'Não há ameaça islâmica na região'

Para acadêmico líbio, mundo árabe vai assistir à chegada de partidos islâmicos moderados e democráticos no poder

Entrevista com

ANDREI NETTO, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

17 de dezembro de 2011 | 03h10

Durante as décadas em que construiu uma carreira de sucesso como cientista político, formado na Líbia e pós-graduado nos EUA, Mustafa al-Abulgasem Kashian manteve-se distante das esferas de poder. Nesse período, todo cargo de direção, mesmo que fosse na Universidade de Trípoli, na qual é docente, significava algum grau de cooperação com o regime de Muamar Kadafi, do qual era crítico. A seguir, trechos da entrevista exclusiva ao Estado.

Desde novembro, a Líbia é comandada por um novo premiê, Abdurrahim el-Keib, um acadêmico e tecnocrata. Quais são os rumos recentes do país?

Há muito trabalho a fazer por este novo governo. Mas ao mesmo tempo estamos diante de uma grande oportunidade, mesmo que o tempo seja escasso, apenas oito meses até as eleições. Os principais desafios de Keib são a segurança, a recuperação econômica e problemas sociais que se agravaram com a revolução. Mas a situação do país é certamente muito melhor do que no último mês ou nos últimos meses. Além disso, este governo representa as diferentes regiões do país, o que é um fator político importante.

Quase dois meses após a liberação do país, qual é a sua avaliação da situação política da Líbia?

A situação do país caminha para a estabilidade. A revolução teve um enorme apoio público e todos manifestam o desejo de construir juntos o futuro da Líbia. É um momento inédito, em que a nação se prepara com uma boa atmosfera para a estabilidade democrática. Estou otimista em relação ao presente e ao futuro próximo da Líbia.

Eleições realizadas na Tunísia, no Marrocos e no Egito apontaram para uma onda de partidos islâmicos moderados assumindo o poder no Norte da África e no Oriente Médio, certo?

Creio que há um amplo apoio público para os partidos islâmicos democráticos, não apenas na Tunísia, no Marrocos e no Egito, onde já ocorreram as primeiras eleições livres, mas também na Líbia. A maior parte da população desses países segue correntes islâmicas moderadas, e a sua visão é bastante moderna. Para mim, parece muito claro que o Norte da África e o Oriente Médio vão alçar ao poder correntes democráticas e moderadas de partidos islâmicos modernos, que têm muito mais penetração popular que os partidos islâmicos mais conservadores e radicais.

Logo o senhor não crê que em uma "ameaça islâmica" à democratização.

Não creio em ameaça islâmica, de nenhuma forma. Os discursos políticos desses partidos são muito claros e giram em torno de propostas moderadas. Em um momento revolucionário intenso, como o que atravessamos, são os segmentos majoritários da população que tendem a se impor. Isso explica a ascensão dos partidos islâmicos moderados e democráticos. Eles não representam uma ameaça. O Ocidente não precisa temer. Não há lugar para extremismos, seja na Líbia, seja na Tunísia, no Marrocos ou mesmo no Egito.

Mas estes partidos não pregam o Estado secular, desvinculado da religião. Há algum risco de que os partidos adaptem seus discursos?

Não acredito que eles modificarão seus programas já para essas primeiras eleições. Teremos Estados democráticos, dirigidos neste primeiro momento por partidos islâmicos. Essa é a realidade que se desenha, pois a opinião pública também tem medo e rejeita os radicalismos.

A revolução na Líbia foi viabilizada em grande parte pela intervenção militar da Otan. O senhor acredita que uma intervenção seria plausível no caso da Síria, onde a repressão é violenta?

Depende muito da continuidade da revolução na Síria. Se a repressão continuar tão dura quanto está agora, mas mesmo assim a população continuar se manifestando, então uma intervenção militar pode acabar sendo necessária na Síria.

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