Não foi o mercado que derrubou Gordon Brown

AFatores políticos, associados a econômicos, explicam as mudanças em Downing Street, 10, sacramentadas pela ascensão de David Cameron ao poder. Mas, ao contrário do que se imaginar, não foi o apoio do mercado financeiro ao conservador que derrubou o bem-sucedido ex-secretário da Economia e líder do Partido Trabalhista, Gordon Brown, do cargo de premiê - que ele ocupava desde 2007.

Cenário: Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

12 Maio 2010 | 00h00

À frente da Secretaria da Economia do governo de Tony Blair, Brown aprofundou o programa de desregulamentação do mercado financeiro britânico, iniciado pelos conservadores Margareth Thatcher e John Major - que tornou a City (o distrito financeiro) de Londres a potência quase incontrolável que foi por 15 anos.

Na gestão de Blair, governo e mercado foram unha e carne. E, se deixaram de ser, foi porque o sistema - ao agir sem vigilância - quase quebrou, e não porque Brown tenha rompido com os investidores. Esse rompimento não existiu, mesmo que o premiê tenha adotado um discurso crítico à desregulamentação, defendendo ações contrárias aos interesses do mercado, como a proposta de criação de um imposto, o Tobin, em novembro, na Escócia.

No governo Brown, houve a crise do sistema financeiro a abalar o âmago da economia. Mas, na Grã-Bretanha, o ex-líder trabalhista ainda é tido como um tecnocrata que sabia lidar com a turbulência. Ele foi elogiado por sua conduta após a quebra do banco Lehman Brothers, em 2008. É saudado por ter nacionalizado parte do sistema financeiro - algo que Cameron, em princípio, recriminou. E é reconhecido por ter liderado a Cúpula de Londres do G-20, em abril de 2009, evento que a Europa já registra na história como um "ponto sem retorno" na crise do sistema financeiro.

Brown é tão respeitado por sua conduta econômica que sua experiência de gestão foi o seu maior cabo eleitoral na quinta-feira. Cameron, é verdade, foi o preferido dos investidores. Mas, na Londres em que City e poder econômico e político se confundem, primeiros-ministros são só mais um tijolo no muro.

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