vive no exílio

Fernanda Simas, O Estado de S.Paulo

28 de fevereiro de 2020 | 04h00

A divulgação de um relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre indícios de que grupos ligados ao narcotráfico se infiltraram nas Forças Armadas da Venezuela não surpreendeu o tenente venezuelano José Colina, que fugiu do país há 16 anos e hoje vive nos Estados Unidos. "Não é uma surpresa. Na verdade quando ninguém falava da presença do narcotráfico nas Forças Armadas, há mais ou menos sete ou oito anos, nós denunciamos essa situação", afirmou ele em entrevista ao Estado.

O militar explica ainda que atuava na região de fronteira entre Venezuela e Colômbia quando começou a infiltração do narcotráfico nas forças de seu país e hoje atribuiu a piora da situação a uma perda de controle do presidente Nicolás Maduro

Foi uma surpresa para o senhor esse relatório?

Não é uma surpresa. Na verdade quando ninguém falava da presença do narcotráfico nas Forças Armadas, há mais ou menos sete ou oito anos, nós denunciamos essa situação. A infiltração nas Forças Armadas começou com o Cartel Los Soles porque vários generais do alto comando militar integravam o cartel, entre eles Henry Rangel Silva que foi ministro da Defesa, o general Hugo Carvajal...pessoas que tinham cargos importantes dentro das Forças Armadas e os usavam para facilitar o tráfico de drogas ao México, América Central e Europa.

Pouco antes de 2008, alertamos as autoridades americanas de que era necessário processar por narcotráfico a vários integrantes do alto comando militar e a Nicolás Maduro e Hugo Chávez por ser quem permitiam essas operações dentro das Forças Armadas e encobriam os oficiais. 

Então é possível dizer que Chávez e agora Maduro sabiam da situação?

Eles sabiam e, o mais lamentável, é que permitiram essa situação. Chávez permitiu para se manter no poder e manter setores das Forças Armadas que lucravam com essas atividades satisfeitos. Maduro permite por não ter nenhum tipo de controle. Os chefes do narcotráfico na Venezuela têm muito mais poder que ele, então ele não consegue controlar isso. Pior do que isso, Maduro condecora e dá mais poder a militares que estejam envolvidos com isso. Maduro foi protetor e impulsor do narcotráfico na Venezuela.

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A situação hoje é pior? Por que?

Hoje está pior porque falamos de um país com um Estado falido, onde as Forças Armadas mantêm Maduro no poder por várias razões, uma delas o narcotráfico. Oficiais do alto comando desenvolveram um poder enorme dentro do poder, principalmente nomes envolvidos com a Guarda Nacional Bolivariana. 

Quando começou a infiltração do narcotráfico nas Forças Armadas?

Essa infiltração começou entre 2003 e 2004 com alguns generais e coronéis e foi agravada entre 2008 e 2009, quando a participação dos militares no narcotráfico era muito mais aberta e notável. A situação se torna pública entre 2013 e 2014.

Há uma relação direta entre esse começo e a presença das guerrilhas colombianas na Venezuela?

Uma das primeiras coisas que Chávez fez ao chegar ao poder foi permitir que algumas regiões se tornassem zonas de proteção aos grupos guerrilheiros (colombianos). Em 2002, recebíamos ordens escritas para permitir que a guerrilha operasse no território venezuelano. Estava proibido enfrentá-los ou pará-los. 

Na época o senhor atuava em que área militar?

Eu atuava como tenente da Guarda Nacional, chefe de abastecimento de um comando que atuava com grupos fronteiriços porque Chávez desenvolveu uma política de ajuda social. Eu estava dentro das Forças Armadas e isso foi uma das coisas que me motivaram a me posicionar contra Chávez e denunciar a presença de grupos irregulares na Venezuela.

O que aconteceu com o senhor depois disso?

Hoje eu integro o grupo Oficiais da Praça Altamira, publicamente contrário ao governo Chávez desde outubro de 2002. Passei para a clandestinidade porque fui acusado de colocar explosivos na embaixada da Espanha e no consulado da Colômbia, além de tráfico de armas e rebelião. Na Colômbia, em 2003, eu pedi asilo político nos EUA. No aeroporto de Miami, fui detido pelas autoridades migratórias e a Venezuela pediu minha extradição, então fiquei 2 anos e 4 meses detido no território americano. Em 2006, fui libertado.

Ainda tem contato com outros militares?

De fora do país entramos em contato com gente das Forças Armadas. Meus colegas hoje são coronéis e, em breve, serão generais. Sempre mantive contato com militares descontentes com o governo. 

 

 

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