Cristian Hernandez / AFP
Cristian Hernandez / AFP

'Não há ações concretas da oposição para tirar Maduro', diz analista venezuelano

Professor da Universidade Simon Bolívar, em Caracas, argumenta que oposição está enfraquecida, Juan Guaidó fracassou e não há um nome da oposição atual a despontar

Entrevista com

Erik Del Bufalo, professor da Universidade Simon Bolívar

Levy Teles / Especial para O Estadão, O Estado de S.Paulo

08 de dezembro de 2020 | 04h00

​Apenas três em 10 venezuelanos marcaram presença na eleição legislativa no país, boicotada pela oposição liderada por Juan Guaidó. Os apenas 31% dos eleitores presentes deram caminho para a vitória do chavismo, que retoma a maioria do Parlamento, numa votação contestada por pelo menos mais de 15 países, entre eles, o Brasil.

Para o analista Erik Del Bufalo, professor da Universidade Simon Bolívar, em Caracas, o triunfo do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), liderado pelo presidente Nicolás Maduro, é um reflexo de que as coisas seguirão como antes na Venezuela: com mais uma derrota para uma oposição desprestigiada e sem uma reação capaz de enfrentar o presidente.

O acadêmico vê em Juan Guaidó, líder da oposição e autoproclamado presidente da Venezuela, um personagem "triste" e incapaz de agir com o poder que teve em mãos. Para ele, a oposição precisa de caras novas e mudanças de estratégias.

O que podemos tirar das eleições do domingo? 

Ontem não foi uma eleição verdadeira. A oposição real não se apresentou. Só se apresentaram figuras do chavismo. 

A eleição deve ser feita a cada cinco anos pela constituição.  Mas as instituições que fizeram não têm legitimidade. São eleições totalmente inauditáveis, tanto que se consideram fraudulentas. Assim é com a comunidade europeia e com outros países da América Latina, com a exceção de Cuba. 

Faltou uma proposição de alternativa mais concisa da oposição?

Não há nada novo envolvido neste processo eleitoral. O regime continua com sua farsa, mas significa que, de alguma forma. Pode ser um momento para a oposição repensar a estratégia para os próximos tempos.

Lamentavelmente, por outro lado, a oposição não teve uma reação coerente. A sensação que hoje habita é que nada muda. 

O que falta para a oposição venezuelana?

O problema da oposição é que há muita gente, não tem prestígio. Perderam cinco anos quando tiveram maioria absoluta na Assembleia Nacional e não fizeram nada. Portanto, perderam. Prometiam que iriam tirar Maduro cinco anos - essa promessa não se cumpriu e agora eles não têm nenhum prestígio. As ações que estão tomando são midiáticas. Não há ações concretas, eficazes, para tirar Maduro do poder.

É preciso uma mudança de atores e de estratégia. Os atores estão saturados, as pessoas não se identificam com a classe política da oposição e por isso há uma sensação de letargia. 

E é preciso mudar a estratégia. É preciso maior colaboração e maior confrontação. Precisa saber articular o apoio nacional e o apoio das forças armadas. É impossível governar sem as forças armadas.

Por que esse ator não foi Guaidó?

Guaidó é um personagem pouco eficaz para mudar a situação, tem muito respaldo popular, mas sua técnica pessoal fracassou. É um personagem triste, que não soube fazer com o mandato que teve. Não soube organizar a oposição, não teve uma ação efetiva e veem como um segundo Leopoldo López [segundón de Leopoldo]. Não é como um líder em si mesmo.

Há um nome que possa despontar como esse novo ator?

Neste momento, não há nada. Mas pode aparecer num futuro breve. A oposição está desestruturada, sem orientação.

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