REUTERS/Vicente Gaibor del Pino
REUTERS/Vicente Gaibor del Pino

'Não há espaço nem para vivos, nem para mortos', diz prefeita de Guayaquil

Maior cidade do Equador enfrenta colapso de hospitais e cemitérios mesmo antes de o pior chegar

Redação, O Estado de S.Paulo

14 de abril de 2020 | 18h42

GUAYAQUIL, EQUADOR - Guayaquil, no sudoeste do Equador, sofre, como nenhuma outra cidade latina, a força destruidora da pandemia do novo coronavírus. Hospitais e cemitérios entraram em colapso, antes mesmo de o pior chegar. "Não há espaço nem para vivos, nem para mortos", diz sua prefeita, Cynthia Viteri.

Em entrevista à AFP, a advogada, 54, que superou a infecção pelo vírus, está à frente da pior emergência já enfrentada pela cidade, de 2,7 milhões de habitantes.

Foi como se uma bomba tivesse explodido, comenta a prefeita. Guayaquil concentra 71% dos casos detectados no país, incluindo 369 mortos, desde 29 de fevereiro. Autoridades esperam para as próximas semanas até 3.500 mortes na província de Guayas, da qual a cidade é capital.

Cynthia, enérgica, não se esquiva da responsabilidade pela propagação do coronavírus, mas tampouco pensa que Guayaquil deve ser tratada como "vilã".

Por que Guayaquil não se preparou para esta emergência?

Certamente não estamos preparados. Jamais se pensou que o que víamos em Wuhan, onde pessoas caíam mortas nas ruas, aconteceria aqui.

O que aconteceu com Guayaquil? Aqui a bomba explodiu. Aqui chegou o paciente zero, e como era época de férias, nossos equatorianos viajaram para o exterior, para a Europa, os Estados Unidos, e chegaram pessoas nossas que viviam na Europa.

Quando entraram, não passaram por nenhum controle, como deveria ter sido feito se soubéssemos que isto já vinha pelo ar. E a cidade simplesmente entrou em convulsão. O sistema de saúde, obviamente, transbordou, os necrotérios transbordaram, as funerárias, idem.

Aqui não havia e não há espaço nem para vivos, nem para mortos. Neste ponto está a gravidade da epidemia em Guayaquil.

Quais são as responsabilidades por este colapso?

Não somos os vilões do mundo. Somos as vítimas de um vírus que chegou pelo ar. Nesta mesma cidade, em 1842, um vírus chegou pela água do Panamá, houve a febre amarela e os mortos eram enterrados em valas comuns.

Agora, vivemos algo que nenhum de nós viveu. Ninguém estava preparado para isto. A responsabilidade é de todos, porque ninguém esperava o que aconteceu no Equador, muito menos em Guayaquil.

Aqui explodiu uma bomba. Quando uma bomba explode em um lugar, é ali onde fica a cratera. Os demais recebem apenas ondas expansivas. Aquele que estiver livre de pecados que atire a primeira pedra nesta pandemia.

Guayaquil carrega o peso dos mortos. Quais são as cifras reais?

As cifras que temos não são reais por uma única razão: porque não há testes para determinar quantas pessoas estão realmente infectadas na cidade e no país.

Pacientes morrem sem terem sido testados. Não há espaço, nem tempo, nem recursos para a realização de exames posteriores para saber se o motivo foi coronavírus. Então, o número será conhecido quando esta tragédia, este pesadelo, terminar por aqui.

As pessoas continuam caindo nas casas, nos hospitais, por todo lado. Porque continua havendo mulheres que precisam dar à luz, pessoas atropeladas, pessoas com diabetes e hipertensão.

Cem pessoas morreram no mês passado por não terem a diálise aqui. Porque não há espaço, porque nossos médicos também caíram doentes. Apenas no município, perdemos cerca de 50 funcionários. 

O que acontecerá quando se alcançar o pico de infecções?

Vou colocar o que tenho disponível para qualquer obra em 2020 e conseguir os recursos, que, de fato, já tenho. Já colocamos 12 milhões de dólares (para a compra de testes de diagnóstico) nesta pandemia. Para mim, não há outro caminho.

Deve-se cuidar dos vivos e dispor de um lugar digno para os mortos. Estamos vivendo uma guerra. Esta é a principal cidade comercial do país.

Por que houve um caos no manuseio dos corpos?

Este tema cabe exclusivamente ao governo central. Fornecemos, como município, para complementar, os contêineres frios aos hospitais públicos, para que os responsáveis por remover os corpos, que é a criminalística, possam ter para onde levá-los antes do sepultamento. Estou construindo mais dois cemitérios.

Os corpos estão sendo recolhidos diariamente, o que é duríssimo, porque significa que todos os dias há luto em Guayaquil. /AFP

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