'Não fui nomeada, mas me sinto uma diplomata do povo'

Com chegada ao Brasil prevista para o dia 18, dissidente pretende lançar nova edição de seu livro publicado no País

Entrevista com

GUILHERME RUSSO, O Estado de S.Paulo

08 de fevereiro de 2013 | 02h04

A blogueira cubana e colunista do Estado Yoani Sánchez conta que vinha tentando obter autorização para deixar seu país desde 2008. Por 20 vezes, teve a permissão negada. Ela acredita que, com a flexibilização na lei migratória de Cuba conseguirá vir ao Brasil, onde planeja chegar dia 18, para participar do lançamento da nova edição de seu livro De Cuba, com Carinho (Editora Contexto), em São Paulo, e da exibição do documentário Conexão Cuba Honduras, do cineasta Dado Galvão, na Bahia. A seguir, os principais trechos de entrevista concedida ao Estado.

Qual é o principal motivo para que os dissidentes deixem Cuba?

Essa é uma magnífica oportunidade para a dissidência cubana. E tenho esperança de que vamos aproveitá-la. Temos de nos dar conta que há uma nova etapa, uma nova época que começa. Uma fase em que poderemos aceder aos microfones do mundo para explicar nossos projetos.

A sra. já viveu no exterior.

Desde quando vinha pedindo

autorizações para sair de Cuba novamente?

Vivi dois anos no exterior. Em 2004, voltei da Suíça. Criei meu blog (Generación Y) em 2007. Comecei a pedir permissão para viajar em maio de 2008, quando ganhei o Prêmio Ortega y Gasset de Jornalismo (concedido pelo jornal espanhol El País, que atualmente mantém Yoani como correspondente e articulista em Havana). Basicamente, foram cinco anos de batalha legal para poder sair do país. Uma batalha que me levou até a fazer uma queixa à Promotoria-Geral. Ou seja, esgotei todos os caminhos legais dentro de Cuba. Não fiquei com os braços cruzados. Continuei com meus pedidos e fiz tudo o que legalmente estava ao meu alcance.

Como a sra. recebeu o anúncio da alteração da Lei de Migração cubana, em outubro?

A primeira sensação foi uma mistura de esperança e ceticismo. Esperança porque, durante muitos anos, nós, cubanos, havíamos esperado por flexibilizações para entrarmos e sairmos de nosso próprio país. Ceticismo porque, em geral, sempre temos muita desconfiança e muito receio de tudo o que vem do governo. A maioria dos cubanos sempre está se perguntando: "Onde está a armadilha?"

Como foi o processo de obtenção do passaporte?

Vinte e quatro horas antes do dia 14 de janeiro (quando começou a vigorar a nova Lei de Migração), meu marido e eu começamos a fazer fila diante do escritório de migração. Esperamos toda a madrugada e fomos os primeiros que solicitaram, sob a nova lei, o passaporte no escritório de nossa região.

Como a sra. se sentia cada vez que o governo lhe negava autorizações de saída para o exterior?

Era muito frustrante. Não somente pela impossibilidade de viajar. Por um lado, porque cada negativa significava que eu perdia uma experiência pessoal e profissional importante para a minha vida.

A sra. chegou a perder as esperanças?

Eu tinha a convicção de que algum dia conseguiria viajar. Isto me dava forças para continuar tentando. Eu sentia que tinha razão. Era uma situação em que eu sabia que estava pedindo algo que era meu direito pelo simples fato de ter nascido neste país. Então, as funcionárias que me davam as negativas sempre faziam um papel difícil, de repressor, da pessoa que tem de limitar o movimento de um cidadão. Acho que isto me abriu as portas para insistir. Foi a consciência de que tanto absurdo tinha de terminar.

Os documentos ficaram prontos no prazo?

Solicitei o passaporte e disseram que eu deveria esperar duas semanas. Duas semanas depois, fui lá e começaram as evasivas. Diziam: "Há uma atraso", "Os passaportes não chegaram" ou "Volte em alguns dias". Denunciei o atraso por meio do Twitter e, para a minha surpresa, uma tarde me chamaram em minha casa para dizer que meu passaporte estava pronto. Isso é muito raro, porque, normalmente, o Ministério do Interior cubano nunca chama um cidadão para dar-lhe boas notícias. Foi uma surpresa.

E agora?

Agora já tenho o passaporte na mão, já tenho o visto do Brasil, já tenho o visto da Europa e estou esperando o visto dos EUA e de alguns outros países da América Latina.

O que a sra. pretende fazer enquanto estiver no Brasil?

Mais do que narrar ou falar, quero aprender de vocês. Em primeiro lugar, como se constrói uma democracia. Quero aprender também como fazer um jornalismo mais livre, sem autocensura e sem censura. Quero caminhar muito pelas ruas das cidades e dos vilarejos, perguntar às pessoas quais são os seus problemas, quais são as vantagens que veem em viver aí. Quero fazer contatos profissionais também. Tenho a esperança de estabelecer relações de amizade e de trabalho. Vou também em um caráter de "diplomata do povo". Nenhuma chancelaria me nomeou, nenhum palácio de governo me reconhece como representante, mas sinto que devo ajudar a estreitar os vínculos entre uma nação e outra.

Que tipo de apoio a sra. espera obter no Brasil?

O apoio principal é que tenham a capacidade de me escutar, que consigam escutar todas as histórias dessa Cuba diversa, plural, em mutação, uma Cuba com anseio de democracia e de liberdade. Se os brasileiros forem capazes de me escutar, então, terá valido a pena sair. Esse é o principal apoio, a principal ajuda que quero. Também quero criar pontes para viagens de outros ativistas, blogueiros, jornalistas independentes. Gostaria de criar vínculos também do ponto de vista acadêmico, conhecer estudantes e interagir com pessoas que estejam fazendo jornalismo.

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